HBO é um canal que tem uma posição única no mercado: independente da sinopse de seus projetos ou de um elenco não-atrativo, o público tem uma curiosidade inata de conferi-los. Até mesmo quando as impressões iniciais não são as melhores, é sempre mantida a boa vontade de assistir mais um ou dois episódios para saber para onde o barco vai andar e se será fascinante. Há, claro, os carros-chefe da emissora: Game of Thrones, True Detective, Veep e Silicon Valley. No entanto, há projetos menores, com menos hype, com menos nomes importantes no elenco e que lutam para permanecer no ar. Togetherness se encaixa nessa segunda categoria. Em um primeiro momento, a série apresentou seus personagens e os plots possíveis de seu elenco de forma ágil, mesmo sem estabelecer uma identidade própria. Muitos acabaram chamando-a de “mais uma comédia sobre os problemas da classe média branca”, “mais uma comédia pretensiosa” ou então passaram a duvidar de que a série pudesse, de fato, decolar com a simplicidade de sua trama. Fica difícil prever se esses foram comentários lançados apenas com o piloto visto ou se, de fato, houve a espera pelo desenrolar da história. Independente do caso, a verdade é que os irmãos Duplass usaram uma força furiosa nos textos e na direção dos episódios e conseguiram o impensável dois meses atrás: Togetherness cresceu, expandiu-se e alcançou um patamar de desenvolvimento que é invejável em séries dramáticas.
Os dois episódios finais da curta primeira temporada coroaram o quanto a história evoluiu em tão pouco tempo. O caminho não foi fácil e a deixa para o próximo ano não foi definitiva, mas o que importa é que Mchelle, Brett, Tina e Alex não são os mesmos de semanas atrás. Michelle foi o caso mais emblemático. Ela era uma dona de casa insatisfeita com a vida cuidando dos filhos e sua conexão com o marido estava apresentando constantes ruídos. Isso revirou quando ela conheceu David Garcia. Ele ouviu e valorizou o que ela tinha a dizer sobre um projeto que se tornou importante para ela. E não foi diferente em Party Time e Not So Together. Durante a festa de arrecadação de fundos para a escola que Michelle organizou, Brett optou encontrar Linda. Enquanto isso, Garcia foi ombro direito da Sra Pearson na festa. E, na viagem feita para defender o projeto da escola, diante das injeções de valor e motivação dadas pelo rapaz, ela chamou para si a cabeça do projeto e defendeu com a força derivada da simplicidade de entender a razão de um problema e não os tecnicismos e desdobramentos do mesmo. Se havia uma conexão latente entre Garcia e Pearson, foi no hotel que ela se tornou pulsante e palatável. Um belo momento de atuação de Melanie Lynskey e John Ortiz que administraram perfeitamente a sutileza e a calma do texto franco dos Duplass e transbordaram química e sentimento sem correr para ações impensadas ou desesperadas. Quando o beijo entre eles acontece, isso vem como ordem natural das coisas e não como artifício puro de conflito. O que resta agora é questionar: o que acontecerá naquele quarto de hotel? Eles irão até o fim? Brett flagrará os dois? O projeto da escola será aceito e, se sim, conseguirão os dois trabalhar juntos caso não fiquem juntos?
