“Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido.”

O Ovo e a Galinha – Clarice Lispector

Nesse conto, Clarice escreve sobre a inexistência do presente, uma vez que viver algo já se torna ter vivido aquilo. Pensando dessa forma, talvez só exista o passado e o  futuro, pois o suposto presente é uma eterna progressão — ou não se existe o futuro, uma vez que viver é estar o tempo todo na progressão do agora. Há apenas esse movimento contínuo, no qual se alteram as pessoas, as ações, mas o tempo se conserva, assim como o universo se conserva. Em outra frase, Clarice, ainda na ideia do ovo, diz que somente as máquinas podem vê-lo. Interpreto como a permanência que somente os objetos podem demonstrar. Somos transeuntes dos espaços e, quando lhes deixamos, o espaço fica. Quem diz que o importante é o agora pode não compreender, mas a verdade do fato é que temos a certeza do agora, enquanto que o futuro nunca chega, sendo apenas um agora diferente, em outros contextos.

A interpretação é, claro, de total responsabilidade minha. O que eu fiz aqui talvez fosse até contra os princípios de Clarice, que escrevia pela necessidade de escrever, não preocupada com significado e entendimento. Destaco esse conto, principalmente esse trecho, porque sempre que encontro uma série ou filme que faça referências ao tempo e espaço como essa fez, lembro-me dessas frases e da autora. Por mais que Ashley Pharoah, criador e escritor de muitos episódios, não tivesse ciência, seu diálogo sobre a inexistência do presente e a convivência direta que temos com o futuro está ali para ser discutido. Como eu já previra, então, e a partir do meu entendimento pessoal do roteiro e da resolução de alguns conflitos, os camponeses da série, na verdade, são os mortos do título. Assim como eu também já esperava, a moça do presente é parente de Nathan. Mesmo com essas previsões, entretanto, fiquei positivamente surpreendido com o desdobrar da série e, ao fim do episódio, só conseguia comemorar e enaltecer o poder de um texto bem escrito e dedicado.

Como uma memória puxa outra, eu me lembro de H. G. Wells e da forma como dizia ser possível viagens no tempo, uma vez que o pensamento de tal momento passado já nos leva ao ocorrido. Fico com essa impressão e com a percepção de que as personagens na série, na verdade, estão transitando entre a realidade de diversos tempos através de alguma fenda aberta pelo espírito de Gabriel que, não tendo mais mãe e obrigado a vagar através dos anos, resolveu utilizar de mulheres ainda vivas para persuadir o pai a acompanhá-lo, selando assim a possibilidade de diálogo entre as gerações. Essas interações funcionam muito bem na ficção quando bem aplicadas, e creio que aqui foi o caso.

Gabriel, aparecendo em toda a minissérie, mas firmando sua presença somente aqui, foi um ótimo adicional ao roteiro. O fantasma, por mais que macabro, ainda é criança e isso o impossibilita de entender e lidar com os fatos da forma como nós lidaríamos. Ele traz o pior tipo de crueldade existente: aquela que é compreensível. Afinal, é perceptível a dor e a solidão de quem, após um acidente, é condenado a vagar sem proteção alguma. É nesse contexto que as tramas envolvendo o suicídio ganham força. Gabriel dando a entender que Charlotte poderia cometer o ato da mesma forma que seu marido e se entregar à eternidade junto com o seu bebê foi uma das coisas mais tenebrosas que eu vi do gênero horror na tevê esse ano. Talvez o terror da situação esteja na poesia e na beleza da questão. Além disso, pelo que entendi, o garoto é responsável por diversos suicídios, como deve ter sido pelo da mãe de Lara.

Meu único incômodo foi com a falta de sanidade de Nathan no começo e durante o episódio. Claro que a situação inevitavelmente o levaria a isso, mas, provavelmente por conta do número de episódios, não foi nada crível a rapidez com a qual vimos isso acontecer. A série não se passa dia após dia, eu sei, mas uma deterioração da sanidade do protagonista aos poucos teria funcionado melhor. Uma vez que esse defeito é deixado de lado e aceitamos o doutor como foi apresentado no episódio, entretanto, ficamos realmente com receio de que algo aconteça. Os encontros entre ele e a parenta do presente, quando ele tão violento lhe era ameaça foram momentos de tensão bem criados.

Nos primeiros minutos, eu imaginei que fôssemos assistir a absolutamente tudo na perspectiva do presente, recontando toda a história da minissérie na visão de Lara, mas isso não aconteceu, e essa decisão foi boa. Outra característica reafirmada nesse sexto seguimento é o quão ciente do próprio texto a produção é. O enredo, misterioso, nunca deixa escapar informações cruciais e que responderiam de vez grande parte das nossas dúvidas.

Passeando pela internet, li diversas teorias. Algum americano comentou que, na verdade, todos os camponeses são fantasmas e o carro foi desenterrado no presente, e não no passado. Não concordo muito com isso, talvez por apego à minha teoria, mas achei interessante trazer e aconselhar que busquemos explicações além das nossas, pois isso sempre enriquece a experiência.

Resta dizer que gostei de Charlotte, de como sua importância e inteligência foi demonstrada a partir de grandes e pequenos gestos. A personagem, vítima de sua época, de seu marido e dos sentimentos nobres que possui, nunca desistiu. Vou sentir sua falta, confesso. Charlotte Spencer tem mérito nisso e me prontifiquei a acompanhar a carreira da atriz depois disso. Não dá para dizer que a afirmação do final se referia a ela, mas, caso seja, é triste e real ver mais uma melhor vítima da própria insistência e do desejo de regeneração do próximo. Eu, que sempre fico de olho nos créditos, percebi há muito a presença feminina forte na concepção da minissérie. Nada disso é em vão, e há temas presentes que deixamos passar na empolgação, mas que não estão ali por acaso.

Decidi por comentar e refletir sobre os temas e desdobramentos do episódio, então deixei de lado os aspectos técnicos. A fotografia, ambientação, trilha sonora e figurino são excelentes, é claro. A produção da série é digna de nota. Fica outra para que percebam que diversas cenas brincam com o reflexo das paisagens e pessoas, demonstrando a dualidade de pertencer a dois tempos e universos.

Não consegui achar nenhuma fonte sólida confirmando o retorno da série, pelo menos por enquanto, mas talvez seja cedo demais para qualquer pronunciamento. De qualquer forma, fica a recomendação para essa primeira safra de episódios, bem estruturada, bem conduzida e satisfatoriamente encerrada. A originalidade e força das questões levantadas na série estão na originalidade com as quais são combinadas e nos recursos narrativos de horror que são adereços durante todo o caminho. Esqueça a homenagem pela homenagem e a celebração pela celebração, The Living and the Dead faz tudo isso, mas consegue ser original o bastante.

ps: Obrigado a todos que acompanharam, leram, compartilharam e comentaram os textos da minissérie. É sempre um prazer terminar uma temporada aqui no SM. Caso a produção volte ano que vem, espero vocês! Não esqueçam de compartilhem suas teorias e impressão geral da série conosco. Com esse texto enorme, o restante da conversa fica nos comentários…

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.