A maternidade é uma parada complicada. Em diversos aspectos existe muita expectativa sobre uma ideia concebida sobre o que é ser mãe e suas pautas. The Handmaid’s sempre tentou estabelecer a relação da maternidade e das mulheres que se tornavam mães sem haver a gestação e das mulheres que davam luz, mas não criavam as crianças que geriam.
Motherland traz mais uma reflexão acerca da maternidade e em como mulheres são forçadas a tomar decisões com base em seu papel social. Em como mulheres perdem sua autonomia, liberdade de decisão e poder de escolha, para satisfazer o que esperam dela, mas que está intrinsecamente ligado ao que se é. Serena e June fizeram inúmeras escolhas ao longo da série e nunca em nenhum momento ambas estiveram em papeis tão similares ao decidir sobre ir ou ficar.

Seguindo o ritmo que acompanhamos durante a temporada, o oitavo episódio mantém o bom nível e entrega diálogos importantes, encaminhando novos rumos para personagens que até então não havia saído da sua zona de conforto. Tanto Serena quanto Lawrence estão onde jamais haviam chegado. Ela, assume uma posição explícita de Aia e entende que é a única escolha a ser feita, se quiser ficar próxima do seu filho. Ele, após eliminar uma das suas principais ameaças em Gilead, consegue dar seguimento a seu principal plano e conta com o apelo maternal de June para fazer dar mais do que certo. Ambos estão em posições jamais atingidas, ele mais forte e poderoso do que nunca, sólido, mesmo que sem atingir o papel social que se espera dele, sobretudo em Gilead. Já Serena nunca havia experimentado o que é abrir mão da sua própria liberdade para proteger outra pessoa, para proteger alguém que tanto ama, para ter a esperança de conseguir sair dessa futuramente.
A situação da Serena é tão gozada que ela não percebe de imediato o quão irônico é tudo que está acontecendo com ela, e o quão fraca politicamente ela se encontra no momento. Os diálogos com as três visitas: Sra. Wheeler, Comandante Lawrence e June foram pequenas demonstrações da versão mais triste e pequena da Serena. Diferentemente do momento em que recebe a visita de Luke, do Mark ou quando encontra Lawrence em Gilead. Existe nesses últimos encontros um ar de superioridade e soberba, sobretudo com o Luke, a expressão corporal grita poder e Serena acredita que nada pode atingi-la.
Acontece que a série desenvolve muito bem o arco dos seus personagens e é possível ver com deleite a transformação e passagem da Serena pode tudo na Serena que pede permissão até mesmo para abrir uma porta.

Olhar cabisbaixo, mãos entrelaçadas, olhar de culpa, sentimento de raiva pulsando internamente, tudo isso é visto através da atuação magistral da Yvonne. O foco é no objetivo final, que é ver o filho, estar perto dele. Serena tem uma missão e não diz respeito somente a ela. Como havia mencionado lá em cima, a maternidade nos retira uma parte de nós, retira a nossa individualidade e aqui não faz distinção de quem ou de como. Apenas nos coloca em posição de subalternidade, sem que a escolha seja efetivamente uma escolha. Afinal, onde está o nosso instinto materno?
O questionamento de Lawrence atrelado com seu jogo para convencer June e Serena a fazerem o que ele quer, é de longe uma das melhores cenas. Ele se sente mais que à vontade na posição em que está e existe em seus discursos chantagens emocionais que terminam em beco sem saída para as duas. Apesar de tentar resolver o problema da Serena e oferecer a ela uma suposta “saída”, é com June que a conversa sobe o tom e se torna mais honesta. O plano da Nova Belém é uma tentativa de consertar o erro que Gilead se tornou. Uma sociedade extremamente religiosa, conservadora, patriarcal e hipócrita, que utilizou da violência para impedir o dito fim do mundo.
Lawrence sabe e reconhece o seu erro, reconhece e entende, contudo, que os fins justificam os meios e apesar de se arrepender da maneira como tudo foi conduzido, no fundo se orgulha de ter impedido a extinção da humanidade. Apesar disso, o reconhecimento de que Gilead perdeu o controle, foi a motivação para que a Nova Belém existisse e agora com a morte de Putnam ele tem total autonomia, ou melhor, consegue atingir um plano de autonomia a frente dos seus possíveis opositores e consegue fazer frente a seus aliados.

Apesar de conseguir controlar Serena, com June as coisas não funcionam de forma tão simples. Mesmo manipulando-a e apelando para a maternidade, dessa vez Lawrence não consegue tão facilmente fazer com que June imediatamente aceite retornar a Gilead e viver na Nova Belém. Existe um certo personagem que vem se mostrando muito importante nessa temporada e o Comandante não contava com o lado racional de Luke sendo decisivo para segurar uma mãe doida para rever sua filha e protege-la a qualquer custo.
Luke é o ponto de equilíbrio. Não que seja a personificação da racionalidade, mas ele entende que permitir que June retorne é perde-la de uma vez por todas, mesmo que isso signifique que mãe e filha se reencontrem. Ele não confia no Lawrence e por mais que June o veja como um amigo, sabemos que de fato Lawrence não é tão confiável quanto gostaria. Se não houvesse qualquer alternativa, seria difícil impedir a June de retornar, mas a ajuda do governo pode segurar um pouco as pontas e evitar qualquer tragédia seja da Nova Belém, seja de Gilead propriamente dita.
A cota de esperança foi atingida nesse episódio e se estamos acostumados/as a ver sempre tragédia, ao menos podemos dizer que restou uma gotinha de esperança nas cenas finais. A ligação de Mark Tuello deu acalento em June e Luke. Por aqui a gente só espera que não tenha sido falsas esperanças, mesmo já presumindo que sim. De toda sorte, o sentimento que fica é de alegria, ver June sorrindo e pulando de felicidade é um alívio, nunca antes havia uma alegria tão pura nela, nem a morte de Fred trouxe isso. A maternidade realmente é uma parada complicada.
Blessed be the fruit 1:. Lawrence convidando a June para ir ao que parece ser o Paraíso. Cilada, bino!!!!
Blessed be the fruit 2: June sendo humana, coisa que a Serena nunca foi. Rainha faz assim.
Blessed be the fruit 3: Luke cometendo o erro que todos os homens cometem, tornando a discussão sobre ele. É vivendo, acertando e errando, meu querido.
Blessed be the fruit 4: Lembrando que Hannah não é a mesma Hannah Banana, em? Capaz de odiar June e pedir para ser esposa a qualquer custo em Gilead.
Apenas mais dois episódios. O que o futuro guarda para The Handmaid’s Tale? Saberemos em muito breve. Grande beijo e até semana que vem!






















