É praticamente impossível assistir uma série sem ter algum momento clichê na narrativa. Muitas pessoas que pagam de cultas e se sentem superiores repudiam o clichê como se fosse algo necessariamente ruim e que não possui seu espaço, porém o mero fato de uma trama ser extremamente repetida em obras televisivas já mostra que algo de bom existe nela para ser tão replicada.

Não é necessário que os roteiristas sempre nos surpreendam e inventem coisas mirabolantes. Pelo contrário, variadas vezes séries e filmes se perderam, porque o roteiro deu um passo mais largo do que deveria e como dizemos “viajou demais”. Ter um momento previsível, uma trama típica também faz parte de uma boa história e consegue atingir até aqueles que juram não gostar do casal clichê, da história de superação batida, o que seja.

Todavia, quando a obra se debruça sobre essa repetição cinematográfica, perde-se algo muito importante, a sua identidade. Por mais que existam similaridades entre séries e filmes, para ter sucesso com o público e para fazê-los se importarem com os personagens, é necessário que exista algo singular, algo próprio daquele ambiente, senão o sentimento é de apenas mais uma obra previsível, uma colagem de outras coisas que já assistimos e se perdem nas nossas memórias, porque são meras réplicas com uma nova roupagem e um novo nome.

The Good Doctor teve desde o início algumas singularidades, porém seu roteiro genérico foi aumentando cada vez mais chegando ao ponto que esse episódio poderia ter sido escrito por qualquer série médica ou teen. Ter um protagonista autista, tema ainda pouco abordado pelas séries, não permite que o resto dos personagens tenham tramas medíocres.

Começando por Claire, é engraçado como David Shore escolheu a personagem para passar por tudo que não cabia a Shaun, a obrigando a passar pela mãe alcoólatra e sua morte, o namoro “proibido” e sua morte, entre outras histórias que já sabemos o início, meio e fim. Embora essa necessidade de escolher sempre a mesma personagem para ter destaque tenha possibilitado que Claire tivesse momentos incríveis, como a ajuda que ofereceu a Lim, rapidamente voltamos ao clichê do pai que abandonou e decide pedir desculpas quando está para morrer.

Sendo algo extremamente batido, foi difícil sentir alguma emoção vendo o embate da personagem quando era claro que ela recusaria escutá-lo, mas após alguém usar o mesmo discurso de sempre de “você vai se arrepender e se odiar”, ela daria uma chance e o perdoaria. A primeira vez que isso foi às telas foi emocionante, a segunda também, a décima também, a milionésima já cansou. Surgir com um pai ausente para resolver tudo com a possível morte é algo que não cabe mais, não tem mais emoção e nem é condizente com a grande realidade. A quantidade de pais que somem da vida dos seus filhos e nunca os procura é muito maior, sendo exaustivo ver essa romantização do perdão do abandono pela ameaça do fim da vida.

Seguindo a outra trama extremamente desnecessária e clichê, o romance de Morgan e Park é um dos recursos mais baratos e chinfrins que a série já apresentou. Colocar duas pessoas se “odiando” e depois percebendo que na verdade se gostam é o beabá do roteiro genérico que vende, mas não se preocupa com qualidade. O desenvolvimento desse casal foi tão porco e tão corrido que me pergunto se não foi uma fuga à falta de criatividade de David Shore sobre o que fazer com os personagens. É como se fosse impossível existir um casal de amigos que se implica, compartilha a moradia e continuam sendo amigos. Seria muito mais revolucionário e interessante criar essa ideia e quebrar com a expectativa depois do que fazer um romance tão raso.

E por fim temos Shaun, Lea e Berry, a única parte do episódio que se salvou. Obviamente Murphy tem mais obstáculos e dificuldades para compreender certas coisas, porém foi maravilhoso ver Lea se impondo e garantindo que ela não tenha que lidar com absolutamente tudo. Desde a temporada passada quando ela o desculpou em um recurso forçado de o escutar no walkie talkie, senti que a série sempre o colocava como o correto de tudo e ela tinha que se adaptar, sendo maravilhoso ver a balança parar de pender só para um lado.

Ainda desejo do fundo do coração que Lea não seja limitada a ser esposa e mãe. O episódio focado em seu trabalho foi incrível e claramente já vimos que é possível não limitar uma pessoa a seus assuntos pessoais já que Shaun nunca foi limitado a isso. Embora alguns personagens estejam começando a ganhar destaque, mesmo com a saída abrupta e sem sentido de outros, a série continua repetindo a mesma fórmula. O problema não é usar clichê, mas a série apenas se resumir a eles.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-4x13-spilled-milkQuando a obra se debruça sobre essa repetição cinematográfica, perde-se algo muito importante, a sua identidade.