Com a decisão corajosa de separar os sobreviventes em dois grupos por boa parte do episódio, The Walking Dead prospera.
Spoilers abaixo:
“You fascinate me” – Guillermo
Desenvolvimento dramático é algo que The Walking Dead precisa para chegar no nível das suas irmãs Breaking Bad e Mad Men, mas em meio às tentativas de criar uma narrativa robusta que funciona de todas as formas em todos os núcleos, ela não deve esquecer de suas origens, do fato de que ainda está contando uma história apocalíptica sobre zumbis, onde armas e munição são requisitos tão básicos como água e comida e todos ainda estão passando por um doloroso processo de luto, pelos seus entes queridos e pelas vidas pacatas que tinham antes de serem obrigados a participar de Survivor: Atlanta. Portanto, para o prazer dos poucos que estavam irritados com o ritmo da série e até dos felizes com ele, ocorreu aquela maravilhosa sequência final onde o acampamento é atacado da maneira mais terrível possível, com tripas voando para todos os lados, pais abraçando os seus filhos e muita, muita pancadaria.
Foi a maneira ideal de quebrar a rotina que estava se estabelecendo no acampamento e de colocar o grupo em movimento, assim abrindo todo um leque de possibilidades para os dois episódios finais. Isso sem falar nas mudanças que as mortes de Amy e Ed irão causar em Andrea e Carol, personagens que a série fez questão de focar em episódios anteriores de modo a tornar os acontecimentos importantes e, mais por causa de Jim do que pelo que ocorreu em “Guts” e “Tell It to the Frogs”, estranhos. Se ele realmente cavou as covas por causa de um sonho, isso torna tudo bem mais complicado. Parece claro que The Walking Dead vai evitar algo místico para explicar os seus mistérios, então como essa premonição é possível? Será algum tipo de ligação com os zumbis, um senso de aproximação adquirido por causa de algum incidente que não conhecemos?
São importantes perguntas que felizmente não dominam a hora por causa dos surpreendentes eventos em Atlanta. Neles, assim como na sequência final, a série anda por um caminho familiar do gênero, estabelecendo a filosofia de que a maior ameaça no apocalipse zumbi são os outros humanos e que todos vão perecer nas mãos do próprio time e de suas moralidades perturbadas. Não quero tomar uma posição definitiva pois é cedo demais e muita coisa pode dar errado, mas mostrar a gangue que mantém um pequeno centro para ajudar os idosos foi um empreendimento de sucesso da temporada, que ao invés de dar exemplos do seu fio condutor, já partiu para uma grande exceção; que mesmo assim, trouxe um maravilhoso clima de suspense nos minutos inicias e elevou Rick como protagonista, mostrando o seu código de honra , como ele o aplica em seres racionais e como está transformando toda essa experiência traumática em combustível para cumprir metas (que traça em uma desesperada tentativa de aplicar o seu cotidiano policial ao inferno e assim restaurar o senso de tranquilidade perdido).
Considerando todas as coisas que se propôs a fazer, “Vatos” foi mais um poderoso bloco do ano inicial dessa série que, mesmo lentamente, está buscando um lugar no pódio. O maior problema que The Walking Dead poderia ter é aspirar ser mais do que pode, e isso transpareceu em quantidades pequenas nos dois episódios anteriores. Aqui, no entanto, Robert Kirkman (criador da HQ) soube definir linhas e assim fortaleceu duas tramas que em mãos menos habilidosas se anulariam… Isso é não só animador para o futuro da série como prova definitiva de que apesar de todas as adaptações, aquele ainda é o seu universo e ele o entende como poucos.
Outras observações:
– O que aconteceu com a família do Jim foi algo tão brutal que imaginar um outro uso para pelo menos uma daquelas covas não foi tão difícil.
– Fiquei decepcionado quando Darabont decidiu ignorar essa abertura feita por um fã, mas a que acabou sendo usada também é ótima e de pouco a pouco está me conquistando com aquele clima sombrio.
– Muito curioso para descobrir o paradeiro de Merle. Ele é uma máquina de matar ambulante com sérios motivos pra meter três balas na cabeça de Rick e, se bem usado, pode render uma ótima reta final e quem sabe até um cliffhanger.
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