Chegamos ao quinto episódio, em uma temporada marcada, até aqui, pelos problemas conjugais da Rainha Elizabeth, pela postura britânica em relação ao restante do mundo e por um destaque maior aos coadjuvantes: Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo e Princesa Margaret. Marcando o meio da temporada, precisávamos de um episódio forte para manter a audiência atenta. E The Crown não decepciona. Em Marionettes, o destaque retorna àquela que é a dona da série: Rainha Elizabeth. O resultado não poderia ser mais gratificante e somos presenteados com mais um show de atuação de Claire Foy.

O episódio inicia-se com os jornais noticiando uma série de críticas à Rainha. Vários adjetivos pejorativos são utilizados para denegrir a imagem de Elizabeth: pedante, voz estralada, esnobe… O responsável pelos ataques é o Lorde Altrincham (John Heffernan), jovem com uma carreira política malsucedida e editor da National and English Review. A partir daí, temos um recuo de um mês, recurso utilizado anteriormente na temporada, para entendermos os motivos que desencadearam essa série de críticas. Altrincham é representado como um homem liberal e que enxerga a necessidade de mudanças na sociedade britânica daquela época. Isso fica evidenciado na cena em que ele está reunido com seus colegas de trabalho e comenta sobre a necessidade de mudanças em três aspectos: a renovação da Igreja Anglicana, a reforma da Câmara de Lordes e a posição britânica com relação ao Mercado Comum Europeu. A cena é simples, mas poderosa, pois ela apresenta os motivos para a posição do Lorde com relação a sua soberana.

A Rainha Elizabeth possuía um time de profissionais para atender as suas diversas necessidades. De discursos a cortes de cabelo. Ensinada a servir, por vezes, ela é representada como alguém que não parecia se importar com assuntos rotineiros. O script era seguido à risca. Aí morava o perigo. Ao discursar para trabalhadores da Indústria Jaguar, a Rainha lê o discurso preparado por seu secretário particular, Michael Adeane (Will Keen), extremamente ofensivo ao chamar aqueles homens e mulheres de “comuns” e dizer que suas vidas eram “solitárias” e “monótonas”. Os tempos haviam mudado, porém aqueles homens ainda não entendiam isto. A monarquia é um dos maiores símbolos do que significa ser britânico, no entanto, era preciso se adaptar aquela nova era. Ao ouvir esse discurso, Lorde Altrincham sente-se profundamente ofendido, e a cena deixa claro que todos os outros que ouviam também, e decide preparar seu ataque. A forma escolhida para apresentar suas motivações foi perfeita. Parabéns a Peter Morgan pelo roteiro bem escrito e a Phillipa Lowthorpe pela direção precisa, mostrando as reações ao discurso.

O diálogo entre a Rainha-Mãe (Victoria Hamilton) e a Rainha Elizabeth é extremamente ilustrativo. Ela representa a velha guarda e com os dois pés fincados no passado acredita que aquelas críticas não tinham grande relevância. Ledo engano. Os tempos eram outros e ninguém está ileso a essas mudanças. Nem mesmo o maior símbolo inglês: a Rainha. A entrevista concedida pelo Lorde Altrincham, no programa Impacto comandado por Robin Day (Bertie Carvel) é um dos pontos altos do episódio. Ele, como boa parte dos britânicos, é um monarquista e ama o que ela representa, porém reconhece a necessidade de adaptação dessa forma de governo. Em um mundo repleto de repúblicas, a sobrevivência da monarquia mais antiga da Europa, dependeria da sua capacidade de acompanhar e se adaptar aos novos tempos.

Acompanhar o olhar consternado de Claire Foy é um deleite. Escutar tantas críticas e saber que um ataque à altura não seria possível, exigiu um trabalho magnifico da atriz. Sua respiração acelerada, o olhar cheio de raiva e a tentativa de se manter altiva engrandeceram a cena. Sentimos sua dor e nos compadecemos dela. Ela não é uma mulher comum, mas não poderia ser distante demais de seus súditos. Encontrar o meio termo era necessário, porém ela não foi ensinada assim. Mais um desafio era disposto a nossa jovem Rainha.

Repleto de cenas marcadas pelo simbolismo e pelo apuro técnico, a cereja do bolo de Marionettes ainda estava por vir. O temor de uma crise constitucional acende os alertas do Palácio. Lorde Altrincham é convidado para se reunir com Charteris (), secretário particular assistente, para discutir uma solução para aquela situação. Neste momento, a grande surpresa do episódio: a própria Rainha foi escutar Altrincham. Esse é o grande clímax do episódio. Elizabeth tomou as rédeas da situação. Sem delegar a função para terceiros, ela provou como amadureceu neste cargo. A jovem soberana mostrou uma força incrível ao ouvir seu crítico. Ouvir críticas nunca é fácil, imagine para uma Rainha. Claire Foy brilha novamente nesta cena. Evidentemente desconfortável, Elizabeth escuta às críticas, sem fazer grandes questionamentos, porém com grande altivez e reflexão. Mesmo contra a sua vontade, a Rainha atende algumas das recomendações do Lorde Altrincham, tais como televisionar a mensagem de Natal e receber populares no Palácio.

Esse é, sem dúvida, o melhor episódio da temporada até aqui. Entender como uma instituição milenar se adaptou e conseguiu sobreviver a um mundo de mudanças constantes é extremamente gratificante. Segundo Ernst Cassirer, o homem diferencia-se de outros animais por produzir símbolos. E compreender estes símbolos é que nos move como seres humanos. A Rainha-Mãe faz um monólogo na reta final do episódio, justificando seu título, Marionettes. Representar um grande símbolo, como a monarquia inglês, requer grandes sacríficos e concessões. Elas são apenas marionetes do poder.

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O homem que esbofeteou o Lorde Altrincham chamava-se Philip Kinghorn Burbidge e era membro da League of Empire Loyalists (LEL). Esta liga desejava frear o desmembramento do Império Britânico e tinha raízes fascistas. Isso justifica o ataque de Burbidge à Altrincham.

– Lorde Altrincham, utilizando-se da Lei Peerege (1963), recusou o título de lorde e passou a ser conhecido apenas como John Grigg. Além de escritor e político, Grigg também era historiador.

– Atualmente, existem 29 famílias-reais no poder. Entre 1907 e 1960, 53 países deixaram de ser monarquias e transformaram-se em repúblicas. Realmente, as monarquias estavam em via de extinção.

– O apuro técnico de The Crown deve ser mais uma vez ressaltado. Você pode conferir nos links abaixo a Rainha Elizabeth na primeira mensagem de natal televisionada e a entrevista do Lorde Altrincham. Vejam e comprovem como Claire Foy é magnífica.

Até breve!

REVISÃO GERAL
Nota:
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