Um Emmy para Jeffrey Tambor, por favor.
Ela tem que fazer isso agora?”
– Ali
No começo desse episódio somos diretamente lançados para a cena que foi prevista no fim do episódio anterior. Ali está chapada, e isso transforma aquele momento pré-créditos em uma das cenas mais apaixonantes desse ano. O carinho, a fala mansa, o entendimento e a felicidade no rosto de Maura por ser aceita e amada. Tanto AMOR transborda naqueles momentos antes da abertura do episódio que quando ela vem com aquele piano envolvente tudo parece ter mais brilho. E mesmo quando sabemos que aquilo era falso, produto de sabe-se lá o que Ali tenha ingerido, a perfeição da cena permanece.
Mesmo que o restante do episódio seja menos amoroso, por assim dizer, algumas cenas se destacam por seu brilho celestial. Transparent é permeada por esses momentos. Nunca vi uma série com tamanha habilidade para criar momentos tão puros e idílicos como Ali acariciando seu pai, Maura e Marcy no passado se escondendo num hotel para se admirarem mutuamente, Josh e a irmã dançando na sala de estar… Nessas horas o seriado nos mostra seu poder de fascinar, e ele é imenso.
Entretanto, o conflito também se sobressai aqui. Ali finalmente descobre sobre o pai, e quando o efeito da droga passa, ela simplesmente regride para um estado infantil. É preconceito? Tenho a impressão de que não. O modo como ela foge do enfrentamento, tentando se esconder de Maura e omitindo-se da briga no banheiro feminino, demonstra que ela não sabe lidar com a situação. O egoísmo inerente aos Pfefferman é forte aqui. “Por que fazer isso agora?”, pergunta ela. Por que trazer um problema que eu não estou a fim de resolver para a minha vida?
O comportamento de Ali é tão gritante que suaviza de forma impressionante a atitude de Sarah. Ela está se acostumando com a situação (como talvez a irmã mais nova também venha a se acostumar), e tentando lutar contra seu preconceito da mesma forma que eu faço: defendendo os direitos de Maura, como o de entrar em um banheiro feminino. É bonito e digno de aplausos, mesmo dando uns escorregões aqui e ali, mas infelizmente não é o suficiente. Pois mesmo antes de lidar com a transsexualidade com sua família, Maura é lançada vertiginosamente nos dilemas do dia-a-dia que todo transsexual deve enfrentar. Finalmente, depois de tantos anos, ela está enfrentando “o mundo lá fora”, e não há nada que possa prepará-la para o impacto de situações como essa do banheiro.
Nesse aspecto é que quero tratar de uma das escolhas polêmicas da série: usar um ator heterossexual para interpretar um personagem transsexual. Depois de quatro episódios, fica nítido que a escolha tem vantagens muito interessantes. Não estamos tratando aqui de um transsexual seguro de si, completamente transformado e adaptado. Temos diante de nós um “novato”, com todas as incertezas que isso carrega. Jill Solloway escolheu um ator heterossexual pois é justamente esse processo de transição que ela quer retratar, e Tambor é magnífico atuando com essas camadas de transformação que vão se sobrepondo umas às outras. Aprender a caminhar como uma mulher, fechar as pernas quando está sentada, enfim, ser realmente quem Maura é depois de tantos anos acostumada a ser outra pessoa.
Essa é uma qualidade que não teríamos com uma atriz como Laverne Cox, por exemplo. Em Transparent tanto Maura quanto Tambor aprendem juntos a se tornar uma mulher, e as incertezas e dificuldades desse caminho humanizam especialmente a personagem. O que dizer da maravilhosa cena na qual Maura se irrita com os vizinhos barulhentos, tenta alertá-los sobre o barulho mas subitamente se enfurece e joga toda a sua evolução para o alto ao incorporar Mort para dizer-lhes algumas palavras menos educadas? Ela ainda está na corda bamba, ganhando confiança em seu novo ser, e por vezes se desequilibra.
Desequilíbrio que também atinge Josh e Sarah. Ela se embrenha um relacionamento duvidoso, e agora que aparentemente conseguiu o que quer as coisas talvez fiquem até piores. Tammy parece ter sido forçada a se separar de sua família, e quando acaba cedendo deixa as coisas ainda mais complicadas. Quanto a Josh, finalmente descobrimos o segredo daquela mulher desconhecida que apareceu por alguns instantes no primeiro episódio, e para mim tudo contribui para transformá-lo em uma pessoa profundamente perturbada sexualmente. A afirmação da amiga de Ali de que ele realmente não quer ficar sozinho parece certeira. Josh é aquela pessoa que tenta se cercar de relacionamentos para lutar contra sua solidão, e que parece não ter nenhum rumo ou objetivo estabelecido. Da mesma forma que ontem ele queria ter um filho com uma cliente, hoje ele já se envolve com outra pessoa. O comprometimento que eu percebi nele na review passada se dissolveu completamente.
Ali, por sua vez, levantou algumas dúvidas na minha mente. O corte de cabelo logo após a descoberta de que o pai é transsexual, seu descontentamento com o próprio corpo, o desinteresse em se maquiar (até descobrir o preço da maquiagem, o que foi particularmente hilário), tudo denota ALGO. Não sei exatamente o que é. Transsexualidade? Talvez, mas talvez seja um outro tipo de desconforto, e se Transparent se engajar nesse tema seria esplêndido: colocar o desconforto do transsexual em comparação com os tantos outros tipos de desconfortos físicos e psicológicos que sofremos nessa vida. Afinal, por muitas vezes somos o que não queremos ser, e da mesma forma que nos esforçamos na academia para adquirir o corpo que desejamos, podemos trocar de roupa para assumirmos nosso verdadeiro sexo.
Outras observações importantes:
– Só eu que percebi Ali, sentada no sofá de seu apartamento, dando um tapa no braço do mesmo e levantando uma nuvem de poeira?
– Que momento lindo aquele no qual Maura pronuncia seu nome pela primeira vez. Seus olhos brilham de orgulho ao abraçar sua nova identidade, como se finalmente, depois de tanto tempo, alguém matou a charada de quem ela realmente é.
– Ali conversando com Sarah antes de se encontrarem com Maura consegue ser uma cena engraçada e triste ao mesmo tempo, principalmente porque a irmã mais velha ainda não toma uma posição mais dura com a caçula e simplesmente a acompanha nas risadas sobre a estranheza de seu pai.
– Já estamos no quarto episódio e sinto que Transparent já está plenamente consolidada como um dos melhores lançamentos do ano, tanto que foi renovada. Tenho grandes expectativas, e toda a confiança de que elas serão realizadas.














