É estranho o senso de desenvolvimento de The Brink. Ao final do episódio passado, eu estava certo de que a trama acumulada – embora excessivamente “funcional” – teve um propósito ao levar os personagens a uma situação caótica, inesperada e, finalmente, com grande potencial cômico. O que ‘Who’s Grover Cleveland?’ entrega, entretanto, é pura e unicamente continuidade, uma sequência de ocorridos que parece não ter rumo argumentativo. Não é novidade: o grande ponto fraco dessa série é seu roteiro, em específico a básica habilidade de mesclar a serenidade de um enredo com a dinâmica do humor.

As cenas com Zaman nesse episódio são perfeitas para exemplificar esse problema. Após o desastre que encerrou o capítulo anterior, que culminou na explosão de Raja, era altamente antecipado algum tipo de surto geral das “autoridades” paquistanesas, e é precisamente isso que o início desse episódio promete. Sem hesitar, Zaman ordena um ataque nuclear em Tel Aviv, mas poucos minutos depois, muito convenientemente, o lançamento falha, e a bomba explode ainda no subsolo (não tenho o menor conhecimento sobre esse assunto, mas acho difícil de acreditar que isso seja normal, como um oficial paquistanês dá a entender em uma cena posterior). Não é exatamente um tropeço lógico na história, mas é uma escolha extremamente ociosa por parte dos roteiristas, pois serve unicamente para dar tempo e fôlego aos outros núcleos desenvolvam – Walter precisa impedir os equívocos na Casa Branca, e Alex precisa perder aquele helicóptero, para que esteja na embaixada naqueles minutos finais -, e justamente por ser tão “funcional”, não dedica tempo suficiente para a comédia, e o resultado é desinteressante e artificial.

Essas distrações do roteiro também resultam, por outro lado, em uma estranha pretensão crítica, cujo uso destoante eu já abordei em resenhas anteriores. Muito em The Brink parece ter sido gravado imediatamente após a escrita de uma primeira versão do texto, sem o menor tratamento ou aperfeiçoamento, e várias cenas da primeira metade de ‘Who’s Grover Cleveland?’ são recheadas desses deslocados diálogos “políticos”, com louváveis mensagens anti-guerra e multiculturalistas, mas que são tão rasas que acabam tendo o efeito contrário. Na primeira cena entre Alex e Rafiq há um longo diálogo que aborda essas questões e que pretende ser uma lição de alteridade, um grande alerta ao conservadorismo americano, mas ao falar do Paquistão, tudo que Alex faz é elencar os erros diplomáticos passados de seu próprio país. “We need you to get out of our country and leave us alone”, afirma Rafiq, em uma série que usa o Paquistão como muleta, que finge ser global e cordial, mas que não consegue parar de falar sobre seu próprio universo.

Walter é quem garantiu algumas risadas nesse episódio, no único núcleo que entregou uma parcela da tensão prometida no domingo anterior. Tim Robbins é um grande ator, e as cenas na situation room foram facilmente o ponto alto da semana, com piadas medianas funcionando muito bem, crédito da atuação. O general que baba ao falar da operação militar é o tipo de humor crítico tangencial que funciona bem The Brink, mas para cada piada sutil como essa há outra arruinada pela subestimação do público que está assistindo, como quando Walter explica a já evidente contradição do nome da operação emergencial ativada pelo presidente. “I’m not seeing any Infinite Wisdom here”. Sim, Walter, todo mundo já entendeu. Ninguém na Casa Branca sabe o que faz, obrigado.

‘Who’s Grover Cleveland?’ não é um episódio desastroso nem está entre os piores dessa temporada, mas é talvez o mais decepcionante devido à promessa não dita de semana passada. Não houve grande confronto, e todo momento promissor foi interrompido para o bem andar da história, estabelecendo rumos que são terreno já andado por The Brink: Zeke e Glenn (que tiveram o plot mais esquecível da semana por ter focado no drama familiar mais mal desenvolvido da televisão) estarão (de novo) no comando dos jatos em uma missão especial, para a qual Zeke (de novo) fornece drogas. Alex, que quase conseguiu voltar para os EUA, acabou ficando na embaixada e está (de novo) nas mãos do ISI. Walter (de novo) não recebe atenção na Casa Branca e tentará (de novo) resolver a crise por conta própria… Já subimos essa rua uma vez, e no caminho ninguém deu risada. Vamos mesmo subir de novo?

 

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