The Gifted encontra um bom direcionamento após a dupla eXtraction & X-roads.
Como o próprio nome define, eXtraction é a última imersão dentro de um padrão já abusado por The Gifted em uma temporada. Nada mais é do que a repetição do que o grupo de mutantes já estava fazendo desde que Lorna/Polaris foi presa, Reed capturado, Andy e Lauren… Só que ao invés de resgatar um aliado inocente, a missão é a de capturar o vilão, o cientista responsável pelo programa que escraviza a mente de outros mutantes, ao viciá-los em uma droga com efeitos degenerativos. É uma boa sacada, mas que só compensa mesmo quando X-roads termina.
Felizmente a série encontrou um rumo interessante nestes últimos episódios, ao trazer elementos mais conectados a mitologia mutante das histórias em quadrinhos. Mencionar os X-Men várias vezes não é o suficiente para fazer de The Gifted uma produção ambientada no mundo desta famosa equipe. Exatamente por isso, vê-los adicionando personagens como as irmãs Frost, a temática da separação dentro do próprio meio mutante ou a idealização da irmandade, assim como do Clube do Inferno, foi suficiente para elevar a qualidade da história, mesmo que a fórmula ainda esteja mais do mesmo.
The Gifted não é uma série ruim, mas também não é um destaque dentro do mundo de produções de super-heróis. Este, contudo, é um problema da própria extensão da temática dentro da televisão. O desejo de ver personagens marcantes como Tempestade, Magneto, Professor Xavier, é realmente muito grande. Mas com um mundo de milhões de dólares em investimento e também em retorno de bilheteria, não faria sentido entregar personagens tão grandes ou arcos marcantes para a telinha. Logo, o principal desafio a ser enfrentado (e continuará sendo até que a produção encerre sua vida na TV) está na cobrança que o público gera a partir de sua experiência com o material no passado.
Quer você tenha sido um telespectador da animação clássica dos anos 90, X-Men Evolution ou um leitor ferrenho dos quadrinhos, o primeiro passo para abraçar The Gifted ou abandoná-la completamente é aceitar que eles jamais conseguirão reproduzir o que estas outras produções fizeram – na verdade, eles nem podem. A Marvel/FOX ainda precisa manter um panteão de personagens para suas adaptações cinematográficas e até mesmo garantir outras séries a longo prazo. Ter várias versões do mesmo personagem não apenas cria comparações injustas, mas também termina “enjoando” o público rapidamente. Depois de 4 anos acompanhando as histórias do The Flash, existe mesmo um apelo para o personagem no cinema, com histórias novas não usadas na TV? Por sorte o Corredor Escarlate tem anos e mais anos de material disponível, mas a saturação é sim considerada na hora de planejar e vender para acionistas que investirão no longa – é só observar a dificuldade em tirar o Flash do Ezra do papel e nenhum estúdio almeja se preocupar em “refazer” algo que já foi feito tão recentemente.
Contudo nem mesmo a própria limitação de universos compartilhados, existência de filmes e projetos futuros, livra a série de críticas mais ácidas quanto os limites que a produção, enquanto um original, precisa enfrentar. Algumas temáticas introduzidas por The Gifted ainda não conseguem se sustentar sozinhas. Foi necessário trazer o elemento surpresa, com as trigêmeas e várias menções a Magneto/Clube do Inferno, para fazer com que algumas tramas se transformassem de verdade. Polaris, que até então estava apenas se preocupando com filho e às vezes seguindo Eclipse, terminou ganhando toda uma repaginação narrativa nestes últimos episódios. Seu desejo de criar uma resistência mutante já era presente no começo da série, com os treinamentos oferecidos, mas este desejo desapareceu após uma breve cena. A separação em dois grupos, com ela “chefiando” um, porém, foi a melhor decisão tomada pelo time de roteiristas e impulsionou meu desejo em continuar com a série. Em suma, o objetivo do time criativo foi alcançado – para alguns.

Este novo “sopro” de ar fresco dentro da estrutura da série deverá ajudar a mudar as coisas para a próxima temporada. Eclipse e Lorna, assim como a separação entre dois grupos mutantes, foi uma ótima sacada. Lorna sempre esteve a um passo de realmente se aproximar do pai, Magneto. Seu desejo de treinar os novatos para o combate, apesar de bem próximo de uma sala do perigo, tinha um objetivo diferente. Eclipse, porém, manteve um discurso direcionado a coesão, ao mundo melhor com humanos e mutantes de mãos dadas, algo que já não era tão possível enquanto os X-Men estavam agindo como heróis para o mundo, pior ainda sem eles. Ver dois times, assim como nasceram estes personagens nas páginas das revistas em quadrinhos, nos oferece uma nova e bem mais atraente estrada para a próxima temporada. Lorna e Eclipse terminam divididos e separados, mas parte de uma mesma luta. Será interessante ver como estes dois extremos batalham por um mesmo propósito e a construção até aqui, apesar de ter tropeçado muito, compensou bastante.
