É assim que The Mentalist deveria tratar seus fillers.

Spoilers Abaixo:

É inevitável que, em séries procedurais, a maior parte dos episódios de uma temporada não explore suas tramas principais. Isso decorre do fato de a premissa da série normalmente abordar um determinado tema, como um tipo de investigação policial, uma característica peculiar de um médico, etc. No entanto, existe uma imensa diferença entre rechear uma temporada com fillers intrigantes, que despertam o interesse do espectador, e repetir inúmeras vezes a mesma história, preocupando-se apenas em mudar alguns elementos. Durante a maior parte da terceira temporada, The Mentalist encaixava-se no segundo grupo, trazendo episódio mornos e extremamente repetitivos, exceto quando abordava seu arco principal. Mas, Ring Around the Rosie mostra que os roteiristas da série ainda tem criatividade para desenvolver episódios interessantes.

O episódio começa com a equipe da CBI fazendo a segurança de uma marcha de protesto, com a participação do prefeito da cidade. Lá, Scott Gibson é assassinado com múltiplas facadas. Jane então desconfia que isso foi feito apenas para distrair a atenção da segurança, a fim de deixar o prefeito indefeso. Assim, a equipe prende Henry Tibbs, que possuía uma arma, além de exibir um comportamento suspeito. Apesar disso, prova-se que Tibbs não possui relação com o homicídio. Mesmo assim, Jane e seu novo chefe, Luther Wainright, desconfiam que o comportamento do rapaz é semelhante a de um psicopata à beira de um ataque psicótico.

Uma das características mais interessantes em Ring Around the Rosie é o fato de o episódio abordar diferentes situações dentro do mesmo roteiro. Apesar de isso não ser um recurso inovador, The Mentalist o utiliza muito raramente, normalmente preferindo focar-se apenas na investigação de seu caso da semana, exceto pelos episódios que abordam a trama de Red John. Aqui, aliás, o roteiro foca-se principalmente na trama de Henry Tibbs (interpretado por Christian Camargo, mais conhecido por ser o irmão de Dexter Morgan, em Dexter), mas trata também da investigação do assassinato de Scott Gibson, que na realidade é o que ocasiona a suspeita de Jane sobre Tibbs. Ou seja, enquanto antigamente os roteiristas raramente procuravam incluir personagens interessantes, limitando-se apenas a explorar as habilidades de seu protagonista, sem que ele tivesse qualquer dificuldade em resolver casos, Ring Around the Rosie traz duas investigações paralelas, sendo que a primeira que surge é na verdade apenas um pretexto para a segunda, mais psicológica e intrigante.

Assim, o desenvolvimento da investigação sobre Henry Tibbs toma ares de uma guerra silenciosa entre um inteligente consultor e um psicopata ainda enrustido. Diferente de Pretty Red Balloons, aqui temos um rival à altura de Jane, mesmo que o próprio rapaz ainda não saiba tão bem disso, deixando-se enganar em diversas oportunidades, como quando Jane procura ser amigo dele, imitando um convincente sotaque texano, fingindo seu interesse por armas de fogo. Dessa forma, o roteiro consegue convencer o espectador que existem maneiras de criar episódios que não sigam a fórmula de uma investigação sobre uma assassinato comum, sem assim deixar de explorar seu protagonista. Aliás, o que se observa é justamente o contrário. Em situações como essa, as habilidades de Jane parecem muito mais úteis e interessantes, tornando todo o episódio mais agradável aos olhos. O desfecho do caso é mais uma prova disso. Enquanto a série parecia perdida sempre que procurava encerrar seus episódios, encontrando soluções óbvias e repentinas, aqui o que vemos é uma boa manipulação feita por Jane, que embora não seja exatamente imprevisível, mostra a vantagem que o consultor tivera sobre o rival desde o início da história. Além disso, nos últimos momentos, é notável a semelhança entre os dois, principalmente quando Jane desabafa com o rival ao dizer os arrependimentos sofridos por quem mata uma pessoa.

Mas, apesar de toda a investigação funcionar como um todo, algumas características desta trazem alguns velhos vícios da série. Por exemplo, a forma como Jane desconfia de Tibbs mostra-se convincente em um primeiro momento, mas quando prova-se que o assassinato de Gibson não possui relação alguma com o psicopata, e mesmo assim Jane está correto, parece uma coincidência muito grande, daquelas que parecem forçadas pelos roteiristas para que os acontecimentos ocorram como planejado. Além disso, o protagonista da série parece cada vez mais transformar-se em um super-herói, não errando em um momento sequer do episódio. Talvez fosse mais interessante se a batalha entre os dois tivesse um pouco mais de vantagem da parte de Tibbs, de maneira a tornar a situação menos fácil para o consultor.

Mas o grande acerto de Ring Around the Rosie é a inclusão de Luther Wainright como novo chefe da CBI. A dinâmica do personagem com Jane, nesse primeiro momento, gera ótimos momentos para o episódio. Ao contrário de Hightower, Minelli, e mesmo LaRoche, Wainright aproxima-se mais do protagonista da série, estabelecendo diálogos que vão além de discussões sobre as investigações ou repreensões por atitudes antiéticas de Jane. Por isso, o novo chefe deverá estar muito mais presente nas investigações do que os anteriores. Além disso, suas habilidades de percepção são também impressionantes, principalmente por ele ser um estudioso de criminologia (o episódio faz questão de deixar isso claro), o que o leva a observar Jane com extrema cautela (não tenho dúvidas de que logo surgirão teorias de que ele está ligado a Red John).

Ainda em relação aos personagens, é gratificante que finalmente os coadjuvantes da série tenham um maior destaque, ainda que jamais cheguem perto de Jane. Van Pelt, por exemplo, continua exibindo um comportamento impulsivo, mas agora consegue falar sobre seu ex-noivo de maneira mais aberta. A mudança de atitude da policial traz um bem muito grande para a série, que carece de personagens desse tipo. Cho, por sua vez, continua servindo de alívio cômico para a série, e volta a fazer isso de maneira eficaz. Já Lisbon tem um papel muito mais emocional que prático, ao tentar recuperar a vida de Willie Shubert. Fica claro que a personagem parece decepcionada com os rumos que as coisas tomam desde os acontecimentos de Strawberries and Cream. A evolução dessa amargura tem sido evocada de maneira pontual, mas muito competente. Aliás, é interessante perceber como aquele episódio muda os rumos de muitos personagens da série, mostrando que foi também muito feliz em estabelecer direções para essa temporada.

Por isso, Ring Around the Rosie apaga a má impressão deixada pelo episódio anterior, exibindo uma história intrigante, ao mesmo tempo em que trabalha para algumas mudanças de direções para o restante da temporada. Esse é, sem dúvidas, um filler trabalhado de maneira incrivelmente eficaz.

@GabrielOliveira

Artigo anteriorHomeland – 1×02: Grace
Próximo artigoCastle – 4×04: Kick the Ballistics