No episódio passado, The Good Doctor decidiu começar a falar sobre batalhas que ainda teremos que travar mesmo após o término da pandemia. Sendo bombardeados a todo instante com o número de mortes e tragédias que ocorrem no mundo, essa facilidade e rapidez de informações nos recordam a todo o momento da única certeza que temos na vida, o fim dela.
Todo mundo sabe que irá morrer, porém isso não quer dizer que saibamos lidar bem com isso. Sendo aproximadamente 8% da população mundial ateísta, 92% das pessoas no mundo acreditam num pós vida, em uma continuação. Ao focar em o que tem depois da vida, muitos se esquecem de lembrar que existe a morte no meio do caminho, e que não existe uma morte feliz.
Repleto de mitologias e personagens que possuem imortalidade, grande parte da humanidade fantasia com a ideia de ser imortal. Passando para o mundo real, experimentos como a criogenia dão esperanças de que um dia teremos um elixir da vida ou que a ciência atingirá um patamar em que 100 anos não será nada.
The Good Doctor trouxe essa semana uma personificação exagerada sobre o que foi dito acima. Tratando sobre alguém que modificou seu DNA, pode parecer a princípio que a série quer falar sobre o possível futuro, mas o cerne da questão é o presente.

Estamos vivendo um momento histórico em que o risco de não estarmos vivos amanhã é muito maior do que qualquer outro momento que vivemos. Se tem algo que a pandemia trouxe é a certeza de que temos que viver o agora, pois não sabemos se ele pode ser o fim. A ideia de viver 100, 200, 300 anos ao lado de pessoas que amamos, pulando de cabeça em aventuras é maravilhosa, mas também fantasiosa.
Viver o amanhã apenas te faz perder o presente. Viver o amanhã é sempre estar atrasado correndo atrás de algo que nunca conseguirá chegar. Pessoas que viveram 20 anos podem ter aproveitado mais do que outras que viveram 90 anos. Para morrermos só basta estar vivo, então que aproveitemos o agora, pois do que adianta viver para sempre se, como no episódio, aquela pessoa que você ama não estará com você. Como diz o grande filme Into the Wild, “a felicidade só é real quando compartilhada”.
Assim, David Shore decidiu dar um pause no intenso episódio passado a fim de preparar o terreno para alguns assuntos que aparentemente ganharão foco. Assim como um mero encontro para tomar café, a série começou a abordar o tema do poliamor que continua sendo um grande tabu e difícil de ser discutido sem diversos preconceitos. Em um diálogo bem rápido sobre o motivo de ter feito medicina, a vida pessoal dos residentes está começando a aparecer mais, bem como uma possível amizade entre eles. E claro, finalizando com a descoberta de Claire, veremos mais a fundo como Lim passará pelo transtorno, tendo provavelmente Claire na posição que Melendez um dia esteve para ela.
Sendo uma artimanha característica de Shore desde House, toda temporada o roteirista e diretor costuma contar de forma mais aprofundada a história de uma personagem, estando claro que nesse ano acompanharemos Lim. Entretanto, assim como na sua antiga série, David falha mais uma vez ao dar enfoque em uma trama e esquecer que existem diversas outras personagens.

Se analisarmos os últimos episódios, o roteiro sempre nos apresenta casos interessantes que se relacionam com algum personagem, enquanto aprofundam no que a Lim está vivendo. Fora a isso, tramas como a amizade de Park e Morgan e suas apostas agora que vivem juntos são utilizadas como meros 2 minutos de humor.
E é impossível falar sobre falhas sem mencionar como a Lea é esquecida no churrasco quase todos os episódios. Sendo uma mulher forte, inteligente, competente e uma personagem incrível, poderia resumir sua participação e airtime como a namorada do Shaun. Lea trabalha no hospital, é engraçada, poderia ter amizade com Claire, Morgan, ter alguma trama interessante do seu passado, qualquer estória; porém, a série a utiliza o tempo inteiro como um interesse amoroso do Shaun, que tem que lidar com suas diferenças e fala sobre transar para ele responder com aquele fofo “oh”.
The Good Doctor tem uma capacidade incrível de trazer reflexões com os casos dos pacientes, todavia semanalmente esquece que o que move a série são todos seus personagens. A medicina pode ser a base de tudo, mas são as relações, motivações e problemas humanos que nos fazem querer continuar assistindo. The Good Doctor no momento foca exatamente no que o título fala, em ser um bom doutor, mas se esquece de tratar sobre o humano por detrás.






















