Como previsto facilmente, a saída de Lea do apartamento teve um total de zero efeito. Depois de tanta cumplicidade, tanta ajuda e carinho, ver Lea praticamente ser despejada por Shaun foi uma escolha um tanto quanto duvidosa do roteiro. Não tivemos a oportunidade de ver como ela recebeu a notícia, como todo o processo ocorreu, como se a personagem fosse apenas uma figurante. O descaso com um dos melhores relacionamentos que já tiveram na série soa como um descaso direto a todos os telespectadores que se identificaram, conectaram e se envolveram com a personagem individualmente e na sua relação com Shaun. Dando as mãos a Carly, os roteiristas fizeram uma escolha extremamente errada e apenas deixaram mais absurdo a suposta solução para o casal dar certo.
Com tal decisão problemática e uma química bem meia boca entre Shaun e Carly, o desenvolvimento da relação soa cada vez mais como uma trama que mais cedo ou mais tarde terá um fim. Diferente da relação com Lea em que os roteiristas exploram a espontaneidade dos atos dos dois, o conforto que eles sentem quando estão pertos e a clara química existente, o romance com Carly, embora tenha muitos lados positivos, aparenta ser apenas o início que Shaun precisava para acreditar que ele consegue ter uma relação amorosa e sexual com alguém.
Carly é um ser humano cheio de qualidades e são pouquíssimas as pessoas que teriam a mente e postura que ela tem no relacionamento com o Shaun. Buscando se adaptar, fazer concessões e compreender as dificuldades de seu namorado, é praticamente impossível não gostar da personagem, porém ainda parece faltar algo entre os dois, o que leva a impressão de que a personagem poderia ser muito melhor explorada como amiga do que como namorada.
Observando a felicidade de Shaun e seu empenho em também fazer concessões e alegrar sua namorada, pode ser que ao longo do tempo eles sejam otp e fiquem juntos até o final; porém, sabendo da importância de Lea na vida de Murphy, uma hora ou outra essa bomba provavelmente explodirá.

Além de Shaun, outra personagem que promete ter um envolvimento amoroso é a Claire. Quase já se classificando como um fan service após tantos pedidos do público, sua aproximação com Melendez está adentrando cada vez mais em um clima amoroso, sendo bem bonito ver como ele conseguiu se tornar a pessoa para quem ela se abre, criando a expectativa de que a recíproca seja verdadeira e daqui a pouco ele comece a compartilhar um pouco de seus dramas de vida.
Entretanto, é impossível não criticar a total desnecessidade de terem criado um romance entre Melendez e Lim se o objetivo sempre foi juntá-lo com a Claire. Surpreendendo muitos e agradando praticamente todos, o relacionamento dos “chefes” era bem interessante, cheio de bagagem e com muita oportunidade para explorar as camadas dos personagens, uma vez que eles se conheciam há muito tempo e tinham uma ótima química.
Embora o possível novo casal pareça promissor, o término sem sentido e porcamente escrito do casal antigo ainda está muito presente na mente, sendo difícil não pensar que os roteiristas estão perdidos no assunto romance e podem há qualquer momento estragar mais um casal que possui tudo para dar certo.

Saindo dos romances e focando em algo que o roteiro sabe fazer muito bem, a exploração da trama familiar de Morgan foi um dos maiores acertos da série desde seu piloto. Sendo uma personagem muito fechada e focada no seu trabalho, já tínhamos sido agraciados com outro lado de Morgan quando ela foi ajudar Claire com sua mãe e quando conversou com Dr. Glassman sobre sua doença, porém isso parecia ser apenas a ponta de um iceberg muito interessante de ser descoberto, e graças a Odin, o iceberg está sendo revelado.
Nascida e criada em uma família repleta de gênios artistas, Morgan, ironicamente, sofreu o que muitas pessoas sofrem, porém ao contrário. Se muitas famílias sonham que seus filhos sejam médicos, advogados ou engenheiros, nesse caso estamos diante de uma casa orgulhosamente artística e que acredita que outras profissões não sejam tão criativas quanto. É até engraçado escutar as críticas da mãe da personagem, uma vez que na grande maioria das realidades, Morgan seria justamente a filha bem sucedida e talentosa que faz com que os irmãos e primos se sintam “mal” nos encontros familiares.
Nunca é fácil ser criticado por seus pais. Não é atoa que nas salas de terapia tantas pessoas precisam lidar com o sentimento de não serem um orgulho para aqueles que os criaram. A busca pela aprovação dos pais nasceu junto com o ser humano e está presente no próprio cerne das religiões. Não é fácil, mas é super identificável, sendo um grande acerto do roteiro para nos conectarmos com Morgan e entender como seu comportamento e dedicação são modos de defesa de uma realidade que ela foge.
Se ela não é uma artista na concepção de sua família, que seja então a melhor médica que existe, assim suas horas de estudo não apenas a distrairão do peso e da dor que sente, como será provavelmente a única forma de ser notada e elogiada por sua mãe.

The Good Doctor sempre traz ótimos casos semanais, deixando-nos tensos, angustiados, emocionados; porém, sua qualidade ganha luz quando investe seu tempo também nas relações pessoais dos personagens e nas camadas que muitos tentam esconder. Só vamos esperar que as próximas investidas não sejam sempre sobre como eles foram criados por famílias complicadas, existe uma variedade de assuntos e dramas que podem ser explorados.
P.S.: Shaun ensinando a todos nós homens que devemos pensar no prazer da mulher, buscando aprender sobre o assunto, sem tratar como tabu ou deixar a masculinidade frágil nos impedir de fazer perguntas e admitir que não sabemos bem sobre.
P.S.²: Como é bom ver o Dr. Glassman de volta à ativa.
P.S.³: Espero que retornem direito com a Lim, ela nunca se resumiu a ser par romântico do Melendez, nunca.






















