Quando nem tudo gira ao redor do preconceito.

Você precisa entrar nesse redemoinho ou sair dele”

– Maura

O sexto episódio de Transparent traz em seu bojo uma reflexão muito produtiva. Quando pensamos na transsexualidade geralmente evocamos a imagem de uma pessoa já consolidada em sua mudança, certa do que quer e conhecida pelo mundo como sendo do gênero que escolheu. O que a série quer nos mostrar, entretanto (e faz isso contando uma história de transição), é que os grandes desafios de um transsexual estão nessa “zona cinzenta” de transformação. É ali que seus amigos e familiares ainda não sabem lidar direito com a situação, não conseguem absorver por completo a mudança de gênero e falham em dar o suporte correto.

Seguindo essa linha de pensamento é que podemos enxergar a atitude das pessoas que cercam Maura de forma diferente. Josh parece um completo idiota preconceituoso nesse episódio, não? A questão é que não há o mínimo fundamento para acreditarmos nisso. Ele cresceu no meio judaico, sim, mas nunca se envolveu com ele e tem pouquíssimas restrições morais. O fato é que todo o discurso de “ele está demente” e a busca por respostas em um site transsexual de pornografia refletem apenas seu próprio egoísmo e falta de empatia. Josh não entende o pai e só agora está se esforçando nesse sentido.

Ali, por sua vez, também enfrenta suas dúvidas. Numa criativa cena ela conversa com um transsexual e também tenta “entender” toda a situação. Estamos falando de preconceito? Nem um pouco. O fato é que uma mudança de gênero é algo drástico e nesse caso inesperado, trazendo conflitos inevitáveis dentro do seio da família. Não importa se você tem bloqueios contra LGBT’s ou não, quando seu pai se transforma em uma mulher um período de adaptação é natural. Pode ser estranho e doloroso, mas Transparent nos mostra que há um lado bom. Mesmo que de forma rude ou inadequada, o que Josh e Ali estão fazendo é tentar compreender a situação pela qual passa seu pai. Duas pessoas que “não conseguem enxergar além de si mesmas” se engajaram numa jornada de entendimento e empatia, e eu só vejo bons frutos saindo dessa experiência.

Eu também já tive meus momentos de curiosidade e perguntei para minha amiga bissexual como é ser diferente. Esse tipo de conversa proporciona reflexões extremamente produtivas, pois elas se debruçam na vida de outra pessoa. Entender os LGBT’s quando você não é um deles é algo maravilhoso pois te expõe ao diferente. Algumas pessoas discursam por aí que você só pode exigir os direitos das minorias se você for parte delas, mas para mim o apoio de quem não necessariamente vive a repressão e o preconceito é tão importante quanto o suporte da minoria em si. Por meio desse debate somos carregados à compaixão por uma pessoa que vivencia uma experiência que você nunca irá plenamente entender, mas irá apoiar. Defender os direitos de outra pessoa é para mim um dos maiores exemplos de solidariedade que o ser humano pode ter.

Quanto a Len, não consigo definir exatamente o que se passou na mente dele naquela discussão exaltada com os Pfefferman. Preconceito? Egoísmo? Má vontade para compreender a delicada situação da Maura? O personagem foi pouquíssimo explorado até aqui e de repente vemos toda aquela explosão desnorteante de hostilidade que me deixa um tanto confuso. Mesmo assim isso nos proporcionou outra atuação brilhante de Tambor, mostrando que Maura também está ciente da delicadeza da situação e disposta a esperar que seus filhos se adaptem. O episódio até se inicia e se encerra com a personagem concedendo pequenos agrados aos filhos e pedindo que eles não contem para seus irmãos. Maura no fundo é uma pessoa amorosa e extremamente compreensiva, o que causa ainda mais espanto quando vemos algumas atitudes de Josh, Sarah e Ali.

Da parte de Sarah, entretanto, estamos presenciando momentos cada vez mais positivos. A série mostrou com extrema habilidade sua tentativa de explicar aos filhos a mudança de sexo do avô, com uma boa dose de humor. É ela quem está tentando reatar a família, explicar as coisas para seus irmãos e confortar o pai. Enquanto Ali e Josh ainda estão engatinhando e tentando se encontrar no meio desse redemoinho, Sarah acabou sendo a incumbida de fazer o papel de irmã mais velha e madura.

Depois de The Wilderness minha visão sobre o futuro de Transparent é muito mais otimista em relação aos personagens. Esse episódio mostrou de forma muito clara o que de bom a mudança de Maura pode trazer para a família Pfefferman, disseminando a compreensão e o maior conhecimento mútuo entre eles. A jornada da transsexualidade para quem está próximo a quem está mudando exige compaixão, empatia e apoio contínuo, e eu enxergo a semente de todos esses sentimentos brotar dentro dos três irmãos.

Outras observações importantes: 

– Pela primeira vez penetramos mais a fundo nas raízes judaicas da família de Maura. Não deixa de ser adequado, já que a tolerância religiosa é um assunto tão atual quanto os direitos LGBT e o judaísmo é amplamente desconhecido na nossa sociedade. Já frequentei uma igreja judaica e sua liturgia é maravilhosa, de forma que estou ansioso para ver Transparent penetrando mais a fundo nesses detalhes.

– Nesse momento judaico, inclusive, é que vemos Josh conversando com a rabbi Raquel. Muito fofo, mas tenho a impressão de que novamente ela irá se envolver com a pessoa errada. (Não é porque Josh está aprendendo a compreender seu pai que ele irá necessariamente mudar sua promiscuidade aguda).

– Sabem quem interpreta a professora feminista que acha que o ponto de exclamação é um estupro? Jill Solloway, a própria criadora de Transparent, mostrando que tem talento também para atuar. A personagem é tão caricata que provavelmente deve ser fruto de alguma zoeira interna da produção.

– O que Ali tem a dizer sobre estupro por pontos de exclamação? A melhor piada do episódio.

– Os flashbacks de Maura e sua amiga transsexual são deliciosos, acho que poderia acompanhar um spin-off com as aventuras delas pelo hotel por várias temporadas. Infelizmente, tudo ali é permeado pelo segredo e o medo de se revelar. Por outro lado, os sorrisos ao serem chamadas de mulheres são fascinantes e representam aquelas pequenas mas significativas vitórias de pessoas que mudam de sexo.

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