Séries médicas precisam de mais do que meros casos interessantes na semana para prenderem a atenção dos seus telespectadores. É comum vermos roteiros com grandes pitadas de dramas de novela para desenvolver a vida daqueles personagens que ficam quase o dia inteiro dentro do hospital.
Assim como toda novela é essencial termos uma figura antagônica que sirva a vilania necessária para termos raiva, nervoso e torcermos pelos “mocinhos” mesmo que eles não tenham muito carisma. Existe também a possibilidade de termos vilões inteligentes, com diversas camadas e que inclusive poderiam ter um spin off de como chegaram até ali, demonstrando que a vilania muitas vezes é uma questão de percepção.
The Good Doctor nunca conseguiu trazer o segundo tipo de vilão e Salen demonstrou desde o início ser apenas uma figura em grande parte caricata com algumas pitadas de originalidade, responsável por tentar dar um gás para a série depois de perder a personagem com o maior carisma que possuía e estava praticamente carregando a qualidade dos episódios. O roteiro andou em círculos, foi enfadonho, mas com todo seu drama novelesco tinha a promessa do momento em que os “mocinhos” enfrentariam a grande vilã, criando a expectativa de que havia algo que valia a pena por vir.
E finalmente chegou o episódio. Cheat Day era a prova se os roteiristas sabem para onde estão caminhando ou apenas estão com preguiça de escrever, e a resposta, infelizmente, foi completamente negativa. Cheat Day foi um dos piores episódios já entregues por David Shore e mostra que o roteirista só soube nos últimos tempos criar choques desnecessários ou dramas sem graça.

Salen se tornou uma figura completamente difícil de ser combatida, uma imagem de inteligência e completamente inescrupulosa. Episódio por episódio vendeu-se a ideia de que a Ethicure era o inferno e Salen quase o diabo, não se importando nem sequer com a morte de um bebê e enxergando a vida na forma de cifrões.
Com uma rebelião sendo formada por Lim e Glassman, a série tinha a faca e o queijo na mão. Existindo personagens com personalidades completamente distintas, era interessante vermos Andrews e Morgan não participando do movimento por terem outras prioridades. Além disso, havia uma visão interessante por parte de Jordan sendo uma mulher preta que lutou muito para chegar aonde chegou.
A demissão de Lim, Lea e Glassman foi uma ótima ideia, mostrando que Salen sempre estava um passo a frente e que não seria fácil derrubá-la. Imaginar eles se rebelando na frente dos investidores e Shaun sendo o rosto do hospital nessa luta era um plano muito inteligente e que renderia uma boa batalha. Tudo estava pronto para ter um clímax até mesmo superior ao esperado, porém na realidade foi pior do que as expectativas que para muitos já estavam baixas.
Andrews convencer Salen a desistir de tudo simplesmente porque caso contrário ela o destruiria foi de uma patacoada sem tamanho. E como diz Isabela Boscov, se pelo menos fosse uma patacoada interessante, mas apenas deu vergonha de assistir. Os roteiristas durante toda a temporada desenvolveram uma persona demoníaca e inescrupulosa ao redor de Salen para definir seu fim por causa de uma possível paixão com um homem. É tão ofensivo e sem sentido que deveria existir uma rebelião na porta dos roteiristas.

Dez episódios da temporada foram jogados no lixo e solucionados nos últimos dez minutos com uma motivação tosca e que contradiz todo o desenvolvimento que foi feito. O romance de Salen e Andrews mal tinha começado e não era o depoimento dele que faria a diferença do século.
Salen tinha milhares de problemas, mas ninguém no hospital tem teto de vidro e seria interessante ver todos se atacando e lidando com as consequências de diversas ações irresponsáveis. Inclusive Park deveria ser responsabilizado pelo dia que quase custou a vida de um paciente por querer se sentir bem com a promessa indevida que fez, não tendo qualquer moral para julgar Morgan.
A verdade é que as mulheres dessa série são julgadas de forma diferente e Salen foi apenas uma vilã que caiu por um drama estúpido com um homem medíocre, cuja movimentação final só aconteceu porque Lim mostrou sua hipocrisia.
Com a falta de verba para sustentar o hospital eles ainda terão que lutar muito para conseguir manter seus empregos, outra questão romantizada e que ignora a realidade e os problemas do que é ser manchado na sua área, tendo que lidar com o desemprego e o escárnio midiático. A série terá que se reinventar e provavelmente se reinventar de novo para extrair um pouco de qualidade depois de desperdiçar metade da temporada.
Por enquanto fica o desgosto e a revolta de ver o que a série se tornou.






















