The Flash entrega um episódio superimportante para a sua mitologia.

Como série The Flash sofre vários problemas, a grande maioria como parte de uma imposição para um programa de TV seriado. Contudo como produção derivada de uma história em quadrinhos, o que é entregue na grande maioria das vezes supera com facilidade os pequenos deslizes. Com um episódio como The Runaway Dinosaur em que a proposta se torna mergulhar na psique do personagem principal, mas sem relegar tempo para seus coadjuvantes, The Flash começou a desenhar com traços mais fortes a sua própria mitologia, a separando completamente de outras produções do gênero.

Mais do que apenas uma viagem para dentro da Força da Aceleração, The Runaway Dinosaur foi uma imersão no interior da mente do protagonista. Todo herói é construído de traumas e através deles. É o Peter Parker que perde o tio, o Bruce Wayne que testemunha o assassinato dos pais, é parte do imaginário comum e da mitologia de anos de histórias em quadrinhos, em que a tragédia se torna o ponto de definição de um super-herói. Contudo Barry nunca antes havia sido confrontado por sua derradeira posição com tal. Toda a primeira temporada e parte da segunda agiram para pavimentar este caminho, mas sempre deixando claro que as ações do time Flash serviam como contenção, principalmente. A corrida sempre teve uma direção: arrumar a bagunça criada pela explosão do acelerador de partículas e depois corrigir o problema gerado pela abertura dos 52 buracos entre as dimensões. A sensação final era a de uma equipe engajada em consertar erros. Lentamente o Flash deixou de significar apenas o cara que age heroicamente para salvar a cidade e se transformou em um “arrumador”.

No decorrer do episódio o elemento principal foi a aceitação do manto Flash como algo pertencente ao Barry. É preciso compreender que a frase proferida pela Força da Aceleração “você deixou de ser o Flash”, não faz menção nenhuma a “doação” do poder para o Zoom, mas sim ao ponto que chamei a atenção anteriormente. Dentro da primeira temporada, enquanto Barry descobria seu poder, a série fez questão de pontuar seu comportamento como herói e símbolo do povo de Central City. Ajudando pedestres, trabalhadores, agindo como imagem de inspiração, aquele Corredor Escarlate foi desaparecendo lentamente. E a mensagem é bem clara: as tragédias continuarão a vir, não como punição, mas porque Barry É o Flash.

E o roteiro de Zack Stentz (Fringe e Andromeda) foi extremamente competente ao transformar a força da aceleração em um personagem, não apenas uma força/local. Teria sido muito fácil prender Barry em algum lugar, amontoar com imagens e chamar aquilo de Speedforce, sem dar um rosto, ou voz. É notável também o tipo de personalidade que aquela criatura sapiente demonstra. Frases como “sente-se, você está sempre de pé”, ajudam a criar um padrão para algo que até então funcionava como um caminho. Uma frase que se torna parte de uma pessoa, mesmo que ela não seja uma, coopera para criar uma conexão especial. Por exemplo, a partir de agora, “sit down, sit down” não será encarado apenas como uma frase solta, mas sim como parte de algo maior. É uma expansão mitológica feita de maneira correta, sem excessos. Tratar o público como uma tabula rasa é um dos maiores erros de uma produção, especialmente quando ela já desprendeu tempo para discorrer a aprofundar seus temas. E The Flash acerta em cheio ao não entregar demais.

E a direção do episódio, feita por Kevin Smith, ajuda e muito a dar uma sensação de satisfação para o desfecho de Iris e Barry. Como personagem Iris sempre esteve flutuando entre o importante e o desnecessário. Sua participação na primeira temporada fez pouco para que o público se apaixonasse por ela. Este, contudo, é um problema geral da escrita da série, assim como toda produção conduzida por Berlanti no Arrowverse. Dentro destas séries subtende-se que o par do herói precisa de tanto desenvolvimento quanto ele. Raramente essa evolução vem de forma agradável, ou justificável. Por isso aquela mocinha que pouco recebe atenção e aparece vez ou outra apenas para agir de maneira mais sensata, alívio cômico, termina recebendo a atenção e consequentemente o espaço reservado para outra, dentro do imaginário de quem assiste e torce. Foi o que aconteceu em Arrow, e de certa forma o que também se repetiu em The Flash.

