Vivendo uma realidade que nos lembra constantemente as mortes que estão acontecendo, a decisão da série em criar uma realidade desejada não apenas possibilitou que outras tramas tivessem destaque, como permitiu que os telespectadores esqueçam por pelo menos 1 hora a conjuntura, descansando a mente e pensando em um futuro melhor.

Como esperado, a morte de Melendez demonstrou ter sido totalmente desnecessária, e com o surgimento do covid, nem mesmo por 2 episódios teve grande importância ou impacto. Ainda que Lim mencione que esses últimos meses a fizeram ver como Claire é forte, nada efetivamente mudou na série, afinal nem mesmo o fantasma de Neil voltou a aparecer.

Quase como uma borracha, o terceiro episódio não apenas superou a pandemia como deixou para trás tramas que tinham sido introduzidas no final da última temporada e nessa season premiere. Além de Melendez, o dilema familiar de Park foi resolvido com uma ligação no último episódio entre ele e a ex-mulher, sem explicar como Kellan reagiu e como Alex lidará com a distância, uma vez que isso sempre foi um problema entre pai e filho, e ficou claro que Park largaria qualquer hospital para ficar com ele.

Ademais, da mesma forma abrupta que Jessica retornou, ela sumiu novamente. Não há como entender o que a série deseja da personagem, uma vez que a retiraram de cena quando seu relacionamento com Melendez acabou, como se não houvesse importância e não fosse interessante seu papel no hospital, e a usaram por 2 minutos em uma cena de reunião. É impossível não ficar irritado com esse descaso dos roteiristas com a personagem, sem dar qualquer explicação dela ter sumido e nos mostrar por minutos que ela sempre esteve no hospital, mas eles decidiram não contar sua história sem qualquer justificativa aparente, nem mesmo para mostrar seu luto após a morte de alguém que foi importante na sua vida.

Passadas todas as indignações, The Good Doctor iniciou uma fase já conhecida por todos que assistem séries médicas – a chegada de novos residentes. Adicionar novos médicos estudantes sempre é uma decisão fácil, pois abre um leque de tramas, porém existe sempre o risco do roteiro não conseguir desenvolver tantos personagens ao mesmo tempo, ou não trazer novas pessoas que tenham o carisma que os antigos já possuem.

Foi bem interessante ver como cada um reagiu à posição de ensinar e escolher os residentes. Dar poderes para as pessoas sempre faz com que elas mostrem suas verdadeiras personalidades e dessa vez não foi diferente. Morgan, como esperado, agiu com ar de superioridade e arrogância, fazendo perguntas e afirmações totalmente incisivas – lembrando um pouco o jeito de Bailey em Grey’s Anatomy – o que poderia nos fazer detestar a personagem, porém como já conhecemos sua personalidade e sabemos o trauma que ela está vivendo, o pano foi passado mesmo quando ela parecia passar dos limites.

Shaun também não surpreendeu ninguém, sendo brutalmente honesto, não percebendo limites pessoais de algumas pessoas e focando na pessoa que possui conhecimento, sem dar a devida importância para aqueles que colocam toda a inteligência em prática. Foi muito interessante ver aquele residente apontar o motivo de Lea ter ficado triste e por mais que eu não apoie o casal, espero que Murphy continue buscando aprender que seu sincericídio nem sempre é algo positivo.

Park, como sempre, não imprimiu muito sua personalidade e não há o que falar sobre ele, afinal até quando sua ideia de beber com os candidatos à residência aconteceu, ele não teve o protagonismo da cena, mais uma vez ficando totalmente de escanteio. E assim, tivemos o momento que provavelmente fará Claire ser a chefe dos residentes, ou qualquer que seja o nome do cargo que Lim e Andrews estavam conversando. Claire sempre foi muito inteligente, extremamente talentosa em ler a sala, ajudar a dar notícias ruins e se conectar com os pacientes e familiares, porém ela sempre dava um passo para trás quando surgia algum conflito, não sabendo muitas vezes impor sua opinião. Se de um lado Morgan não sabe quando ceder e ser humilde, Claire representa seu oposto cedendo até demais. Dessa forma, vê-la passa no teste da Lim foi um grande passo para a personagem e creio ter sido o diferencial que a fará se destacar entre seus colegas.

Ainda é muito difícil falar sobre os residentes, porém fiquei feliz com as escolhas feitas. Claramente o rico metido era insuportável e é bom saber que ele não fará parte, mesmo tendo sido importante ver Morgan e Claire apontando os momentos em que ele fez mansplaining e manterrupting; do outro lado, foi muito bom também não ter o residente crânio que quase não abria a boca, pois ainda que existam erros nas posturas de Morgan, Murphy, Claire e Park, médicos não são robôs e lidar com situações de vida ou morte diariamente faz com que às vezes seja necessário sair do modo médico de ser. Não houve nada de absurdo em tomarem uns drinks, buscar conhecer um pouco os candidatos e discordar de opiniões dos seus colegas. Mais do que médicos, todos ali são humanos e convivem mais tempo entre eles do que com suas famílias, então não tem como o hospital funcionar se eles não tiverem uma boa relação, se desafiarem, se conhecerem e se divertirem.

Dessa forma, temos personalidades interessantes chegando ao hospital e será muito bom ver como será a postura dos antigos residentes como professores. Espero que a série consiga desenvolver todos os personagens, afinal o roteiro já pecou diversas vezes, sumindo do nada com personagens ou não dando atenção para alguns. Muito melhor do que ter muitos personagens é ter poucos bem desenvolvidos. Essa não é a primeira série de David Shore e ele já demonstrou saber fazer uma obra de sucesso, vamos esperar que isso se repita aqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
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