Lidar com princípios e limites sociais ou profissionais sempre é uma das situações mais difíceis a achar solução. Com a chegada de Salen ficou claro que os embates relacionados a questões humanas e monetárias serão a base da temporada.
É interessante escutar o discurso de Salen para Lim e perceber que, pensando apenas racionalmente, o que foi dito por ela não somente tem sentido como seria o melhor em longo prazo. Voltando a meados de 1967, Philippa Foot, filósofa britânica e uma das fundadoras da ética da virtude contemporânea, criou o dilema do bonde/comboio em que um bonde está fora de controle e em seu caminho tem cinco pessoas amarradas na pista, entretanto existe a possibilidade de apertar um botão e alterar o percurso; não obstante, nesse novo caminho existe uma pessoa amarrada. Fica o questionamento, deve-se apertar o botão?
Esse dilema pode ser adaptado para diversos problemas cotidianos em que uma pessoa se encontra diante de duas decisões com prejuízos em ambas. Pessoas utilitaristas respondem de prontidão que a melhor atitude seria apertar o botão, afinal deve-se pensar na promoção do melhor para o coletivo e, diante desse dilema, é melhor ter uma tragédia do que cinco. Em contrapartida, pessoas não utilitaristas podem argumentar que nenhuma vida é mais importante que a outra, inclusive destinando características específicas e criando hipóteses como, e se aquela pessoa que morrerá após apertar o botão é alguém da sua família? Além disso, maximizando o dilema, questiona-se caso fossem 300 pessoas de um lado e 60 do outro; ainda seria melhor apertar o botão? Até que ponto a minoria deve ser sacrificada pelo simples fato de pensar a promoção do coletivo por uma visão limitada e quantitativa.
97% das pessoas que foram questionadas sobre o dilema do bonde responderam que apertariam o botão, entretanto é provável que a maioria dos telespectadores de The Good Doctor não gostem e não concordem com a Salen. A série está conseguindo apresentar esse dilema e a hipocrisia humana de uma forma muito inteligente, dando momentos de alegria como a permissão de Shaun utilizar os antigos materiais e quebrando a promessa de mundo feliz com o outdoor aparecendo no final.
Ver o problema pelo ponto de vista de Salen coloca Bob como apenas uma triste tragédia necessária para que o hospital tenha capacidade posterior de curar outros vários Bob. Em contrapartida, pela visão de Lim e outros médicos, é um absurdo não ajudar o paciente quando se tem os meios para fazê-lo, afinal, ele é tão importante quanto qualquer outra pessoa que venha a surgir.
Não existe um lado correto, embora seja fácil tomar um lado e não exista problema nisso. O ser humano é confuso, diverso, hipócrita e vive em constante conflito sobre sua racionalidade e suas emoções. É difícil saber qual era a melhor decisão até se ver a consequência do que foi escolhido.
Na perspectiva de Salen, totalmente racional e objetiva, suas atitudes são justificadas por um futuro planejado, a máxima que os fins justificam os meios. A questão é se todos os limites humanos passados por cima ao longo da jornada realmente são justificados pelo que poderá vir a melhorar. E mais do que isso, se a melhora almejada será boa para todos ou será como nos sabões, toalhas e novas roupas, um problema para alguns; questionando, por fim, se teremos outro dilema da minoria sendo prejudicada pelo coletivo.

Com certeza o outdoor trará grandes problemas e a guerra no hospital está só iniciando. É interessante ver como cada personagem lida com essa situação de uma forma diferente e se torna um estudo antropológico refletir sobre qual seria sua postura diante desse cenário.
Saindo do campo profissional, os dilemas surgidos em relacionamentos amorosos vão desde a escolha em ter filhos até a liberdade de soltar gases perto da outra pessoa. Por mais bobo que pareça a discussão a primeiro momento, essas dúvidas sempre servem de analogia para problemas mais sérios e acabam sendo microdilemas saudáveis para compreender o desenvolvimento do relacionamento.
A fala de Lim para Morgan faz com que muitos vistam a carapuça, afinal é comum tentar manter uma imagem idealizada com medo da outra pessoa ir embora caso conheça seu verdadeiro eu. Por outro lado, a idealização se torna uma prisão com o tempo e compreende-se que o melhor é achar alguém que te ame de todas as formas, principalmente na vulnerabilidade, até porque é mais comum estar lidando com vários problemas da vida do que na fantasia de que tudo é perfeito como nos filmes.
Assim, foi muito feliz ver que Morgan e Lea optaram por serem sinceras e lidar com o problema, recebendo uma resposta positiva que as tirou de dias de ansiedade, medo e procrastinação. Inclusive foi engraçado ver que Park encontrava-se no mesmo dilema, mas havia escondido melhor sua preocupação.
A contraposição do final feliz com a exibição do outdoor leva a pensar que essa temporada terá vários momentos similares, sendo difícil não imaginar que algo tenso acontecerá no casamento do Shaun e Lea. Muitas variáveis estão em jogo e pode ser que a mãe do Shaun apareça de alguma forma, Glassman surte como no jantar ou outro problema surja.
Na montanha russa da vida os personagens chegaram ao ponto mais alto, porém a pergunta é o que vem pela frente e quantos loopings essa montanha tem.






