Apesar de não ter representado um marco nas produções de histórias em quadrinhos ou chegado pelo menos perto da revolução proposta por Legion, The Gifted soube conduzir sua trama, às vezes, antes de cair em seu característico padrão repetitivo. Um dos maiores problemas da série é sua ambientação genérica. É interessante ver alguns mutantes diferentes, com maquiagem melhor trabalha, já que oferece uma sensação de coletivo, mas também é necessário que este conceito alcance outros pontos técnicos da produção. O principal é a existência/uso de poucas locações. Estivemos confinados a uma floresta, aquela estrada que apareceu mais do que o senso de heroísmo da Amy Acker, além do QG das Sentinelas e o amontado de laboratórios. Acredito que esta saída tenha barateado os custos, algo que facilita na hora de renovação, mas que faz com que produção fique muito limitada.
Outro ponto negativo é a falta de uso de poderes, em uma série que mantém em sua estrutura um leque gigante de pessoas com dons especiais diversos. O mutante que causa medo poderia ter sido usado mais, assim como Shatter, Sage, Blink… Ora, uma das melhores cenas de ação desta última sequência foi a combinação de poderes de Andy, Lauren e do ‘dobrador de água’ que apareceu brevemente. Qual a graça de ter vários mutantes e poder brincar com a imaginação, se no final teremos algo tão pequeno? Este definitivamente é um ponto que precisa ser melhor conduzido na próxima temporada e não estou me referindo a efeitos caros, pessoas voando ou coisa do tipo. Basta ser diferente, que já estaremos em um ambiente melhor.
The Gifted terminou com uma promessa bem grande para o próximo ano, explorar uma espécie de Guerra Civil entre mutantes e nos aproximar verdadeiramente da alma clássica dos X-Men. A luta entre o subterrâneo (que precisa de um nome novo, urgente) assim como a nova Irmandade/Clube do Inferno é algo que a série precisava com urgência. Ver o confronto de ideologias, ter duas equipes diferentes, com ensejos discrepantes e lideres com visões opostas é exatamente o que a série almejava para criar algo mais próximo do que está no coração dos telespectadores, assim como o bom uso da proposta. Este novo rumo nada mais é do que uma versão reciclada do embate entre Professor Xavier e Magneto, mas também é a saída perfeita para uma série que gosta tanto de falar dos X-Men.
Easter eggs e outras informações
– O episódio nos apresentou a Evangeline Whedon, a advogada que conversa com Lorna no hospital psiquiátrico em que ela está internada. Vange, como é conhecida, tem a habilidade de se transformar em um dragão ao entrar em contato com sangue e foi introduzida em X-Treme X-Men #21, por Chris Claremont e Salvador Larroca.

– No final do episódio, quando os mutantes do antigo subterrâneo estão se reunindo para discutir o futuro, é possível ver na placa de entrada do local o nome J. Kirby’s, uma homenagem a Jack Kirby. Kirby foi o co-criador dos Vingadores, Quarteto Fantástico, Thor, O Incrível Hulk e os X-Men, junto de Stan-Lee.
– Tivemos várias menções ao Magneto, mas o momento mais marcante foi quando Lorna usou seus poderes para flutuar um “broche” que nada mais é do que uma parte da armadura vermelha usada pelo mestre do magnetismo.
– Será que Polaris vai conseguir um capacete para bloquear a ação de telepatas? Conviver com as Frost não será fácil sem um.
– Pela primeira vez vimos Shatter usar seus poderes na série.
– Lauren usou uma frase bem conhecida pelos fãs do Homem Aranha. Aquele papo de com grandes poderes e responsabilidades já está manjado, mas nasceu com o aracnídeo.
– Este foi o episódio de uma série com mais regravações de áudio que já assisti. Na vida.
– Além de um novo guarda-roupa, o time da Irmandade/Clube do Inferno terminou com Lorna como “líder”, as trigêmeas Frost, Sage, Andy e o mutante sem nome com super força e o mutante que eu não lembro o nome, mas que consegue ficar/deixar invisível. Perdas consideráveis.
– Já o subterrâneo terminou com Lauren, Shatter, Blink, Eclipse e John – além de Reed e Caitlin + mutantes sem nome, que na próxima temporada se revelarão como conhecidos de alguma HQ obscura dos X-men.
– A separação de Andy e Lauren foi interessante, assim como o pequeno confronto entre os dois, que deverá retorna na próxima temporada. Já a sensação de mais histórias dos Struckers ‘pai e mãe’, me deixa apavorado. A série ainda não aprendeu a usar Amy Acker. Que pena.






















