O episódio mais constrangedor da história de The Good Wife.
Uma das coisas que sempre pode ser elogiada dentro da dramaturgia de The Good Wife é sua elegância textual. Há uma forma cristalina com a qual os roteiristas e a direção levam o show. As cenas são limpas, muito bem editadas, o texto não cai na tentação de superdramatizar as situações e cada uma das viradas mais intensas é fruto de uma tensão acompanhada e naturalizada. A “paleta textual” da série nunca, nunca mesmo, cometeu o erro de ser gratuita ou cafona… E nesse infeliz Target, foi os dois.
Vou explicar melhor porque uso palavras como “infeliz” (isso faz parecer que estou julgando o show sem discernimento): Em qualquer outra série um episódio como esse poderia ser completamente perdoável. De fato, é claro que ele não arranhará nosso amor ou nosso respeito. Porém, quando colocamos em perspectiva o tempo de vida do programa e a forma como ele – mesmo nos piores momentos – conseguia manter sua austeridade, fica mais difícil passar por esses erros sem levá-los em consideração.
Eu também ando sendo repetitivo… Venho reclamando das recorrências não é de hoje e infelizmente preciso continuar batendo nessa tecla porque ela me ajuda a expressar a gravidade do que vem sendo feito no show. Mesmo nos períodos em que a trama se afundava no eterno triângulo amoroso entre Alicia, Will e Peter, ela não deslizava na abordagem com coadjuvantes e casos. Era como se as travas necessárias do núcleo principal fossem compensadas com uma criatividade notável em tudo que ficava na órbita dele.
Bom, isso até agora… Espero que Targets seja apenas um engano involuntário. Estávamos lá vendo a firma reprisando seus joguinhos de poder e vendo Alícia querendo advogar em torno de uma decisão sobre terrorismo. Isso foi interessante, já que toda discussão sobre punir alguém por crimes cometidos indiretamente é muito contemporânea. O contemporâneo, entretanto, volta a esbarrar no corriqueiro, quando a NSA volta ao programa para servir como álibi de Alicia: ela não poderia ter vazado nada, porque eles a ouviam o tempo todo e sabem disso.
A NSA é um dos detalhes da carpintaria do texto que sempre pareceu poder nos levar para mudanças e reviravoltas. Esse plot, porém, cumpre bem seu papel de voyer e se mantém distanciado. Se já estamos cansados de “sai de firma, entra em firma” no núcleo central, também já estamos começando a encher o saco desse clima de suspense acerca de fraudes que se acumulam e nunca explodem. Vamos lá, Kings… Se existe um momento para explodir é agora.
A complicação maior está em Jason e Elsbeth. Ela, sempre infalível em qualquer episódio em que aparecesse, caiu na malha da apatia e viveu momentos constrangedoras. Além do texto pouco inspirado, o caso era entediante e nem a inesperada presença de um ex-marido ajudou. Aliás, piorou. A cena entre ela e o marido foi no epicentro da caricatura e fez corinho com o desenrolar de Jason e Alicia, que atravessaram os limites da vergonha alheia.
Primeiro foi Alicia convertendo sexo em alcoolismo. Sabemos que foi tudo uma “brincadeira provocativa”, mas é pergunta é: WHY?? Que raio de jogo da sedução é esse? Quase infantil, cheio de cafonice e que sabemos que não representará NADA para o show. Na cena deles no dia seguinte, aquele papo rasteiro de “eu te quero de novo, você não quer?” e só faltou um pirulito na boca de Alicia para combinar com o olhar de lascívia barata. Não adianta, o romance é forçado, capenga e previamente condenado. Alícia se envolveu com outros “trabalhadores” e Jason é só mais um. Vocês podem pensar também que é um moralismo babaca questionar a personagem apenas porque ela agora transou, mas não é isso. Adoro Alicia amoral, safadinha e transgressora. E também não acho que o sexo ou a insinuação do sexo tenham que ser elegantes, só acho que o contexto de The Good Wife é linear desde o começo e não cede ao chavão. Claro que o chavão está na vida, mas bons textos sempre sabem como contá-los de modo especial. Aquilo foi vazio, artificial e pobre.
A bagunça do episódio estava armada. Jason e Alícia trocando diálogos velados de forma superficial, o caso avaliado por Alicia era ruim, o de Elsbeth mais ainda e em nenhum momento eu sorri ou me diverti. Só fiquei ali, de camarote, vendo uma série agonizando relevância e derrapando com o respeito. Me desculpem se aborreci vocês, mas eu fui educado para coisas melhores dentro do show. Eu não acho que merecemos um casal insípido, casos horríveis, uma coadjuvante sendo mal aproveitada e péssimas expectativas para o pouco futuro que resta.
Sim, foi constrangedor e não me arrependo de ter admitido… Eram os Kings quem deveriam se constranger. Eles é que deviam se desculpar.






