Brett teve uma jornada mais contida, mas não menos importante ao longo dos oito capítulos. Ele não conseguia se realizar em seu trabalho, ou melhor, seu trabalho não conseguia atingir o perfeccionismo e o profissionalismo que ele desejava colocar em prática. Sua vida pessoal estava em frangalhos. Ele não falava o que pensava e, quando teve a oportunidade de ser franco com a esposa nas sessões de terapia, o sentimento foi forte demais para que ele se sentisse confortável naquela situação. E, quando desabafou, desesperou-se e expulsou do peito o que estava entalado, fez isso com Linda e não com a esposa. Diante disso, mais que natural seu desejo de estar com a hippie da floresta. E esta cumpre sua missão de aflorar em Brett o que, de fato, ele quer para ele, o que quer ser e viver. E, mesmo de roupão na festa da esposa, era impossível não perceber que ele estava feliz daquele jeito e que isso era realmente algo raro. Por isso, quando ele diz para a esposa “Nós não somos bons um para o outro no momento” e que isso não significava que ele não a amava, mas que não queria brigar para não estragar seu dia, não soa como desculpa, mas como real. Mesmo assim, o seu grande momento foi na praia com os filhos. Na series première ele deixava os filhos sob a asa da mãe, dessa vez ele aproveitou um dia com eles, rolou na areia e finalmente parece ter descoberto que sua família faz parte dele e do que ele quer. Pena que, como Alex disse sabiamente, ele não volta a positividade dele para Michelle e o discurso de como ele se sentia empolgado com a família, os filhos e a esposa era algo que ela deveria ter ouvido. Ele tenta fazer isso no último momento, mas ela já estava se envolvendo com David e a questão que fica é: está tarde demais para o casal? Ele demorou demais para se redescobrir em sua família? Como ficaria ele caso perdesse exatamente o que descobriu que o preenchia?
Alex e Tina foram a cereja do bolo da série e o encerramento da temporada colocou os dois distantes um do outro e que decisão acertada foi essa! A briga do sexto episódio ainda trouxe repercussões para essa reta final. Numa festa em que Tina planejava divulgar ao máximo seu trabalho e mostrar para Alex que ela era capaz de fazer as coisas sem a ajuda dele, tudo foi por água abaixo. Tudo deu errado e foi doloroso vê-la nessa situação desamparada, chegando tão baixo em seu orgulho e sua autoestima. Por isso, a sutileza do rapaz, ao vê-la completamente derrotada, de perguntar se ela precisava de ajudava era uma trégua necessária depois de tanto tapa na cara, o que leva ao desabafo dela. Que bela atuação de Amanda Peet nesse momento. Ela conseguiu ser emocional e intensa, mas contida, evitando o melodrama, que enfraqueceria a tristeza da cena. Tina define que tem duas opções na vida: viver com Larry ou tentar perseguir sua carreira dormindo na casa da irmã. Destrói sua autoestima constatando que não era boa em nada e que estava cansada de bater a cabeça na parede. E esse cansaço é tão visível que a sua decisão de ir morar com Larry e se manter nisso se torna compreensível e até aceitável, diante de sua necessidade de ficar em uma situação estável e segura, mesmo que sentimentalmente ela não esteja completa. Alex, por outro lado, ganha o papel de sua carreira, como protagonista, mas perde a pessoa que o impulsionou a isso. Até quando Tina conseguirá colocar sua felicidade em segundo plano em prol de estabilidade? Conseguirá a carreira de Alex finalmente deslanchar? Tinex, de fato, é uma boa ideia ou eles foram feitos para serem amigos mesmo?
Togetherness encerrou sua primeira temporada da melhor forma possível, implodindo emocionalmente seus personagens em uma escala maior e deixando o horizonte para o segundo ano cheio de possibilidades.
P.S.: Alex foi o primeiro a ver Michelle e David, Brett e Linda e perceber que havia algo diferente acontecendo.
P.S.: Brett confrontando David – sim, rapaz, era para você ter se preocupado com Sr Garcia.
P.S.: A mentira de David para Brett foi uma decisão bem-vinda do roteiro, que evitou que ele se tornasse um santo.
P.S.: Esse deveria ser a Emmy tape para o roteiro da série. Direção ficaria com Handcuffs. Já para os atores, Amanda Peet, com certeza, vai enviar Party Time; Steve Zissis vai de Ghost in Chains, que deverá ser também a de Mark Duplass; e a maravilhosa Melanie Lynskey vai de Not So Together ou Kick the Can. Pena que as chances de indicação sejam baixas.














