Mais em episódio diferente.

Spoilers Abaixo:

Em certo ponto da terceira temporada de The Mentalist, a série apresentava um episódio com uma atmosfera tão morna que o público se perguntava se as histórias sairiam em algum momento do piloto automático, e se Bruno Heller procuraria reinventar sua rapidamente desgastada fórmula. Mesmo com o belíssimo season finale, eram poucos os que esperavam que The Mentalist apresentasse algo diferente em seu quarto ano de exibição. Pelo contrário, o histórico da série permitia afirmar que a série continuaria do mesmo jeito até seu final. No entanto, a temporada começou de maneira consideravelmente diferente e, mesmo apresentando alguns episódios ruins, se mostra inegavelmente superior às duas últimas, principalmente pela consistência. E At First Blush prova que The Mentalist não precisa necessariamente falar de Red John para construir boas histórias.

A premissa do episódio é diferente do comum. Após um julgamento sobre um criminoso preso pela CBI, Jane se interessa pela história de Eve Mulberry, acusada de matar seu suposto affair, Carlos Ruiz. Ao vê-la fazendo uma declaração à imprensa, Jane acredita na inocência dela, convencendo Lisbon a tentar provar seu ponto, utilizando para isso todos os recursos da CBI, levando à fúria Osvaldo Ardilles, promotor do caso. Assim, eles descobrem toda a história da suposta assassina, e de sua pequena vinícola. O principal suspeito é Terry Murphy, perigoso criminoso, com quem Ruiz tivera dívidas. Assim, Summer reaparece, para tentar obter provas suficientes para prendê-lo.

At First Blush é exatamente o tipo de episódio que evidencia a falta de qualidade de capítulos do tipo em temporadas anteriores. Com um roteiro que possui uma estrutura ligeiramente diferenciada dos demais, a série não perde sua identidade, aproveitando sua fórmula para fugir da mesmice. Aliás, é curioso que o episódio comece de forma diametralmente oposta ao comum, com o final de um caso, ainda que este sequer seja citado. Dessa forma, o roteiro atrai a atenção do espectador por não iniciar-se da mesma forma que 90% dos outros episódios da série.

O mais interessante é que a série parece, ainda que momentaneamente, relembrar as histórias que construiu em sua primeira temporada. Repare como o roteiro permite ao espectador saber de cada manipulação de Jane, ou de cada desconfiança do mesmo, evitando o tom de insuportável segredo que este vinha conferindo ao seu personagem nos últimos anos. É como se Heller tivesse reassistido à sua criação e percebido o quanto a mudança de abordagem fora prejudicial à série. Assim, Jane deixa de ser um personagem onipotente, dando ao público a oportunidade de participar da investigação, o que sempre é a proposta original de The Mentalist. Por isso, não é por acaso que boa parte das descobertas de Jane não precisem de flashbacks invasivos e mal situados para serem explicadas.

Aliás, as próprias motivações do protagonista são diferentes. Deixando de lado o caráter melancólico do início da temporada, talvez pela certeza de que Red John é ainda um perigo, Jane parece animado para resolver quebra-cabeças, que é exatamente o que o atrai no caso de Eve. Em At First Blush o personagem não recebe grande carinho do roteiro no que diz respeito à sua personalidade, mas é inteligente a forma que este encontra para justificar o interesse de Jane no caso.

Se Jane não é trabalhado profundamente, o mesmo não se pode dizer de Lisbon. Aliás, é interessante perceber como a série tem investido nas características de personagem, cada vez mais próxima de seu mais competente funcionário. Em outros tempos, seria impensável que ela aceitasse trabalhar em um caso que sequer era dela, mas ela também parece sentir a necessidade de ajudar Jane, como se desse um consolo para o amigo para a situação que vive. Isso é evidenciado no diálogo que Ardilles afirma que ela era o problema da CBI, e ela nitidamente dá a impressão de concordar com aquilo. Em outras palavras, Lisbon sabe que a atitude tomada não é correta, mas a faz mesmo assim, por estar envolvida demais com os problemas de Jane.

Por falar em Ardilles, a aparição do personagem em At First Blush é muito melhor que as anteriores, quando a série fazia questão de torna-lo um suspeito de trabalhar com Red John. Aqui, é interessante o antagonismo que ele estabelece com Jane, o que leva a ótimos diálogos entre os dois. Aliás, quando a história encontra seu fim, o roteiro procura mostrar que o personagem ficara feliz com o resultado, mais uma vez evidenciando o fato através de um diálogo com o protagonista. Seria muito bom se ele aparecesse mais vezes daqui pra frente, mas The Mentalist é péssima em lidar com esse tipo de personagem.

Em termos de personagens, é Cho quem finalmente ganha grande destaque. Embora a história de seu atropelamento seja abordada de forma repentina, a volta de Summer faz muito bem ao agente, que raramente tem a oportunidade de mostrar sua personalidade. Já comentei mais de uma vez os benefícios que a presença da ex-prostituta traz à série como um todo, já que é uma saída que Heller encontrou para explorar de forma mais profunda um de seus personagens mais interessantes. Tudo isso leva à cena dos dois dentro do elevador, marcada por um excelente diálogo, levando ao inevitável beijo entre os dois, ainda que a tentativa de alívio cômico, quando Summer estapeia Cho, não ouvindo que este dissera exatamente o que ela queria ouvir, pudesse ser facilmente descartada.

O mais interessante de At First Blush é justamente que o caso da semana não seja o único elemento de destaque. O que não é nenhum demérito a este, que é desenvolvido de forma muito eficiente, principalmente quando vai se aproximando do fim. O desfecho da investigação é conduzido de forma excelente, levando a uma brilhante manipulação de Jane, sem que a série tente desesperadamente surpreender o espectador. O único defeito fica por conta das motivações de Amy, que são fracas e artificiais. Aliás, The Mentalist precisa urgentemente trabalhar esse lado. Não adianta conduzir uma trama de forma competente e explica-la de qualquer jeito, como se isso não importasse.

Não há como negar a evolução de The Mentalist como série nesta quarta temporada. Construir episódios dessa forma só comprova essa tese, mostrando como hoje a série é capaz de criar histórias bem desenvolvidas, mesmo não avançando necessariamente na trama principal. Aliás, se antes esse tipo de episódio poderia facilmente ser chamado de filler, hoje esse termo é, no mínimo, equivocado.

@GabrielOliveira

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