Estou substituindo o amigo Fernando Coletinha nesse review, mas a partir da próxima semana ele estará de volta ao comando dos textos semanais de The Chi. Bem, dito isso, vamos ao que interessa sobre esse empolgante episódio de uma das melhores estreias do Showtime nos últimos anos e que, por sinal, já tem a sua renovação para a segunda temporada garantida.
Se Ghosts aparentemente nos mostrava um lado mais morno de The Chi, delimitava a trama e consolidava a personalidade dos personagens, Quaking Grass foi um importante episódio, já que esperávamos a conclusão do inevitável embate entre Brandon, Kevin e Ronnie e temíamos que a violência fosse respondida com violência, perpetuando o ciclo infinito de criminalidade que circunda a vida de muitos jovens oriundos das diversas periferias espalhadas pelo mundo.
Os minutos iniciais do episódio despertaram em nós um misto de suspense e expectativa diante do possível desfecho desastroso que Brandon, com a sua sede de vingança, poderia ter dado a sua própria vida caso tivesse matado friamente Ronnie. Mas lembremos que apesar do aspirante a chef de cozinha ter desistido de comprar uma arma para fazer ‘justiça’ com as próprias mãos, a espiral de violência parece atrair o rapaz para a beira do precipício. Percebemos com certa decepção que Kevin levou Brandon para uma armadilha, mas por outro lado, não tem como não sermos solidários diante do desespero do garoto frente as investidas do assassino de Coogie. Qual criança não ficaria em pânico ao ser constantemente perseguida e assediada por um assassino? Temos que dar um desconto para Kevin e nos lembrarmos que ele ainda é muito criança para lidar com uma situação tão complexa como a que ele está vivendo. Por outro lado, foi revigorante vermos Kevin dançando na festa das garotas junto com os amigos, mesmo que mais tarde Jake tenha sido tão covardemente humilhado pelo irmão por conta da arma desaparecida, a festinha nos deu a dimensão de que eles ainda são crianças e precisam fazer coisas que crianças fazem.

Uma luta corporal. Um tiro disparado. Três perspectivas diferentes. Essa foi a forma que a diretora Tanya Hamilton encontrou para contar a história do confronto entre Kevin, Ronnie e Brandon. A alucinação representativa da presença de Coogie assombrando Ronnie, o seu algoz, no que parecia ser o seu momento derradeiro, foi tão impactante quanto a sequência em que o assassino do jovem foi alvejado pelo disparo de uma arma de fogo, sequência essa que foi construída através de flashbacks para que compreendêssemos o ocorrido a partir da perspectiva dos três envolvidos. Confesso que geralmente tenho pouca paciência para o uso desse recurso, mas admito que The Chi soube usar os flashbacks de maneira adequada, nos mostrando os fatos em doses homeopáticas, nos revelando com quais cores a grande colcha de retalhos que une a vida de cada personagem está sendo colorida. Em determinado momento nós deduzimos que quem atirou em Ronnie foi Kevin, mas foi interessante ver a sequência toda em flashback apenas nos últimos minutos do episódio.
Um fato que nos chama atenção em The Chi é a forma realista que as abordagens policiais são mostradas, sem nos poupar dos excessos cometidos pelos agentes da lei. Por falar em agentes da lei, percebemos claramente que o parceiro do detetive Cruz é um policial corrupto e, talvez, até o responsável pela morte do filho de Ronnie, dado o interesse dele em coletar detalhes sobre o informante do parceiro e sobre as circunstâncias que levaram Coogie a morte. Já que falamos em morte, tínhamos quase certeza que Ronnie não iria sobreviver ao tiro e entraria para a mesma estatística que o irmão de Brandon, mas para a nossa surpresa a sua vó se mostrou mais vigorosa do que imaginávamos. Não nos cabe julgar se ela está certa ou errada ao proteger e abrigar um homem baleado e com ramificações criminosas, já que estamos falando do neto dela e, certamente, o instinto maternal deve tê-la guiado para tomar as decisões que tomou a ponto de envolver Jada nessa situação. É interessante como a construção de um perigo ‘crescente’ dentro da narrativa desse episódio fez com que nos importemos e nos preocupemos verdadeiramente com o destino de cada personagem.

Em suma, acredito que o rompimento entre Brandon e Jerrika é temporário, mas já é visível que ambos não estão na mesma página do livro, conquanto a garota projete sonhos empreendedores para o futuro, o jovem aspirante a chef de cozinha só se afunda ainda mais no mar de intricadas situações que disparam o alerta de perigo iminente. Especulo que em algum momento crucial Reg vai cobrar a dívida de Brandon, obrigando-o a fazer algo indigno e isso pode ser o estopim para que o rapaz migre para o lado obscuro da força. Lamento que pequenas decisões tenham levado o rapaz a grandes consequências, lamento também que por melhores que sejam as intenções do cozinheiro, como assumir a responsabilidade pelo desaparecimento da arma, tudo parece conspirar para que ele realmente seja mais um jovem de periferia fadado a criminalidade e a uma morte prematura e violenta.
De forma magistral e impactante, Quaking Grass apresenta um episódio mais profundo, mostrando como o promissor aspirante a chef de cozinha é envolvido por uma sucessão de acontecimentos, que como uma bola de neve pode soterrá-lo a qualquer momento. Muito mais do que estar no lugar errado e na hora errada, o episódio 04 de The Chi trabalhou a temática da ação e reação, onde as escolhas de cada personagem (Brandon, Kevin, Jake, Ronnie…) os conduziram para situações no mínimo delicadas.
















