Depois de muito reclamar e implorar posso comemorar que The Good Doctor finalmente tratou Lea como uma pessoa individual e apresentou uma narrativa em que ela foi a protagonista, não sendo a mera namorada do Shaun. Ainda que por meio de uma trama clichê de hackers, a série mostrou para si mesma como a personagem merece ter mais espaço e tem um brilho próprio.

Continuando o desenvolvimento da relação entre Lea e Glassman, o embate profissional serviu como um resumo para a forma que ele a vê e ela se sente em relação a ele. Buscando o tempo inteiro por um traço de confiança, Lea procurou por meio de seus conhecimentos técnicos mostrar como ela pode ser confiável e que ela também sabe avaliar riscos e se jogar neles. Por outro lado, Glassman teve que finalmente dar um voto de confiança e levou um tapa na cara quando foi surpreendido não somente pela “audácia” de não ter sido consultado para a decisão final, como pela habilidade de Lea, até mesmo a elogiando, de uma forma seca, mas que já é um grande esforço da parte dele.

Muito mais do que um problema de hackers, o episódio colocou a relação dos dois em um teste máximo e acabou silenciosamente resolvendo um problema pessoal que estava gerando uma grande tensão. Ainda não dá para afirmar que os dois não terão mais embates, em realidade é até ingenuidade pensar isso, porém houve um grande passo no desenvolvimento dessa relação.

Ainda falando sobre Lea e a subjetividade dos problemas pessoais mascarados em um embate profissional, foi maravilhoso ver a personagem se impondo e exigindo respeito de Shaun. Embora ele não tenha tido intenção de desrespeitá-la, não é incomum vermos momentos em que ele não trata com a devida importância problemas dela. Além disso, uma vez que o roteiro só coloca Lea como uma namorada que sempre traz um desafio social para Shaun, é difícil não criar uma ideia de que ele só a vê como sua parceira, e não como uma pessoa que tem suas qualidades e defeitos fora dessa relação.

Uma parte de mim crê que esse episódio nem foi tanto sobre Lea, mas apenas um aproveitamento de narrativa que sempre dá certo em séries médicas, porém torço para estar errado. Lea e Morgan são duas personagens maravilhosas que no início tiveram seu destaque, mas agora apenas aproveitam restos de tramas que são colocadas em pouco tempo na tela. Espero que esse episódio seja uma resposta de que os roteiristas perceberam que as estão ignorando.

Não obstante, o que continua me deixando cético quanto a essa percepção tem nome, Olivia. Depois de nos entregar quase nada, apenas a resumindo a uma trama de pressão feita por seu tio, a série optou por não mostrar nem 1 segundo sequer da personagem no último episódio, e agora tirá-la, sem mais nem menos.

A decisão de tirar a personagem reforça a incompetência dos roteiristas em lidarem com muitos personagens, mostrando que a morte de Melendez não foi um mero deslize, mas uma prova de que quando não sabem o que fazer com o personagem, ou o deixam de escanteio, ou tentam criar um drama barato e sem sentido para buscar qualquer tipo de impacto. O desenvolvimento de Olivia era todo sobre ela se solidificar como uma médica com seus próprios pensamentos e atitudes, afastando de seu tio, mas provando para todos que não precisa ser expansiva para ser competente.

A conversa de Olivia com Morgan seguido de sua discussão com Andrews escancarou na tela como ela estava certa em ser do jeito que era. Em nenhum momento ela demonstrou não querer ser médica, apenas tendo inseguranças que quase todos os outros personagens já tiveram. E quando ela fincou o pé e decidiu ser a médica que queria ser, a série deu um chá de sumiço por um episódio e mudou toda sua narrativa em 40 minutos seguintes. É tão absurda a mudança que nem mesmo deu para ficar triste. Não houve tempo suficiente para conhecermos a personagem a fundo e se identificar.

Se a intenção sempre foi mostrar até que ponto uma pessoa pode chegar por pressão de seus entes queridos, era necessário que a série desenvolvesse essa narrativa, deixando claro como Olivia fazia tudo sem ter a real vontade e não como ela buscava ser médica a sua maneira. Depois de começar uma amizade com Jordan seria tão fácil colocar uma conversa das duas sobre isso. Existindo um personagem que mudou sua vida completamente, pois seus pais o obrigavam a seguir uma religião, era extremamente fácil desenvolver ambas as histórias por meio de um desabafo em uma conversa.

E para piorar, colocaram Andrews como sendo o delator. O médico mais burocrático e que única atitude fora da linha foi demitir o Dr. Han. Foi impossível não achar anticlimático que um personagem tão correto, muitas vezes frio e que nem estava lidando direto com o caso, afinal Lim estava, foi o responsável por tudo.

Se por um lado a série soube se redimir trazendo Lea para uma posição de destaque, conseguiu mostrar de novo sua incompetência em lidar com vários personagens a fazer o que fez com Olivia. The Good Doctor está sofrendo nessa 4ª temporada com muitas decisões impulsivas sem sentido feitas antes, focando sempre nos mesmos personagens e repetindo erros que já deveriam ter servido de lição.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-4x10-decryptThe Good Doctor finalmente tratou Lea como uma pessoa individual e apresentou uma narrativa em que ela foi a protagonista, não sendo a mera namorada do Shaun.