A queda é deliciosa. Sim, a ascensão nos dá fôlego, nos renova, nos impulsiona, eu sei. Mas a ascensão assistida é como a subida da montanha-russa. Assistir à ruína é um espetáculo, tem a adrenalina da descida. As tragédias gregas e os dramas contemporâneos estão aí para nos apontar que às vezes nos colocamos como plateia somente por isso, para ver como as coisas desmoronam; qual o barulho que faz, como as personagens são atingidas — como os atores choram. Montanha-russa abaixo, vemos pelos trilhos vidas aos pedaços, sempre exigindo uma dor a mais. Isso nos motiva a entrar nesses rankings de filmes mais tristes ou álbuns mais tristes e tantos outros costumes estranhos que temos. Talvez porque não só a grama do vizinho seja mais bonita, mas porque sua queda seja mais divertida.

“Assistir ao surto de uma mulher muito querida é uma forma de entretenimento atemporal para os americanos.”

Essa queda é quase uma armadilha para as mulheres que trabalham na arte, no entretenimento e no audiovisual. É como se a indústria lhes desse uma carreira somente para que possa retirar depois. É um empréstimo, na verdade. Ou um pacto. Dá-lhe muito, mas lhe cobra muito em retorno: um rosto, uma postura, um discurso, tudo em nome desse mundo cujos bastidores vemos poucos e geralmente nada muito bom. Nesses casos, dá para citar exemplos em todas as áreas possíveis. Se a televisão e a arte se sustentam pelo paradoxo de fugir do mundo e encará-lo ao mesmo tempo, alguns espetáculos mantém esse jogo. Um deles é a queda feminina — algo que nós podemos rastrear desde os textos bíblicos e dar exemplos de nosso cotidiano para fundamentar. Mas e quando a mulher não cai? Foco de luzes na personagem principal, o público espera, os produtores esperam, os colegas de elenco esperam e… Ela não cai. Ela simplesmente não cai.

The Morning Show.

Estava tudo planejado para a queda de Alex Levy (Jennifer Aniston). A emissora de televisão estava em conversa com seu parceiro de bancada, preparando o momento certo para dispensá-la. Eis que o destino mexe nesse jogo, e a apresentadora ganha a primeira batalha — mesmo sem saber e mesmo que de forma desconcertante. Mitch Kessler (Steve Carell), com quem trabalhou ao lado nos últimos quinze anos como uma dupla de âncoras do principal jornal matutino, é acusado de assédio por dezenas de mulheres e precisa ser afastado do programa. Sozinha e exposta, Alex começa a descobrir um esquema de intrigas nos bastidores que flerta com a possibilidade de dispensá-la desse posto que ocupa há mais de uma década.

Até aí, o roteiro nos faz crer que é uma história sobre como Alex recomeçará sua vida, aonde irá depois dessa derrota; depois que a emissora lhe passar a perna. Dá para fazer certo paralelo com The Good Wife (CBS) nesse ponto. Na série, Alicia (Julianna Margulies), uma advogada, precisa voltar aos tribunais e assumir as contas da casa depois que seu esposo, procurador do estado, envolve-se em um escândalo sexual e de corrupção. Assim como na série deste post, o homem é punido por seu comportamento, exonerado de seu cargo e sua vida social passa a ser reclusa. Com Alicia, temos uma saga de recomeço, descoberta de si e desse mundo político da advocacia, do qual se manteve longe por mais de dez anos. Imaginei, portanto, que veríamos novamente essa saga, dessa vez ambientada em um novo lugar. O que The Morning Show propõe, entretanto, é outro tipo de jornada. Alex já conhece seu mundo, suas regras e a si mesma. Ela não vai recomeçar. Ela vai lutar para permanecer onde está.

The Morning Show.

