“Feels like a lullaby”, o melhor feedback possível para a atual fase do The Voice.

Na semana passada, a maioria dos leitores comentou aqui no blog que estava deixando o The Voice após mais uma decepção épica em termos de resultados. Seja uma resolução real ou um comentário apressado em um momento de irritação com o programa, o fato é que a saída de Kimberly Nichole modificou completamente o status da nossa competição. A sensação de injustiça e a previsibilidade dominam e causam um desânimo geral, como se a temporada não fosse digna das duas ou três horas dedicação semanal que nós, fãs do programa, insistimos em entregar à NBC (ou à Sony, que não tem culpa de nada, mas sofre por tabela pelos erros cometidos pelos gringos responsáveis pelo show).

Por mais que tenhamos tido, sim, apresentações muito respeitáveis no rol de performances da noite, nada foi suficiente para acabar com essa negatividade que agora dá o tom da oitava temporada. Tivemos, por exemplo, uma das coisas mais legais que o The Voice já copiou do American Idol: a homecoming week, em que nossos semifinalistas foram para suas cidades para ser recebidos como verdadeiros heróis pela família, pelas escolas em que estudaram ou locais em que já cantaram, pela imprensa local e pelos habitantes do lugar de uma maneira geral.

Ainda assim, durante quase todo o tempo em que assistia ao Top 5 visitando as suas cidades, eu só conseguia pensar: “que mágica seria a visita da Kimberly, não?”. Assim fica difícil, realmente, e não dá pra não dar razão ao extremamente sagaz feedback de Christina Aguilera para Joshua Davis (que, se não fosse por “Earth Song”, provavelmente teria sido o melhor momento da semana!”): “Feels like a lullaby”! Sim, Xtina, ainda que você tenha tentado fazer isso parecer algo positivo (“me acalma, me conforta”), te entendo perfeitamente: eu também morro de sono cada vez que o cantor sobe naquele palco.

Curioso, aliás, é pensar que, com uma ou duas exceções, as performances de músicas escolhidas pelo coach foram um verdadeiro desastre, o que acabou favorecendo o segundo round, em que os artistas escolheram suas canções. Nos cinco casos, sem nenhuma exceção, os semifinalistas foram bem melhores na rodada final, o que acabou me acordando um pouco em relação à sonolenta primeira metade do show de segunda. Não dá pra dizer que não há competência de sobra nesse Top 5, mas a pimentinha de Kimberly Nichole desfalcou irremediavelmente o show, não tem jeito.

Tudo isso posto, vamos às apresentações da semana, ranqueadas separadamente em dois grupos: a primeira rodada, com escolha do respectivo coach, e a segunda, em que o próprio artista decidiu a música que cantaria.

ESCOLHA DO COACH

5. Joshua Davis – I Can’t Make You Love Me (Bonnie Raitt)

Nussinhora, que chatice!!! Não existiu qualquer vislumbre de dinâmica durante toda a performance, e a voz rouca de Joshua me pareceu até meio afetada, meio forçada, ao longo da apresentação. Escolha fácil e definitivamente a apresentação mais sonolenta da noite.

4. Koryn Hawthorne – One (U2)

Ainda bem que Pharrell deu mais liberdade aos seus pupilos nesta temporada, porque claramente, se ainda dependêssemos dele como dependemos na season 7, desastres como esse seriam comum. Péssima escolha musical para Koryn, nada a ver com ela e com seu estilo, e a adaptação não ficou bacana. Eu já elogiei muito Koryn aqui, mas realmente cansei dessa mesmice, apesar de a voz ser incrível mesmo em suas performances mais fracas. O fato é que não dá pra ficar assistindo a essa menina ter semi-espasmos em toda apresentação que executa. Discordo de Xtina profundamente, Koryn simplesmente estagnou. Dá até a impressão de que a ex-coach trouxe o assunto à tona para que as pessoas percebam essa estagnação, mesmo dizendo o contrário. Koryn parece ter mergulhado bastante no gospel e esquecido de canalizar sua intensidade em esforços para atingir a vibe certa, como ela fez em Try ou Stronger.

3. Meghan Linsey – I’m Not The Only One (Sam Smith)

Exageros mil deram o tom de toda a performance, e esse sempre será o grande erro de Meghan Linsey em sua trajetória no The Voice. Quem sente uma música de verdade jamais a interpreta tão artificialmente. Provavelmente haverá quem a defensa e considere que ela deu uma nova interpretação para a música, algo do tipo “meu bem, sei que não sou a única e por isso vou te assassinar a machadadas”, mas eu não acho que essa canção abra espaço para esse tipo de liberdade.

