
Não sei se vocês já presenciaram a seguinte cena: um leitor da revista Veja é repreendido pelo fato de a revista ser claramente tendenciosa em seu noticiário e que, para uma leitura livre de vieses, deve-se ler Carta Capital. Eu presencio uma dessas por semana. Nós sabemos que as duas são parciais, cada uma para o seu lado. Mas o que uma revista de direita e outra de esquerda têm a ver com a nova série de Aaron Sorkin?
Spoilers Abaixo:
Em minha opinião, tudo. O que essas pessoas que recomendam Carta Capital fazem é mais ou menos o que Mackenzie (Emily Mortimer) acaba fazendo com News Night e, consequentemente, o que Aaron Sorkin parece está tentando fazer com a sua audiência.
Proponho uma experiência, baseada na filosofia dos três Is e um A de Mackenzie. Imaginando que Don (Thomas Sadoski) comandasse este texto, ele traria o seguinte comentário sobre o episódio:
Após assistir News Night 2.0, eu posso afirmar categoricamente e sem sombra de dúvidas que este episódio foi terrivelmente ruim, com problemas sérios de roteiro e de gags que não funcionam e que foi definitivamente muito inferior ao piloto.
Mas, agora que Mackenzie assumiu o cargo de produtora, ela quer mostrar os dois lados e deixar que o leitor seja o autor de sua própria opinião. Eis o comentário 2.0:
Especialistas se dividem após assistir ao segundo episódio de The Newsroom. Alguns acham que foi bom, outros acham que foi ruim. Tirem suas conclusões e votem conscientes.
Mas, como Mackenzie tem uma equipe inexperiente, coisas dão errado e o que acaba saindo é…
Público se divide após assistir ao segundo episódio de The Newsroom. Especialistas acham que foi bom, mas Felipe Neto, o dono do boteco da esquina e um aluno de EJA falaram que foi ruim. Mas não dá para levar esses últimos a sério, dá?
Entendem o que eu quero dizer? Eu não sou contra uma série ter e defender suas visões políticas. O problema é ele se propor a ser imparcial e criar um rebuliço para mostrar que o que ele acredita está certo, que os democratas são maravilhosos e que os republicanos são perversos e faltam entrevistas em cima da hora. Aliás, mostrar os republicanos como caducos de armas, professores de universidades à distância e loiro-burras que participam de concursos de beleza foi de mau gosto, preconceituoso e induzindo que todos os republicanos sejam assim. Tudo bem que se não fosse o erro de Maggie (Alison Pill), eles teriam um bom republicano no painel, mas eu não acredito que um canal enorme como aquele não conseguiu encontrar um substituto apresentável de última hora. Porque foi exatamente isso o que eles fizeram no episódio anterior.
Não me entendam mal. Eu não sou republicana e acho a lei que virou a notícia do episódio, que permite que policiais exijam documentos de imigração legal a qualquer pessoa que pareça suspeita — se você pensou em nazismo não foi mera coincidência —, é um absurdo. Imigrantes ilegais custam caro, mas eles não roubam emprego de ninguém, ao contrário do que Will McAvoy (Jeff Daniels) pensa. Mas nós não podemos ser ingênuos como Maggie e nos sentir apenas orgulhosos de tanta gente querer se tornar um cidadão estadunidense. O mundo não é preto e branco e muito menos de esquerda e de direita apenas, não é mesmo?
Desabafo à parte, tudo o que havia funcionado para mim no piloto, não funcionou aqui. Eu realmente espero que as gags tecnológicas tenham chegado ao seu ápice porque se você sentiu um déjà vu naquela cena dos celulares apitando, que aconteceu não uma, mas duas vezes, fique tranquilo (ou não) porque aquilo não foi um déjà vu. Gossip Girl tinha uma cena dessas de praxe por episódio.