Com três episódios liberados de uma vez, decisão muito inteligente, The Morning Show estreou no dia primeiro de novembro na Apple TV+. A série acompanha See, Dickinson e For All Mankind, produções que apresentaram a nova plataforma de streaming ao público. Fico devendo uma análise das colegas de casa, mas, para Morning, não é difícil identificar o motivo para que ela tenha se tornado um dos seriados promotores do serviço. O enredo toca em um assunto delicado e importante, coloca três dos atores norte-americanos mais queridos atualmente para liderar um elenco já assustador e desfila para nós uma produção grandiosa. Muito aqui é esbanjado e não se justifica, mas logo falamos sobre isso. Depois de nossa mini-maratona, a série contará com mais sete episódios para fechar sua temporada em uma dezena. A disponibilização será semanal, outra decisão inteligente.

O trio de episódios disponíveis oferecem um bom panorama daquilo que a série deseja tratar. Se somente o primeiro tivesse feito parte da estreia, acredito que muitas pessoas desistiriam com ele. Isso porque o seguimento inicial (In the Dark Night of the Soul It’s Always 3:30 in the Morning) é tão atrapalhado quanto este título enorme. Mesmo que não se reflita muito a respeito, a sensação é de que há algo estranho, algo faltando. Há uma aparência de série da HBO, mas sem o mesmo apuro, sem o mesmo controle. Temos personagens demais e um roteiro que não sabe distingui-las nesse primeiro momento: todo mundo fala muito igual e naquele discurso que parece carregado de autorreferências, fechado em si, pouco acessível ao público. O que cada ator faz com seu texto é o que nos ajuda a diferenciá-los, mas não o bastante para que haja qualquer simpatia de primeira.

The Morning Show.

Morning, que poderia ser chamado de The Jennifer Aniston Show, tem uma perigosa dependência de sua atriz principal. Não digo somente de seu talento, mas a série quase requerer que gostemos de Alex por gostar de Aniston — algo que os mais de um milhão de seguidores no Instagram em cinco horas (recorde) e dezoito no total em menos de um mês provaram ser óbvio. Depois dos dois primeiros episódios, uma coisa é clara: Alex precisa ter a mesma jornada complexa com a qual o roteiro flerta. A série só funcionará se a personagem e a atriz conseguirem carregar a grande responsabilidade de chamar nossa atenção.

Isso porque, como eu disse lá no começo, não é só a personagem que está na mira da indústria jornalística, que espera qualquer escorregão para chamá-la de desequilibrada e reduzir seu reinado na televisão ao nada — aqui fora, Aniston, assim como toda atriz de cinquenta anos (infelizmente) tem seu retorno à tevê com muita especulação, muita descrença. A crítica está pronta para fazer uma análise desse retorno com muitos dedos, depois de quinze anos, a um papel principal nessa mídia. Por enquanto, Aniston se mostra a grande força que lhe é requerida — até mais, porque ela melhora muito algumas cenas e falas bobas. À vontade, talvez essa entrega se justifique na cadeira de produtora executiva, algo que deixou Amy Adams muito à vontade para também migrar para a tevê em Objetos Cortantes (HBO). Difícil mesmo é sentir empatia por Alex. Num país do desemprego como o nosso, cujas áreas de especialização parecem expelir os graduados, e não acolhê-los, fica difícil nos enxergarmos em uma pessoa rica, com quinze anos de sucesso e sem nossas preocupações diárias.

The Morning Show.

O segundo episódio melhora bastante os deslizes do primeiro: a série começa a encontrar sua história. O final entusiasta deixa o público pronto para começar o terceiro comprometido com a trama e com as reviravoltas que ela lhe oferecerá. Assim, se há algo há ser dito, é que você não desista da série antes de Chaos is the New Cocaine. A forma como os três capítulos combinam não está apenas aí, mas em outros detalhes. Em todos, por exemplo, temos um começo que se dá à noite. Não só começam à noite, como terminam à noite — sendo o terceiro aquele em que a série finalmente suspende sua linha narrativa durante o dia. Isso mostra um roteiro pronto para brincar consigo e para ser cínico — diz-nos, através desse esquema, que é preciso desconfiar de tudo o que nos é mostrado.