2. Sawyer Fredericks – For What It’s Worth (Buffalo Springfield)

Sawyer foi aqui aquela coisa de sempre, legalzinho, voz única, etc. Mas nada surpreendente. Para ser justo, o cantor está se conectando com suas músicas muito melhor ao longo desses lives, e isso ficou bastante evidente em ambas as performances desta semifinal. Observação importante: Pharrell mede a qualidade da performance baseando-se no gosto do público, o que, em se tratando do público do The Voice, é o pior critério possível. Melhore, Pharrell!!!

1. India Carney – Gravity (Sara Bareilles)

Linda linda!!! India cresceu demais em termos de interpretação e está entregando performances muito mais ricas e dinâmicas quando comparamos as mais recentes com as mais antigas. Concordo com Blake quando ele diz que os momentos mais sutis são os mais hipnotizantes no caso de alguém com o poder que India tem, mas discordo de Xtina quando ela elogia a inteligência da pupila. Claramente, India desenvolveu esse senso de dinâmica e de interpretação ao longo de sua jornada no programa, graças à ajuda de sua coach. No início, ela tinha uma visão tão limitada quanto a de Meghan Linsey em algumas das músicas que canta, e, nesse aspecto, foi extremamente bem orientada por Xtina e cresceu absurdamente. Pra não dizer que só falei das flores, eu até poderia ser mais feliz com um pouquinho menos de vibrato e melisma, mas nada que realmente tenha ficado desagradável.

ESCOLHA DO ARTISTA

5. Joshua Davis – When I Paint My Masterpiece (Bob Dylan)

Foi uma performance um pouco melhor, mais animada, menos down, o que se refletiu nos vocais e na presença de Joshua. Mas nada que tenha me feito mudar de ideia em relação a estar passando um mês a mais do que deveria vendo esse chato cantar.

4. Meghan Linsey – Tennessee Whiskey (George Jones)

Antes de comentar a performance, tenho uma observação sobre a homecoming de Meghan: com tantas performances maravilhosas no histórico da cantora, por que raios me obrigam a vê-la assassinando “Love Runs Out” pela segunda vez, gente? Tenham dó!!!

A performance em si foi muito melhor que a primeira. Provavelmente por sua experiência, Meghan sabe se conter perfeitamente quando canta country. Vai ver é por isso que ela decidiu mudar de gênero, a mulher decidiu que é mais feliz fazendo a loka e se esgoelando pelo país afora, e, se é isso que ela quer, respeito. Porém, não dá para negar que, seja ou não uma questão de gênero, “Tennessee Whiskey” se encaixou como uma luva no belo timbre de Meghan, e certamente ajudou bastante a cantora a angariar votos para a final. “É a sua performance mais importante da temporada”, diz Blake, sabendo que apelou para o country vote e que ganhou uns votinhos por isso. Artisticamente, dane-se o que Meghan quer, né?

3. Sawyer Fredericks – A Thousand Years (Christina Perri)

Ótima escolha de música, a mais original e interessante da jornada de Sawyer em toda a competição, ainda que tenha havido pelo menos duas performances superiores tecnicamente. Foi uma excelente apresentação, e eu gosto muito de ver alguém como Sawyer disposto a pressionar seus vocais e atingir notas altas que não costuma perseguir antes. Isso se chama vontade de crescer, e é algo que eu respeito absurdamente em um vocalista.

2. Koryn Hawthorne – Oh Mary Don’t You Weep

Uau!. Incrível! Vou ser obrigado a retirar parte do que eu disse na performance anterior, não que eu realmente não ache que fossem coisas que mereciam ser ditas, mas porque, quando Koryn decide mostrar a que veio e por que ela faz as escolhas que faz, não há como não ficar completamente catatônico diante do seu poder. Talvez Koryn precise mesmo é evitar o mainstream e construir sua carreira em torno do mercado gospel. Certamente ela terá um sucesso absurdo se fizer assim, ainda mais com esse interpretação que dá a impressão de que a menina está completamente possuída (por algo positivo, não negativo, que fique claro). Para uma canção como essa, a intensidade de Koryn funcionou muito bem e não soou forçada como em canções mais pop.

1. India Carney – Earth Song (Michael Jackson)

https://www.youtube.com/watch?v=GVqXi7LUJNs

OMG!!!! India calou a boca de qualquer um que pense em dizer que a cantora não tem presença ou emoção sem perder totalmente a credibilidade, e nos entregou a única performance da noite que nos fez esquecer que estamos em uma competição e nos sentir em uma apresentação real, profissional, de um show de uma artista. Os “Woo” em falsete, os gritos intensos, a energia, a curvada em homenagem a Kimberly.. tudo foi incrivelmente maravilhoso nessa performance! India foi a dona do palco e da semana com essa apresentação, uma das melhores temporadas sem dúvida. Saber que preferiram dar o pimp ao Sawyer e não a uma performance dessas é enfurecedor.

