Quando a competição se torna um detalhe.

Em um primeiro momento, me senti um pouco mal comigo mesmo quando percebi minha extrema indiferença em relação a boa parte dos resultados do programa do último domingo. Minha expectativa para o dueto de Claudia Leitte e Ivete Sangalo era tão maior do que qualquer outra coisa que poderia acontecer no programa, que acabei flagrando a mim mesmo no piloto automático até que as duas cantoras entrassem em ação.

Mas não foi necessário muito tempo para que eu percebesse que a culpa não era minha. Toda a lambança que a Rede Globo fez com o formato dos Live Shows da nossa franquia favorita não permite muito apego à competição. Os votos são abertos ANTES de assistirmos a qualquer apresentação, ou seja, o tratamento dado aos participantes é quase como o de um BBB. O mais popular vence, independentemente do número da semana. Isso me incomoda em um nível tão intenso que fica difícil aproveitar o programa.

Só para vocês terem uma ideia, a única cantora cuja apresentação me fez querer votar foi Maria Christina, mas, por eu ter esperado as três apresentações para fazer essa análise, não pude, pois, depois que a apresentação da artista terminou, fui pegar o telefone, e, quando voltei para perto da TV, os números não apareceram mais em nenhum momento. Pelo tempo curto, acabei não conseguindo dar meu voto (e eu me recusei a ir para o computador e perder o tão aguardado dueto entre Ivete e Claudinha, então não havia o que ser feito). Apesar da louvável preocupação de ter estendido o tempo de votação para não prejudicar o terceiro candidato, a produção do programa continua mostrando que não está nem aí para o que realmente importa nos shows ao vivo: as apresentações dos candidatos em si.

Outra prova disso: onde estão os ensaios entre os técnicos e seus pupilos? Ao contrário de qualquer versão gringa do The Voice que já assisti, não há sequer um sinal de que eles acontecem no The Voice Brasil. Assim, o termo “técnico” (“coach”, nas versões US, UK e Australia) acaba banalizado e soa quase como uma enganação, já que não temos nenhuma evidência de que os quatro cantores da bancada realmente guiam ou estabelecem alguma ligação dos candidatos além do tempo do programa ao vivo. E tudo isso é constatado por mim com muita tristeza, já que, ao mesmo tempo em que é muito bom ver nossa própria versão do meu reality favorito tornando-se realidade, é impossível não se decepcionar com tanto descaso.

Como nem tudo é ruim no nosso The Voice Brasil, o dueto entre Alexandre Pires e Daniel foi bacana, mas Ivete e Claudinha estavam maravilhosas, não? Nem vou perder tempo com comentários infantis e levianos comparando as duas ou desmerecendo quem quer que seja. São duas excelentes artistas, e o país só tem a ganhar com a presença de ambas no mercado. Prefiro usar este espaço para dizer que, enquanto nosso domingo à tarde nos proporcionar reuniões como essa, considerada por muitos um momento histórico, eu não vou querer que o The Voice acabe, porque ainda é uma vitória da boa música chegando às casas da população do país, coisa de que estávamos precisando, e muito. Mas bem que tudo isso podia ser feito com um pouco mais de carinho, né?

Isso posto, vamos às apresentações. Todas separadas por times e organizadas em um ranking que vai da pior apresentação para a melhor ao longo do texto. Comecemos pelo time mais irrelevante da tarde, aquele em que eu não fazia questão de que ninguém continuasse no programa.

TEAM MILK

3) Ana Rafaela – Fidelity (Regina Spektor)

Nunca entendi – e nem vou entender – o que as pessoas enxergam em Ana Rafaela. A voz é ok, mas não vejo vocais incríveis, não vejo carisma, não vejo segurança, sequer vejo uma identidade bem definida. A escolha de “Fidelity” teria sido bacana se a canção tivesse sido minimamente bem apresentada. Infelizmente, não foi o que vi, e me esqueci completamente que essa apresentação existiu segundo após tê-la assistido.

