Às vezes, menos é mais.

Spoilers Abaixo:

The Mentalist encerrou sua quarta temporada de forma muito menos impactante que o terceiro ano, criando um season finale que, desesperado por atenção, desfila obviedade e situações irritantemente convenientes. Ainda assim, é inegável que a série tenha se aproximado um pouco mais de seu antagonista, Red John, através da figura de Lorelei. Assim, Bruno Heller poderia optar por começar sua temporada com mais um episódio dedicado inteiramente ao serial killer, procurando por algo tão sonoro quanto a morte de Wainwright em The Crimson Hat. Mas prefere introduzir o quinto ano de sua criação de forma mais sutil e elegante, combinando neste The Crimson Ticket o lado procedural da série com a trama principal, fazendo com que o premiere diga muito mais sobre a história do que seu antecessor.

O episódio começa algum tempo após os acontecimentos de The Crimson Hat, com o FBI não autorizando que Jane possa conversar com Lorelei. Esse fato gera um grande conflito entre a agência nacional e a CBI, fazendo com que seus integrantes cheguem às vias de fato em certo momento. Mas o consultor insiste que deve falar com a cúmplice de Red John, conseguindo um encontro com ela, sozinho, em que pode usar qualquer artifício para obter o que quer. Enquanto isso, a equipe investiga o homicídio duplo de Rex Lango e Cellie Karlson, precisando aturar a força conjunta com o FBI no caso.

O grande mérito de The Crimson Ticket é o fato de compreender que a abordagem dada pelo roteiro à trama principal não justificaria um episódio exclusivamente dedicado a ela, executando a tarefa de criar dois arcos paralelos de forma sempre fluida e relevante, sem jamais permitir que uma das duas histórias fique esquecida. Além disso, é inteligente a decisão de Heller de fazer com que Lorelei cresça com o passar do tempo, tornando-se mais importante para o roteiro a cada minuto. Repare como a cúmplice de Red John aparece pouco na primeira metade, e o quanto ocupa de tela na parte final. Mesmo assim, a série não abandona seu caso da semana como visto em diversas outras ocasiões.

Caso esse que é desenvolvido de maneira honesta e criativa, sem passar boa parte do episódio levando os personagens a lugar algum para, nos últimos momentos, a solução brotar como em um passe de mágica. Pelo contrário, cada entrevista ou interrogatório é importante para o desfecho, montando de forma eficaz o quebra-cabeças envolvendo o curioso crime. Aliás, The Mentalist precisava de uma investigação como esta, em que nada parece fazer sentido, permitindo que a série desenvolva uma história menos aborrecida e com fatores que a diferenciem de outras contadas pela mesma.

Por isso, a cena que resolve o caso é uma das mais inteligentes que a série já criou nos últimos anos. Aos poucos, a situação da loteria vencida por Cellie começa a surgir e a ganhar importância, a começar pela sua primeira aparição, sutilíssima, no jornal lido pelo tio de Rax. Se a fala proferida por ele não tem qualquer relevância na trama, o que a câmera mostra naquele momento é o primeiro indício da solução. Quando The Mentalist permite ao espectador acompanhar os motivos dos jogos promovidos por seu protagonista, a série ganha em verossimilhança e em coesão, tornando a história mais crível e real.

O conflito introduzido aqui entre a CBI e o FBI também é executado de forma competente. Se The Mentalist carece de elementos que apimentem seus episódios, a briga entre as duas agências ocupa essa posição de maneira eficiente, envolvendo The Crimson Ticket em uma atmosfera importante para que o season premiere consiga acrescentar um clima diferente, como se mostrasse ao espectador que os acontecimentos do season finale tem seus efeitos colaterais. Além disso, a situação provoca cenas precisamente alocadas que acrescentam humor ao episódio, como na cena em que Mancini atira uma garrafa de água em Jane (e aqui o fato do roteiro esconder como o consultor aplica o golpe é o que torna a cena mais interessante), ou mesmo nas reações de Rigsby e Cho às diferentes situações com os agentes federais.

Mesmo internamente, The Mentalist procura semear alguns conflitos importantes. A nítida falta de paciência de Lisbon com Jane, bem como a ameaça de Bertram ao seu consultor, mostram que ele não goza do mesmo prestígio que anteriormente, o que é perfeitamente aceitável após as presepadas de The Crimson Hat. Também aí, a série introduz um novo ambiente, gerado pelos acontecimentos passados. É raro que Heller decida por construir esse tipo de continuidade, e por esse motivo a situação não apenas surpreende como gera um clima agradável para a nova temporada.

Mas não se pode esconder que o mais importante do episódio é a trama de Red John, abordada timidamente, mas temperando este season premiere com informações relevantes sobre a história. Primeiro, por conta da eficiente dúvida que a série deixa no ar sobre o quanto Jane está no controle da situação, mostrando em vários momentos que o consultor está emitindo um grito de desespero ao apostar suas fichas em Lorelei. Por outro lado, a confiança da maior cúmplice de Red John parece implacável, com a personagem imprimindo um tom sereno em sua voz, transmitindo com competência a calma dela. Até o momento em que o FBI finalmente obtém a decisão na justiça que garante a eles os cuidados da prisioneira. Ali, quando ela implora a Jane para que não deixe os agentes levarem-na, sua expressão revela apreensão e medo, sugerindo que a teoria dele sobre a existência de um agente duplo na agência é de fato verdadeira.

O que se mostra verídico logo nos minutos seguintes, quando o episódio mostra sua cena final, executada brilhantemente ao encerrar The Crimson Ticket repentinamente, causando no espectador o impacto desejado de maneira sutil e inteligente, sem a necessidade de implorar por isso. É verdade que The Mentalist provavelmente ignorará essa história por muitos episódios, mas isso não deixa de ser uma evolução.

Sem criar tramas apelativas e pendendo para um lado mais tranquilo que permite com que o roteiro desenvolva melhor suas histórias, The Mentalist inicia sua quinta temporada em muito melhor forma do que o encerramento do ano anterior, mostrando que a série tem capacidade de se reconstruir. Só resta saber se consegue manter esse nível.

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