Quem nunca teve problemas sérios com seus familiares que atire a primeira pedra.

Desde o início da série ficou claro que os pais de Shaun tinham sido modelos perfeitos do que não fazer. Ainda que não tenha sido mostrado muito sobre a infância de Murphy, todo mundo conhece alguém ou é a própria pessoa que sofreu com pais abusivos, negligentes, preconceituosos, etc. Tratar sobre a redenção no leito da morte é algo muito corriqueiro na vida real e em obras televisivas, porém The Good Doctor decidiu seguir um desfecho diferente e muito reflexivo.

“Ser sangue do mesmo sangue” não é sinônimo de família. Nascer dentro da estrutura de pai, mãe, filho(a), tio(a), sobrinho(a), faz com que tais pessoas sejam parentes e diferente do que é dito e repetido, esse vínculo não é sempre bom e nem sempre deve ser mantido a todo custo. Completamente oposto ao que aprendemos, parentes muitas vezes são os mais capazes de magoar e humilhar aqueles que tanto proclamam amar.

Durante a vida, conhecemos diversas pessoas, nos conectamos ou nos afastamos de acordo com nossos interesses, nossos valores e preferências. Sendo todos apenas humanos, o que obrigatoriamente faz de parentes pessoas especiais? O que leva a sociedade a martelar que devemos passar pano e ignorar todas as coisas ruins que a “família” pode fazer, porque temos o mesmo sangue?

O pai de Shaun nunca foi alguém bom para ele. Nunca aceitou o filho, nunca procurou de fato compreender o autismo e nunca o amou de verdade. Suas palavras absurdas em seus últimos segundos não foram reação de remédios ou qualquer desculpa que a mãe de Murphy quisesse dar. Foi apenas a grande constatação de que vínculo sanguíneo não quer dizer absolutamente nada. Que um pedido de desculpas no último segundo de vida não apaga, nem compensa anos e anos de atitudes desprezíveis.

Ninguém é obrigado a perdoar alguém só porque a pessoa está morrendo. Perdão por medo no momento da morte é mais ultrajante do que morrer sem pedir desculpas. Devemos parar de romantizar o arrependimento de último segundo como se fosse mérito da pessoa e uma grande borracha no passado. The Good Doctor foi contra todos os clichês e trouxe a realidade, o que está por detrás de tantas falsas desculpas moralistas para ir embora desse mundo sem peso no ombro. Aliada a uma atuação brilhante de Freddie Highmore, o roteiro soube nos levar em direção ao clichê, suavizando atitudes do pai de Shaun e fazendo com que o personagem se sentisse um pouco culpado, para depois nos dar uma rasteira e mostrar a verdade na sua forma nua e crua.

“Sangue não cria família, cria parentes. Família são aqueles com quem compartilhamos bons e maus momentos, e ainda assim os amamos no final. São esses que devemos escolher”. Hector Xtravaganza

Continuando a tocar em assuntos polêmicos, o roteiro conseguiu nos mostrar muito bem quando vale a pena termos otimismo nas pessoas, ainda que levemos uma rasteira delas no final. Em um momento em que matar pessoas se tornou uma solução para grande parte da sociedade e que “bandido bom é bandido morto” se tornou um grande lema, é de extrema gratidão assistir Claire ir contra a corrente.

Como vimos em vários momentos, Shaun por um tempo teve que morar em um trailer, tendo sorte de ter o Dr. Glassman na sua vida, ajudando-o, dando um teto e o que comer. Claire, como bem dito pela própria, precisou roubar mantimentos quando a mãe a abandonava por dias. No Brasil, conforme dados do IBGE, 13,5 milhões de pessoas encontram-se na miséria, isto é, possuem uma renda mensal per capta inferior a 145 reais; sendo tal número maior do que a população de Portugal, Bélgica, Grécia e alguns outros países. Julgar a realidade dessas pessoas dentro de casa, no trabalho, no conforto do seu cotidiano é no mínimo absurdo. Ninguém que grita tais discursos e chama o ladrão de vagabundo já viveu ou compreende o que é ter menos de 145 reais por mês.

É claro que como foi mostrado no episódio, nem todos aproveitam as chances dadas e apenas se aproveitam daqueles que tentam ajudar, porém, além de ser difícil julgar tais pessoas, como generalizar e colocar todos os outros que se rendem ao mundo do crime por extrema necessidade e falta de oportunidade? Que moral temos de julgar aqueles que não têm o que comer, às vezes não tem pai e mãe, às vezes são explorados pelos pais para ganhar qualquer trocado que seja, aqueles que não têm a oportunidade de estudar, de ter uma infância, uma adolescência, um trabalho? Onde mora a solução em meter a bala em alguém que nunca recebeu amor, afeto, atenção de uma sociedade; pelo contrário, apenas recebeu olhares cruzados, preconceitos e isolamento? Não podemos julgar hoje a pessoa que nunca notamos no passado, sem pensar quem ela poderia se tornar amanhã se a enxergássemos agora.

Claire continua demonstrando ser uma das personagens mais sensatas e maravilhosas da série e o clima de romance com o Melendez parece estar cada vez mais palpável. Depois de tantos desejos dos fãs para que os dois ficassem juntos, pode ser que tenhamos um fan service com sentido e que ajude ambos os personagens a lidarem com seus traumas do passado.

E nesse clima de amor no ar, o desenvolvimento do relacionamento da Carly e do Shaun continua sendo muito bem trabalhado, mostrando que embora ela tenha muito paciência com o amado e procure se adaptar à realidade dele, ela também consegue colocar limites e mostrar que ele não pode fazer o que quiser usando o autismo como justificativa. Todavia, colocar seu namorado na parede, forçando-o a praticamente escolher entre você e a melhor amiga nunca será uma boa atitude. Nunca, never.

Shaun não tem dificuldades de abraçar Carly por causa da Lea. Os problemas no relacionamento dos dois em nenhum momento têm a ver com Lea, sendo completamente um ciúme de Carly que não resolverá nenhum problema. Considerando o medo de Murphy em perder as pessoas a sua volta e percebendo a conexão que ele possui com sua melhor amiga, é impossível acreditar que ela não se sentirá ofendida quando ele contar o motivo de não poderem mais morar juntos, e que ele não surtará em algum momento com saudades dela. O pedido de Carly é demasiado e ela saber disso é decepcionante. Essa bomba não demorará a estourar e provavelmente todos sairão machucados.

The Good Doctor continua trazendo toda semana assuntos polêmicos, importantes e interessantes sem deixar de desenvolver seus personagens e dar continuidade a suas tramas pessoais. Com uma ótima temporada até o momento, espero que o retorno apenas eleve a qualidade do material que vem sendo entregado.

P.S.: O nervoso em assistir a cirurgia da mulher sem anestesia não tem explicação.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-3x10-11-friends-and-family-fracturedThe Good Doctor continua trazendo toda semana assuntos polêmicos, importantes e interessantes sem deixar de desenvolver seus personagens e dar continuidade a suas tramas pessoais. Com uma ótima temporada até o momento, espero que o retorno apenas eleve a qualidade do material que vem sendo entregado.