Pelo menos o plot da gag serviu para conhecermos mais do passado de Will e Mackenzie, trazendo novos embates entre os dois, e isso foi uma das partes boas do episódio. Assim como o esforço de Will em parecer um cara legal e que se importa e, no final, revelando um pouco daquilo que Mackenzie exaltada tanto nele. A cena em que Will e Mackenzie discutem após o vazamento das circunstâncias do término do casal foi muito bonita de assistir. Palmas para Jeff Daniels e Emily Mortimer, apesar de eu ainda achar Mackenzie um pouco chata.
Se compramos a relação Will e Mackenzie facilmente, o mesmo não acontece com Jim (John Gallagher, Jr) e Maggie. É fofo e engraçado, mas não muito crível. Não sei se é ausência de química ou o conflito que não funciona bem, mas ainda falta algo ali. Porém, os atores são bons, as cenas são divertidas e bonitinhas e com o tempo pode até que esse amor, que atingiu tão rapidamente e intensamente Jim, também nos fisgue. Por enquanto, isso só foi mais uma coisa que funcionou melhor no piloto.
A nova adição à equipe de News Night foi a economista Sloan (Olivia Munn), e ela chegou causando certa comoção na redação. Afinal, ela foi o pivô de toda a revelação da traição de Mackenzie para toda a Atlantic Cable News. E, segundo Mackenzie, contradizendo tudo o que ela disse em seus três Is e um A, ela só foi contratada porque tem pernas bonitas. Mas uma contradição no discurso de Aaron Sorkin que eu não consegui entender.
Apesar de algumas boas cenas, em News Night 2.0 aconteceu mais ou menos o que temia, o episódio se perdeu na crítica política e na crítica à mídia e nem conseguiu fazer isso tão bem. Acabou perdendo a mão, tal qual o noticiário que também não conseguiu ser tudo o quê Mackenzie propôs que fosse. Mas assim como News Night terá uma nova chance (e agora com Will comprometido), The Newsroom ainda tem muitos episódios pela frente (já foi até renovada para uma segunda temporada). E só espero que os próximos sejam mais parecidos com o piloto do que com sua “versão 2.0”.
Mais destaques:
• Will se esforçando para decorar o nome de seus colegas de trabalho após ser exposto por não sabê-los lembra o episódio de Sports Night, no qual Casey passa pela mesma situação. Outras autoreferências (ou autoplagios) sorkianos você pode ver clicando aqui e, quem sabe, já ter uma prévia de futuras cenas de Newsroom. Sim, poderia se fazer um vídeo desses com qualquer roteirista, mas nem todos seriam tão legais.
• Foi meio estranho Will se oferecer para pagar o táxi do imigrante para sempre. Foi um gesto altruísta, mas meio bizarro. E o close na Estátua da Liberdade foi cafoníssimo.
• Falei que senti falta de um bromance sorkiano no piloto, mas acho (e torço) que algo já se desenha entre Jim e Neal (Dev Patel). Aliás, foi bom também ver Patel tendo mais espaço.
• Já estava desconfiando que a ausência de bromance teria alguma ligação com o fato de pela primeira vez na TV, Sorkin não está trabalhando em parceria com seu amigo e diretor Thomas Schlamme. Brincadeiras à parte, a dinâmica e visual de Newsroom realmente se difere um tanto quanto do traço que Schlamme inseriu nas outras séries de Sorkin.
• Alison Pill (Maggie) e John Gallagher, Jr (Jim) já contracenaram juntos quando adolescentes no filme Do Jeito Que Ela É. Ela também contracenou com Jeff Daniels (Will), em 2007, na peça Blackbird.
• Como bem citou a Fernanda Santana nos comentários da review passada, Jesse Eisenberg (protagonista de A Rede Social, filme que deu um Oscar a Aaron Sorkin) emprestou sua voz numa participação especial no piloto. Para quem não reconheceu, ele era Eric Neal, responsável pela vistoria da plataforma. Neal realmente existe e o que Eisenberg disse na entrevista fictícia dada a Will por telefone foi o que Neal disse em entrevistas reais semanas após o acidente. Segundo o próprio Sorkin já declarou, o roteirista não coloca palavras inventadas na boca de pessoas reais.