2) Sandra Honda – Metamorfose Ambulante / Cochise (Raul Seixas / Audioslave)

Sandra Honda surpreendeu muito, e mandou um rock’n’roll extremamente estiloso no show de domingo. Além disso, foi a única que fez questão de cantar em português, o que merece nossos aplausos naquela que talvez tenha sido a tarde mais internacional do The Voice Brasil até hoje (não tenho nenhum tipo de xenofobia musical e acho até bacana ver o The Voice permitindo canções internacionais no programa, mas senti um pouco de falta, sim, da nossa música). Eu nunca teria pensado em um medley como esse, mas não posso dizer que ficou ruim. Foi uma excelente ideia, pontuada por uma excelente interpretação. Fiquei bastante satisfeito, e ficou até difícil comparar estilos tão diferentes como as do time de Claudinha.

1) Nayra Costa – At Last (Etta James)

Vou confessor que havia subestimado Nayra. Nunca esperava dela uma escolha música excelente como “At Last”, assim como não esperava uma performance tão marcante. Tudo foi muito bem pensado, o figurino, o microfone, o piano, para criar aquele clima retrô que remetem jazz e o blues dos tempos de Etta James. Os vocais foram bons, e representaram bem um estilo em que deve predominar o sentimento e a humanidade de quem interpreta a canção. Gostei demais!

RESULTADO – TEAM MILK

Com 46% dos votos, Ana Rafaela foi a eleita do público, o que continua sendo um enigma pra mim. Claudinha optou por Nayra, o que não achei ruim, mas não há como não lamentar a eliminação de Sandra depois de uma performance tão carismática.

TEAM DANIEL

3) Fernando Cruz – Essa Tal Liberdade (Só Pra Contrariar)

Fernando é um cara bacana, mas foi infeliz nas escolhas dessa tarde. A escolha musical não permitiu que ele explorasse tão bem sua voz, que ele mostrasse ao público o que é capaz de fazer. No fim das contas, ficou uma sensação de que o cantor, mesmo tendo chegado aos Live Shows, não conseguiu mostrar a que veio.

2) Pedro Eduardo – Você Mudou (Cristiano Araújo)

Gosto muito de Pedro Eduardo, e, mais uma vez, fiquei bastante satisfeito com a apresentação. O cantor tem uma voz sensacional, e sempre consegue me impressionar. Aqui não foi diferente, e mesmo eu não sendo um grande adepto do estilo sertanejo/romântico, creio que ele é o melhor representante dessa área na competição.

1) Carol Marques – Let It Be (Beatles)

Que Carol canta muito todos nós já sabemos. E, mais uma vez, ela provou isso no The Voice Brasil, e impossibilitou qualquer outro resultado que não fosse sua permanência no programa. Só não fazia muita questão do coral de igreja ao fundo, não só por ser brega, mas também pelo risco de tornar-se uma distração, tirar nosso foco de quem realmente interessa. Até que achei que isso não aconteceu muito aqui, mas, ainda assim, prefiro apresentações mais centralizadas no candidato.

RESULTADOS – TEAM DANIEL

Nenhuma surpresa aqui. Carol foi a eleita do público com 39% dos votos, e Daniel salvou Pedro. Tudo mais que merecido.

TEAM BROWN

3) Dani Montuori – Black Is Beautiful (Elis Regina)

Linda interpretação de Dani! Gostei até de uma coisa que não costumo gostar, que foi a interação com os dançarinos. Achei que combinou e deu um tom agradável para a performance. É que a concorrência está brava para ela, mas, não fosse isso, gostaria de ver mais da cantora, sem dúvida.

2) Quesia  Luz – Ben (Michael Jackson)

Como bem disse o produtor musical Alexandre Castilho no vídeo de apresentação de Quésia, a cantora provavelmente foi uma das candidatas que mais cresceram no programa. A evolução desde as audições às cegas é notável e, mais uma vez, ela deu um show de vocais em uma belíssima música. Fiquei feliz demais!

1) Rafah – O Mundo É Um Moinho (Cartola)

Se ainda não ficou claro para quem acompanha nossas reviews, tenho uma forte queda por artistas que representam o samba em realities, essa brasilidade que jamais poderá ser vista em outro The Voice, não importa para quantos países a franquia se propague. Por isso, fico muito orgulhoso por ver alguém como Rafah (ou Grace Carvalho, do Team Milk) ser capaz de honrar um legado como o de Cartola de uma forma tão natural e bem interpretada no programa. Não me importa se Rafah não tem a mesma potência vocal de Quesia ou Carol. O carisma e a paixão que transbordam em cada nota e em cada sílaba que o cantor pronuncia me fazem elegê-lo como o melhor do Team Brown nessa tarde.