Desconfiança podemos levar para o título da série. Assim como The Good Wife não se tratava de uma trama sobre uma boa esposa, talvez aqui não falemos de um show que acontece de manhã. E se acontece, que show estamos falando? Vale lembrar dos múltiplos significados que temos para a palavra tanto em inglês quanto em português. O que é alguém “dar um show”? A referência parece estar ligada tanto aos quinze anos de profissionalismo que deixaram Alex no topo como o show que ela faz faltando dois minutos para entrar no ar. A mesma brincadeira acontece com a expressão “perfect storm” (“tempestade perfeita”, usada para a combinação de muitas desgraças ao mesmo tempo), que aparece de maneira indireta na série: no final do primeiro episódio, quando vai visitar seu ex-parceiro de programa, a protagonista o faz na chuva; momento, aliás, em que lhe é revelada o grande complô que vem sendo elaborado às suas costas.

The Morning Show.

Alex a Mitch acordavam as pessoas, iniciavam seus dias, davam-lhes as primeiras informações em sua rotina. Mesmo casados com pessoas diferentes, os dois formavam um par que podemos ler como pai e mãe à imagem pública. É por isso que o escândalo parece atacá-los: não só alguém que entrava em seus lares todos os dias não é a pessoa que esperavam, como, de maneira simbólica, parece vandalizar uma imagem paterna que tinham. Isso porque procuramos figuras paternas e maternas em todos os lugares, mas não vou nos desviar para a psicanálise. O que aproveito para dizer, no entanto, é que talvez seja esse fator que provoque tanta perturbação em torno da personagem de Aniston: ela é vista abandonada, a esposa cujo marido fora pego traindo, a divorciada. Nossa sociedade tem uma complicada relação com as mães e mulheres solteiras, mas isso todos nós sabemos.

Falando sobre a personagem de Steve Carell, preciso destacar um dos grandes problemas da série: ele precisa deixar a história. Foi corajoso (e lá no fundo inteligente) colocar um ator tão querido para esse conflito tão repugnante, mas ele se tornou uma personagem queimada, tóxica, que não rende mais na trama. Não há o que fazer com ele depois do primeiro episódio. Nós não nos importamos com a saga de um homem, dentro de um drama, que usa seu poder e dinheiro para seduzir suas subordinadas e fazer fila do lado de fora do seu camarim. É um comportamento condenável e que chega bem-vindo à série como tema a ser explorado, mas não dá para reverter isso. A simpatia pelo ator talvez entre no caminho de aceitarmos isso, mas a verdade é que se Morning vai retratar a ausência desse homem poderoso que de repente não pode ser mais sequer citado, é preciso que essa ausência aconteça, seja sentida pelo público e pelas outras personagens.

The Morning Show.

Outro ponto que me leva a dizer que The Morning Show tem um começo (primeiro episódio) atrapalhado é que a série gira em torno de três personagens, os três grandes nomes do elenco, mas nenhum deles parece instigante no começo: Mitch é esse homem intolerável, que sequer assumi que está errado; Alex é essa mulher rica, acima de tudo e de todos, incompatível com nossa realidade; Bradley é esse acúmulo de estresse e de um texto que não respira. Assim, as personagens coadjuvantes parecem nos chamar mais atenção.

Temos Cory Ellison (Billy Crudup) fazendo um quase-antagonista divertido de assistir, que nunca entendemos de fato — sem que isso importe no fim das contas. Chip Black (Mark Duplass) é o produtor do programa matinal, cuja lealdade nunca sabemos direito onde está, mas que tem camadas bem elaboradas pelo ator. Mia Jordan (Karen Pittman) é uma ambiciosa parte da equipe que parece ter um passado com o apresentador dispensado. Quando se encontram, eles têm momentos empolgantes e sabem explorar essa dinâmica de atacar e defender proposta pelo roteiro.