Iris da Terra-2 mostrou-se extremamente interessante, mas porque ela já estava consolidada. A nossa, da Terra-1, ainda precisa de algum trabalho e mais aprofundamento. E é neste ponto que mora o perigo. É muito mais simples preferir a Patty Spivot, por exemplo, que apareceu para entregar o que o protagonista não precisava no momento, do que alguém que está recebendo história e trama para se tornar importante depois – quase ninguém quer o depois, o que importa é o agora.

Aquele senso de satisfação e conclusão, de uma mulher que oferece exatamente a morada perfeita, é algo para a reta final, para anos de evolução e aperfeiçoamento. Ninguém ali está neste ponto da vida, talvez apenas Joe. E quando falo que parte do trabalho de enriquecer a presença de Iris foi do diretor, Silent Bob, é baseado em pequenas informações como, por exemplo, a cena em que a jornalista faz com que Cisco fique atrás dela, uma redublagem feita posteriormente a cena, a pedido do diretor e para sua filha. A importância da personagem foi definitiva. Ninguém optou por tratá-la como uma vítima. Quando o plano surgiu para atrair o meta-humano, Joe não a censurou, mas tratou de acompanhá-la. Este é um belo exemplo de uma figura feminina sendo empoderada. E utilizar a palavra empoderamento feminino de forma positiva fazia parte da minha lista de objetivos para The Flash.

The Runaway Dinosaur fecha então como o episódio mais importante para a mitologia da série e também um extremamente divertido. Ele é a prova de que quando a história é competente, a ausência do vilão não é tão sentida assim, especialmente quando uma missão é dada para o antagonista, algo que vai além do “porque sim”. Zoom finalmente juntou o seu exército de asseclas. Barry já está com os poderes restaurados e definitivamente dentro do manto de um super-herói. Até mesmo a trama menor, com o meta-humano, Harry, Henry, Joe, Wally e Jesse, funcionou para balancear o peso da narrativa da Força da Aceleração. Existem maneiras inteligentes de se construir um bom episódio e The Flash conseguiu fazê-lo através da parceria entre Kevin Smith e o roteiro bem estruturado de Zack Stentz. Com certeza agora já temos um herói pronto para o embate final.

Easter eggs e outras informações

– O ator que interpretou o Girder, Greg Finley, foi chamado de iZombie pelo Cisco. Na série adaptada da Vertigo e também da CW, o ator faz o papel de um zumbi. Outro ponto importante é que a locação mais utilizada por iZombie é exatamente um necrotério.

– Como já mencionei na sessão da review anterior, aparentemente o próximo vilão da série não terá um rosto propriamente dito. Assim como a força da aceleração, representará algo maior, mas sapiente. Minha teoria continua e imagino que a escuridão que tanto Zoom quanto a Speedforce fazem menção, diz respeito a Grande Escuridão.

– A Grande Escuridão é anterior a própria criação da luz, lá na gênese do mundo. Durante a Crise nas Infinitas Terras – outro evento já mencionado em The Flash – o culto conhecido como Brujeria – saído de Constantine e parte do Arrowverse – tratou de despertar a força no intuito de destruir Deus e refazer o mundo.

– O ator Jason Mewes, grande amigo do diretor Kevin Smith, fez uma participação no episódio. Quem curte Jay e Silent Bob com certeza o reconheceu. Ele também aparece depois, lá no meio da turba de vilões, mas completamente fantasiado.

– A cena com Barry e Iris no cemitério é bem parecida com a da animação Justice League: The Flashpoint Paradox.

– Kevin Smith, o diretor do episódio, já escreveu histórias do Arqueiro Verde também. Seu arco de dez números, Quiver, foi muito elogiado pela crítica. Smith já trabalhou para a Marvel, assinando Demolidor: Diabo da Guarda e confessou ter um interesse em escrever e dirigir um episódio de Arrow.

– Henry Allen decidiu voltar para Central City. Vocês também sentem um cheiro de morte no ar?

– Jesse Wells passou pelo mesmo estágio pós-acelerador de partículas que o Barry. Coração parou, ficou em coma… Cadê poderes?

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