
O que está acontecendo com os Vizinhos?
Spoilers Abaixo:
Se explicar o ‘’humor trash’’ já é difícil, apreciá-lo é ainda mais difícil. Eu pessoalmente odiei a primeira vista, quando tive a minha primeira experiência com Doctor Who, mas me acostumei a ele, e aprendi a amar esse tipo tão inusitado de fazer piada: o de rir do que deveríamos achar ridículo.
Até então, a única coisa que havia chegado perto desse humor, e que havia obtido sucesso, na TV americana era a animação Futurama, ainda que fosse televisionada por uma canal de TV à cabo (ou seja, um público mais de nicho). Mas em Setembro de 2012, a ABC resolveu mudar isso. É claro que uma família humana e uma vizinhança tiveram que fazer parte do pacote, para amenizar o paladar da audiência americana. A tentativa deu certo, embora a série seja constantemente apunhalada, injustamente, pela crítica especializada, mas Neighbors não é nenhum sucesso de público.
Talvez pensando nisso, os roteiristas resolveram que a sitcom deveria começar 2013 não focando nos ETs e seu humor peculiar, mas na família humana, utilizando de mil e um clichês já vistos em quase toda sitcom que gire em torno de uma típica família americana. O resultado, é claro, saiu pela culatra, e Neighbors teve dois de seus piores episódios seguidos.
Em Gingerbread Man, o episódio gira em torno de duas tramas: Debbie e Larry, sem nenhuma química e entrosamento, entrando na Associação de Pais e Mestres da escola dos filhos; Marty e Jackie treinando o time de futebol da mesma escola.
Na primeira, o ridículo que deveria ser engraçado, se torna apenas vergonhoso. Debbie é controladora por natureza, mas vê essa mesma natureza ameaçada pela presença dominadora da presidente intimidadora da associação. Como Debbie não é mulher de dar o braço a torcer, logo ela inventa uma votação por motivo fútil (o biscoito que será vendido na partida de futebol), apenas para dominar a figura da presidente perante os outros pais. Larry é arrastado junto nessa loucura, e usa de seus meios de guerra alienígena para ganhar a votação. O problema é que tudo é orquestrado de maneira imbecil, culminando com a cena patética do biscoito de gengibre ambulante, e uma forçadíssima presidente traumatizada por ter visto um biscoito falando e andando pela sua casa.
Na outra ponta, Marty tenta ensinar Jackie que ser treinador de futebol significa incentivar o time, mesmo que o jogador seja tão ruim quanto Dick, e que tudo não passa de diversão. Jackie, é claro, encara tudo com outros olhos, e não tem papas na língua quando é para pegar pesado com o próprio filho. No final ela entende a burrada que fez e muda de atitude, como esperado.
O maior problema desse episódio, como citado, é que ele é forçado demais, clichê demais. As piadas são ruins, os atores parecem estar com o timing cômico enferrujado das férias, e todas as conclusões são tão óbvias que chega a dar sono.
Em Cold War, a premissa melhora, as piadas melhoram (embora a única que tenha me feito rir tenha sido sobre a banda fictícia Santana), e já temos o elenco todo em cena. Mas, ainda assim, o episódio fica bem longe da maestria que a série nos apresentou durante a primeira metade da temporada.
O plot é aquele em que uma família inteira pega resfriado, que já vimos infinitas vezes por aí, e praticamente gira ao redor desse resfriado. Reggie tenta achar uma cura para a bitch da Amber, Larry trata tudo como uma pandemia mortal, Jackie adquiri um forçado instinto maternal mega-protetor, e quer cuidar de todos os vizinhos doentes, e Debbie se vê obrigada a cuidar de todos os doentes, mesmo também estando doente, porque o marido age como um bebê manhoso.
A diferença principal de Cold War para Gingerbread Man é que no primeiro o roteiro realmente é afiado, com tiradas pontuais e dentro do padrão da série. Porém, o elenco continua enferrujado, e não consegue dar vida e graça para piadas das quais antes nós daríamos risadas. Em qualquer outra ocasião, a cena de Larry flagrando o filho abraçado ao zelador da escola, em seu quarto, por exemplo, seria hilária, mas aqui ela não tem nenhum efeito cômico, e simplesmente passa batido no episódio.
Ao final, o resto dos zabvronianos resolve seguir Jackie, se rebelar contra Larry, pela primeira vez, e cuidar dos vizinhos humanos, sendo essa a única decisão inesperada e bem-vinda dos dois episódios.
Apesar das críticas pesadas que a série vem recebendo nos últimos dias, eu espero que os roteiristas não se abalem e resolvam voltar ao clima que a série tinha antes: o humor trash, e não o humor clichê e ‘’americanizado’’.
PS: Ponto para a referência a Benjamin Button e para a tirada com o fato das duas maiores séries médicas dos últimos anos, House e Nurse Jackie, terem os protagonistas viciados em drogas.
PS 2: Sei que o intuito é ser engraçado, mas já está começando a me dar raiva o tratamento que a Amber dá para Reggie.
PS 3: Para quem achou que o nome da zabvroniana que não parava de mandar SMSs, Billie Jean, era uma referência a canção de MJ, se enganou. Na verdade, era uma referência a uma tenista de mesmo nome, já que os pseudônimos dos zabvronianos são inspirados em nomes de atletas americanos.





