RESULTADOS – TEAM BROWN

Mais resultados extremamente justos e previsíveis. Rafah foi salvo com 44% dos votos, enquanto Brown, depois daquela enrolação irritante de sempre, salvou Quesia.

TEAM LULU

3) Greicy Schwendner – Set Fire To The Rain (Adele)

Se eu tivesse que escolher a audição às cegas mais sem graça entre as daqueles que ainda permanecem na competição, não pensaria duas vezes ao responder que foi a de Greicy. É verdade que houve uma evolução na etapa das batalhas, mas, assim que anunciou a música que cantaria, a cantora mostrou que não contrariaria minhas expectativas, e faria um cover extremamente esquecível, como todos os covers de Adele que são vistos em realities musicais (alguém esqueceu de avisar a ela que ninguém mais quer ouvir Adele nessas competições, já é praticamente lei). Ela até estava indo bem, mas o refrão, momento que exige uma força gigante na interpretação, ficou fraquíssimo. E, como todos os que ousam cantar Adele, Greicy entregou uma interpretação que não teve nada de memorável, além de ter sido infinitamente inferior à original. Não dá.

2) Maria Christina – Exagerado (Cazuza)

Que Maria Christina é linda e canta como poucas pessoas que já vi nesta vida vocês já sabem. Mas, confesso, fiquei um pouco preocupado com a escolha musical. Apesar de ser Cazuza, figura muito amada no cenário musical brasileiro, a canção não é daquelas que permitem que se mostre muita potência, algo que costuma ter apelo nesse tipo de show. Ainda assim, Maria Christina tomou toda a música e o palco pra ela, mostrou a artistona que é, e me fez ter vontade de pegar o telefone pra votar. Ainda espero que ela consiga mostrar mais do que pode fazer a quem não teve a felicidade de vê-la no Ídolos, mas o pouco que mostrou já está bom demais!

1) Gabriel Levan – Garota Nacional (Skank)

Gabriel não tem um histórico muito favorável no que diz respeito às liberdades que toma em suas apresentações. Nesse cover de Skank, porém, além de ele ter feito uma escolha bacaninha de música, senti que Gabriel encontrou um ponto de equilíbrio entre a melodia original e suas inflexões e gritos característicos. Nem todas as escolhas são tão felizes, tudo bem, mas Gabriel é um cara que não tem medo de correr riscos e, em um The Voice em que essa qualidade é extremamente subvalorizada, não posso deixar de elogiá-lo e de torcer por ele.

RESULTADOS – TEAM LULU

Fiquei MUITO surpreso ao ver Maria Christina passando com uma quantidade extremamente expressiva de votos: 56%. Lulu também fez uma escolha justíssima ao optar por Gabriel, mandando a dispensável Greicy para casa.

Vamos ver como andam os times, então?

Team Lulu: Késia Estácio, Marquinho Osócio, Maria Christina, Gabriel Levan.

Team Brown: Mira Callado, Ellen Oléria, Rafah, Quesia Luz.

Team Milk: Ju Moraes, Gustavo Fagundes, Ana Rafaela, Nayra Costa.

Team Daniel: Júnior Meirelles, Danilo Dyba, Carol Marques, Pedro Eduardo.

Vale, antes de encerrar esta review, ressaltar alguns pontos positivos do programa: estou curtindo bastante o palco e a produção das apresentações. Também acho que Tiago Leifert está mandando bem, trazendo carisma e diversão para o The Voice Brasil, e Dani Suzuki, como esperado, está dando um banho em Christina Milian e na tal da Faustina, do The Voice Australia. Apesar das minhas reclamações, o The Voice Brasil está longe de ser um caso perdido, e eu celebro a atitude da produção de ouvir nossas reclamações e tentar fazer um programa melhor.

Hoje, teremos programa duplo, e uma disputa entre três das minhas cantoras favoritas do Team Milk (qualquer eliminação me deixará triste). Felizmente, quem vai ter que cuidar disso será o Gabriel. Até a próxima, pessoal!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.