
Se não arde, não cura.
Spoilers Abaixo:
Nós somos animais, mas não marcamos nosso território com urina. Ainda assim, marcamos nosso território. E território pra gente é aquele lugar ou instituição – pessoal ou espiritual – que representa a nossa zona de conforto. Nossa casa, nossa escola, nosso namorado, nossos amigos, até mesmo aquele banco de praça onde sentamos sempre, podem representar nosso território, aquele pedaço de mundo que nos faz sentir aceitos. Nós somos animais, e mordemos quem se aproxima deles.
Ao mesmo tempo, o exercício de estar vivo significa pisar em territórios alheios. É só assim que a gente conhece gente nova, amores novos, novas possibilidades. Dói no inicio, mas pode ser bom. Muitas vezes, as coisas que nos completam não estão a nossa volta, e precisamos ir buscar, ou elas jamais sairão de seus territórios para nos encontrar.
The Carrie Diaries essa semana foi toda sobre isso. Foi toda sobre uma Carrie perdendo território e indo parar na trincheira inimiga. Nossos roteiristas continuam fazendo seu trabalho esmerado, reconhecendo e trabalhando esse momento de transição da personagem. Atualmente, Carrie vive num limbo em que nem Castlebury e nem Nova York, são seus territórios completos.
Para sua metade Castlebury, a metáfora se faz presente em duas interessantes personagens: Maggie, e sua atmosfera Samantha Jones, possuída de luxúria e se contorcendo pra manter essa biscate latente. Maggie entende Donna como ninguém, porque está sempre a um passo de se tornar ela. E jamais admitiria perder território para alguém como a inimiga. A vantagem de viver em bando é essa: se você se ausenta, tem gente disposta a rosnar para estranhos por você.
Donna só está interessada em território alheio. Tudo que é dos outros tem um sabor mais adocicado para aqueles que nunca estão satisfeitos com nada que têm. Donna ganhou Sebastian, mas quer tirar de Carrie tudo que puder, porque Carrie mora na grama mais pura, mais respeitada, um território de louvação à inteligência e bondade que Donna não conhece e não aceita.
Dois outros personagens de Castlebury também apareceram nesse episódio em busca de novos ganhos. O pai de Carrie parece ter voltado a viver, e Mouse vem pra provar que vídeos de sexo são mesmo úteis para a educação sexual, senhores. Muito boa a cena em que ela e Walt metaforizam com o taco de golfe. Não podemos esquecer que as séries teen tem essa levada didática mesmo, e que precisa tratar de assuntos comuns ao que vive uma adolescente média hoje em dia. Se as adolescentes médias estivessem assistindo The Carrie Diaries, o que pelos números de audiência, infelizmente, não estão.
No território novaiorquino, Carrie conhece George. Vale dizer que George é um personagem grande do primeiro volume dos diários, e tem realmente uma origem aristocrata. As circunstâncias de seu aparecimento foram diferentes, mas foi bom ver que tiveram a atenção de dedicar ao personagem uma parte da essência dos livros. George é um personagem de um território muito diferente do de Carrie, mas é claro que o embate entre esses dois mundos vai acontecer.
A partir daí parece que estamos no meio de um filme da Julia Roberts. Carrie usa o vestido errado, mas o transforma e se sai bem. Carrie não sabe dos assuntos vigentes no mundo dos ricos, mas é autêntica, e se sai bem. Carrie conhece a namorada antiga, mas ela é uma escrota (claro) e Carrie se sai bem. Carrie é pobre e inadequada para George, mas consegue convencer a mãe do garoto com honestidade, e se sai bem. E vejam bem, não estou sendo irônico não… Acho mesmo que essa ciranda de clichês foi muito bem aplicada e merece ser aplaudida. Fazer isso funcionar não é fácil, não.
No território de George, Carrie encontra a própria mãe. Assim como nos filmes de Julia Roberts, tudo é horrível, mas dá certo, e no final ficamos com aquela cara de bobos em frente a TV, amando aquele pequeno imbróglio recorrente, como se estivéssemos vendo-o pela primeira vez. Tudo funcionou direitinho e aos propósitos do tema do dia. Mais importante que a dor do processo, é a alegria do resultado. The Carrie Diaries está no caminho certo de sua dramaturgia… Ela só precisa de mais tempo para convencer o público disso.















