Finalmente saindo do foco do hospital e dando uma atenção ao desenvolvimento dos personagens, The Good Doctor retomou um pouco seu fôlego, mesmo sendo necessário fazer muito mais.
Tratando melhor o luto do Shaun e da Lea, ver como o plano deles foi dando errado todas as vezes que parecia que iria dar certo ressoou como uma metáfora para o lugar emocional que se encontravam. Pensaram em abortar, desistiram. Exames vieram positivos, Lea sente uma dor inesperada na frente do hospital. Tudo parece que dará certo, ela perde o bebê. Essa montanha russa foi muito bem representada por eles não conseguirem entrar no parque, o ônibus tampar a vista para o lago e a goteira na barraca.
Até mesmo o momento em que Lea dorme no carro enquanto Shaun permanece na barraca relembra como eles são tão diferentes em suas reações emocionais e como precisavam de um momento a sós. Todavia, ao chegar nesse ponto, só existiam dois caminhos, permanecerem juntos se apoiando ou irem para lados opostos.
Claro que como tudo na relação deles, algo desastrado e perigoso aconteceria. Foi divertido ver os dois invertendo as posições e tendo que lidar muito rápido com uma situação fora do controle. Perder o controle sobre o que está acontecendo é desesperador, principalmente se o seu trabalho é salvar vidas ou se você sente que era sua obrigação ser um porto seguro, a proteção. Lea e Shaun precisavam aceitar que está tudo bem perder o controle, ser vulnerável com o outro e compreender que mesmo quando tudo dá errado, eles são capazes de ganhar força um com o outro. Aqui eu fico feliz de novo com o roteiro.

E seguindo os acertos do episódio, como foi necessária a conversa de Claire com seu pai. Toda a trama do pai que abandonou, mas pede desculpa anos depois quando está para morrer é extremamente batida e não tem motivos para ser jogada em cima da Claire que sofreu mais que todos juntos, porém, uma vez que essa história surgiu, era preciso que fosse desenvolvida.
Todas as nuances da relação e a mistura de sentimentos da personagem foram muito acertadas, afinal é possível sentir ao mesmo tempo sensações boas e ruins sobre uma pessoa. Embora ela quisesse ter um pai, era impossível esquecer todo o sofrimento que ele a causou e ela nunca poderia aceitar essa fuga de responsabilidade em que ele apenas redirecionava à ex esposa morta.
Foi bonito ver que Claire não o perdoou por ser a atitude mais nobre, mas por compreender que ela precisava daquela relação, ela precisava retirar esse peso das costas e ela achava que ele merecia uma segunda chance. Não existia obrigatoriedade de ela perdoá-lo e se não tivesse acontecido estaria tudo bem, mas como esse caminho era o melhor para ela, foi lindo de assistir.

Em contrapartida, o desfecho de Glassman e Debbie caiu novamente no erro dessa temporada. Pressa e falta de desenvolvimento para encerrar uma trama. Debbie estava sumida há muito tempo e em nenhum momento tivemos alguma pista de que o relacionamento dos dois estava ruim. Considerando que apenas os vimos brigar na pandemia e a série deu um salto no tempo, não tinha como saber se essa rixa havia melhorado ou piorado.
Retomando o debate sobre o porte de armas, deu para perceber com um tempo que o roteiro não queria focar sobre qual lado era correto, mas sobre como aquele embate específico representava algo muito maior no relacionamento. A falta de confiança e obsessão de controle do Glassman afetava Debbie. Da mesma forma, o pensamento macro da personagem espelhado na necessidade de ter uma arma em casa, o afetava.
Considerando que essa era a primeira vez desde muito tempo que o víamos, inclusive trazendo uma cena inesperada de Glassman pedir conselhos a Lim, aparentava que veríamos mais como o casal conseguiria achar um meio termo e continuar juntos, ainda mais em um período que pensamentos divergentes estão destruindo mais relações e tivemos uma “lição” dessa com Claire e Asher.
Todavia, com a mesma velocidade que retomaram o casal, o encerraram. Ainda que a atriz possivelmente tenha saído para participar de uma série da Disney, a forma como terminaram sua participação não fez jus a personagem. Embora Debbie e Glassman tivessem várias divergências, fomos apresentados mais momentos positivos do que negativos, não fazendo sentido a personagem afirmar o contrário e dizer que o amava, mas não o suficiente.
A série nos mostrou ela feliz fazendo pão na pandemia, sumiu com ela por vários episódios e encerrou seu arco de forma rápida e rasa. Se a poucos episódios o roteiro quis mostrar como é possível manter uma relação mesmo com uma divergência de opinião grande, a incoerência ficou pintada nessa saída.
The Good Doctor mais uma vez perde uma personagem de uma forma tosca, criando a motivação no mesmo episódio em que termina seu arco. Único lado positivo é que a série esquece tanto seus personagens no churrasco que já estávamos acostumados a não ver a Debbie.
P.S.: Não falarei sobre Morgan e Park, porque estamos ainda no estágio 3 do “agora que ele não quer eu quero”.
