Fazendo uma tentativa de média entre as duas performances, segue o meu ranking da noite:

5. Joshua Davis

4. Meghan Linsey

3. Sawyer Fredericks

2. Koryn Hawthorne

1. India Carney

Infelizmente, o iTunes deixou claro que todo o esforço e a competência de India foram em vão, e que os EUA não estão nem aí para boa música e para artistas competentes. India e provavelmente Koryn formariam o nosso último bottom da temporada, o que é absolutamente enlouquecedor quando pensamos que elas são justamente as donas das duas melhores performances da noite. Não faz sentido!

RESULTS SHOW

Ao longo dos resultados, tivemos duas performances em grupo dos nossos semifinalistas. O Clube da Luluzinha cantou junto e não entregou nada muito memorável, mas foi ok. Já o Clube do Bolinha me fez pular a apresentação depois de uns 30 segundos, porque não sou obrigado. A quem interessar, seguem os dois vídeos:

Sawyer Fredericks & Joshua Davis – Drift Away (Dobie Gray)

India Carney, Koryn Hawthorne & Meghan Linsey – Faithfully (Journey)

O bottom, enfim, foi anunciado, com um pequeno e compreensível twist que anunciou India como “em perigo” antes de Carson informar que, entre Koryn e Joshua, era o terceiro finalista. E, sim, a notícia não poderia ter sido pior. Koryn e India cantariam para disputar a quarta vaga da grande(?) final.

2. India Carney – Dark Side (Kelly Clarkson)

Não sei o que houve com India. Não apenas houve um excesso absurdo de melismas e vibratos como também pegou muito mal o trecho em que ela prefere executar um melismão gigante em vez de cantar diversos versos da música. Esse tipo de coisa funciona no final de apresentações mais longas para evitar repetições, mas aqui é impossível considerar uma decisão inteligente ou mesmo agradável.

1. Koryn Hawthorne – If I Were a Boy (Beyoncé)

Também não achei grandes coisas, mas foi um arroz com feijão muito bem feito que certamente ajuda Koryn a sair na frente na votação do #VoiceSave. Só acho meio apelativo demais Pharrell ficar falando sobre Deus e dizendo que Koryn inspira aqueles que ouvem “não” das pessoas a realizar seus sonhos. Ninguém ouviu mais “nãos” do que India a esta altura da competição, então esse argumento nem faz sentido. No fim das contas, deveríamos valorizar nossa competição MUSICAL, e, nesse quesito, Koryn é boa demais para esse tipo de apelação.

Eu até prefiro ver o copo metade cheio e pensar que é melhor ver India perdendo essa vaga para Koryn. Se Joshua estivesse disputando com ela, ele venceria do mesmo jeito, o que seria completamente revoltante. Mas ver a cantora perdendo para alguém que pelo menos tem um histórico de muito respeito na temporada acaba sendo um pouco reconfortante.

Lembram-se no início dos Lives, quando comentei o seguinte: “a única maneira de a oitava temporada ser uma temporada ruim é se tivermos que assistir ao péssimo Team Adam avançando na competição e tirando os lugares de cantores mais competentes”. Pois bem. Aconteceu. E, embora dizer que a oitava temporada foi ruim não seja lá uma afirmação muito verdadeira, certamente é um ciclo que perdeu a oportunidade de ser épico e ficou atrás de temporadas que foram boas – ou nunca ficaram tão boring, pelo menos – do início ao fim (a segunda, a terceira e a quinta, basicamente). É até possível que todas as outras temporadas possam entrar à frente da oitava nesse ranking a depender do critério da análise, pois ao menos tivemos artistas respeitáveis sendo mais recompensados pelo público nessas temporadas do que agora, mas, se considerarmos a média (vulgo o tempo em que Kimberly Nichole ainda estava presente), tivemos um número bem maior de boas performances do que o normal. O jeito é nos apegarmos a isso e seguirmos de cabeça erguida para a final, não é verdade? Segue, pela última vez, o meu ranking geral dos artistas da temporada:

12. Brian Johnson

11. Mia Z

10. Deanna Johnson

9. Rob Taylor

8. Hannah Kirby

7. Corey Kent White

6. India Carney

5. Joshua Davis

4. Koryn Hawthorne

3. Meghan Linsey

2. Sawyer Fredericks

1. Kimberly Nichole

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.