The Morning Show, compreendemos, após o final do segundo episódio, é uma série sobre poder. Não é sobre consentimento, sobre comportamento inadequado, sobre decadência ou sobre a queda que eu mencionei antes. É sobre poder, quem o tem e como ele é explorado. Não é tão fácil ligar as pessoas a esses substantivos, saber quem manda e quem é mandado porque há uma constante troca de controle. Alex, Bradley, Chip e Cory, além do dono da emissora (Donny), estão brincando de dança da cadeira ao redor do grande trono, do assento do chefe.

The Morning Show.

Essa dinâmica requer ação, um ritmo que saiba quando desacelerar. É por isso que não são tão bem-vindas as constantes cenas nas quais as personagens estão sozinhas e isoladas. Elas serviriam, sim, para mostrar que mesmo pessoas que trabalham com tanta gente são solitárias. Mas Morning não é sobre investigar as crises existenciais desses profissionais — é sobre manipulação. As cenas sobram e só nos deixam com a sensação de que uma hora é um formato mais idealizado do que necessário.

Chegamos a Bradley, personagem de Reese Witherspoon. De fora e forjada no meio da bagunça do primeiro episódio, parece que ela representará o público dentro da série. Uma adulta frustrada, aparentemente sem um relacionamento fixo duradouro e com a carreira saindo do controle, temos o retrato de muitas de nossas aflições nesse mundo (aqui fora) onde tanto ambicionamos mas que tão pouco podemos concretizar. Bradley entra ao acaso na UBA (emissora fictícia) com olhos impressionados, combinando com nossa admiração pela produção. Às vezes, nós a perdemos porque sua constante dúvida e petulância a deixam irritante. Rende bons momentos, mas também rende muita vontade de que ela se torne rápido demais a personagem astúcia que esperamos.

The Morning Show.

Bradley e Alex se encontram, desafiam-se e se entendem. Diria que é o público encontrando a protagonista. Independente do significado, é destacável a química entre Aniston e Witherspoon. As atrizes mostram diversas facetas que nós conhecemos, aproveitando o histórico de trabalhos que têm juntas, desde a época em que interpretaram irmãs em Friends (NBC). Também produtora executiva aqui, percebemos em Reese o mesmo interesse em produzir séries com mulheres protagonistas complexas, assim como em Big Little Lies (HBO).

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As séries têm se tornado nosso momento de escapismo deste mundo tão violento e assustador. O engraçado é que escapamos de nossa rotina, às vezes, indo buscar outras rotinas para substituir a do mundo real. Talvez porque sintamos conforto na estabilidade. A rotina dos bastidores aqui, por exemplo, cria uma sensação de família, de boa divisão de afazeres: cada um tem seu papel, sua personalidade, sua responsabilidade. Nós, animais sociais, refletimos em nosso gosto pessoal essa carência não só por fazermos parte de grupos fora da tela, mas dentro dela. The Morning Show, portanto, torna-se mais um aconchegante e complicado núcleo familiar, de espaços e rostos conhecidos.

The Morning Show.

Pode ser que Morning recheie sua hora de duração com cenas demais, inflando subtramas que não nos despertam muito interesse, assim como os próprios programas matinais caçam matérias aleatórias para compor sua grade. Em meio à possível bagunça, as grandes cenas aparecem, os momentos em que os atores fazem um texto pretensioso demais parecer natural sob seus talentos.  É mais um enredo sobre defeitos e como caçamos no outro o fim daquilo que esbanjamos em nós. É sobre poder. É sobre métodos de se evitar a queda. Mas é, principalmente, inquestionavelmente, sobre Jennifer Aniston. E não adianta esperar: não parece que ela cairá tão cedo.

———

ps:

(01)

A (longa) abertura é divertida, mas não acho que combina com o programa. Em nada.

(02)

Esse texto foi mais longo porque, além de apresentar a série, compreendeu os três primeiros episódios. Os próximos serão menores. Quem me acompanha?

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
the-morning-show-primeiras-impressoesPode ser que The Morning Show recheie sua hora de duração com cenas demais, inflando subtramas que não nos despertam muito interesse. Em meio à possível bagunça, no entanto, as grandes cenas aparecem, momentos em que os atores fazem um texto pretensioso demais parecer natural sob seus talentos.