A humanidade e sua façanha em construir heróis consagrados e inimigos anônimos.
Estamos, querendo ou não, sujeitos a reescrever a nossa história. Desde os ataques do 11 de Setembro, ou o recente em Paris, o mundo vem acumulando um clima de terror e medo no qual o principal inimigo é praticamente oculto. Uma sombra. E é nessa esfera que os conflitos se alimentam, a discórdia entre as nações começam a ganhar corpo e as desavenças atingem um patamar de desconforto inexorável. Painel muito parecido com o que The Expanse vem mostrando nessa primeira temporada. Depois de uma semana turbulenta com a fuga da Donnager, a narrativa decidiu jogar uma âncora e refletir um pouco sobre o que vem ocorrendo neste universo tão rico criado por James S. A. Corey. Apesar de ainda observar a produção como um esboço mal estruturado, Back to the Butcher mostrou que é possível agradar o telespectador com uma alteração no ritmo, sem perder o entusiasmo. Entretanto, o que mais me incomoda até agora é a falta de carisma dos personagens. Digo isso por experiência própria. Deve ser algum problema comigo mesmo ou o fraco jogo de diálogos e ações que o roteiro está tramando. Não sei ao certo definir, mas que a série somente apresentou figuras nada cativantes é um fato pra mim. E pior ainda, eu mal sei quem eles realmente são.
Por outro lado, o fato mais interessante foi o flashback sobre o incidente de 11 anos atrás, que condensou ainda mais a difícil relação entre a Terra e os Belters. Alguns operários da refinaria de minério, chamada Estação Anderson, tiveram problemas com as condições precárias de trabalho e resolveram protestar. Entretanto o evento acaba resultando num impasse com uma nave da ONU que praticamente demonstrou total desinteresse em negociar e resolveu tratá-los como terroristas. Resultado? A estação de refinaria Anderson é totalmente destruída, matando todos, incluindo famílias e crianças. Um plot curto mas que realmente acendeu uma chama de revolta sobre a Terra e sua exploração desenfreada contra os Belters, além de fortalecer a ideologia por trás da APE (Aliança dos Planetas Externos), que possui total direito de defender a própria independência. O que justificou a ausência da Chrisjen Avasarala, a principal manipuladora da ONU e mostrou realmente o outro lado do tabuleiro.
Em paralelo, numa espécie de ironia com o que ocorria na estação Anderson, acompanhamos os únicos sobreviventes da Canterbury/Donnager tentando decifrar um dilema. Acontece que Naomi racionalmente recusa ir até a estação Tycho, por conta da mensagem de que eles teriam uma recepção “calorosa”, mesmo que a mente por trás de tudo seja o coronel Fred Johnson, líder que comandou a destruição da estação Anderson. Ou seja, como confiar numa pessoa que fez coisas horríveis em nome da ONU mas que depois de anos trabalhando às escondidas acabou sendo um dos maiores nomes da APE? Sendo exatamente nesse enorme ponto de interrogação que os tripulantes da recém batizada Rocinante decidem apostar na sorte e descobrir quais são as reais intensões de Fred, o Butcher.
Já a investigação sobre Julie Mao continua alcançando níveis cada vez mais conexos com o massacre da Canterbury. Miller possui uma habilidade surpreendente em rastrear todos o passos da Scopuli, sendo que a cada semana ele parece reunir mais evidências de que a nave possui total relação com o que vem ocorrendo em Ceres e no resto do Cinturão. Tanto que sua obsessão vem crescendo a cada cena, o que faz do seu plot o mais pertinente até agora. Confesso que o detetive é, dentre todos personagens, o que mais chega perto de uma caracterização bem sucedida. É revigorante ver seu visual retrô se destacando no meio de tanta tecnologia e isso tem sido um dos pontos mais fortes da série, incluindo os efeitos especiais.
Apesar de algumas falhas, a narrativa movimenta-se de forma instigante. The Expanse imagina um futuro crível e extremamente relevante para o que vem ocorrendo atualmente. Ainda estamos presos no medo de uma guerra invisível, com inimigos ocultos e aliados nada confiáveis. Somos incessantemente bombardeados por notícias de revoltas, massacres e revoluções, sem ao menos entender direito os ideais de cada um e quais são realmente os heróis que lutam por mudanças. A série só vem demonstrando um princípio claro e cada vez mais nítido: a certeza de como um salto de 200 anos no futuro pode ser um retrato tão exato e inquestionável do nosso presente.
PS1: A história por trás da Estação Anderson foi originalmente publicada num livro chamado “The Butcher of Anderson Station”, sem tradução para o português e serviu como uma espécie de prequel sobre o que acontece no primeiro livro da série The Expanse.
PS2: A Naomi dos livros possui todos os traços de um Belter. Quase 2 metros de altura, cabelo crespo e uma visual que mistura origens asiáticas e sul-africanas.
PS3: Finalmente deram uma função para o chapéu estiloso de Miller. Mas confesso que prefiro ele exibindo o interessante corte de cabelo do que escondendo o visual de forma vintage.
PS4: É tempo de celebrar! Pois a série já foi renovada para a 2º temporada pelo SyFy, que apesar de praticamente fazer isso com todas as estreantes, teremos a sorte de ver um pouco mais desse universo incrível e audacioso.
















