Uns bons anos atrás algum canal da TV a cabo transmitia, entre as sete e oito horas manhã, um finado sitcom americano chamado The Nanny. Eu o assistia por inércia, esperando com a televisão ligada o horário para ir à escola, e frequentemente pegava episódios pela metade, ou deixava alguns passarem, quando o frio me impedia de levantar da cama. Não compreendia todos os plots, não conhecia os personagens a fundo, e, portanto, não aproveitava nada por completo. A experiência de acompanhar The Brink tem sido muito semelhante à dessas manhãs friorentas, exceto pelo fato de que desta vez assisto todos os episódios com muita atenção, retorno a diversas cenas, e, finalmente, concretizo tudo aqui nessas resenhas. Essa breve anedota diz muito sobre a grande falha dessa série, isto é, a enorme indiferença com que os roteiristas tratam seus personagens, que é refletida, inevitavelmente, em indiferença ainda maior do espectador.

Se há algum personagem consistente em The Brink esse alguém é Alex Talbot. É, entretanto, uma consistência completamente negativa, que cerca o único personagem “completo” da série aos mesmos cenários e às mesmas interações. Enquanto Zeke, Glenn e Larson raramente estacionam suas histórias de um episódio para outro, Alex o faz semana após semana. Jack Black é quem impede que o personagem desabe, empurrando como pode o texto raso, que inclui uma problemática relação com Fareeda e as tediosas (já que repetitivas) interações com Kittredge. Nem mesmo a edição trabalha a seu favor, elemento que só chamou minha atenção nesse episódio, e que é frequentemente lenta demais e mal casada com o tom cômico da série, que depende muito das expressões e atuações do elenco para fazer o humor funcionar minimamente. Fica por conta de Black o ponto alto de ‘Tweet Tweet Tweet’, a cena final, que dá nome ao episódio, e é mais um distante lembrete de que a farsa de The Brink poderia funcionar se fosse mais concisa.

De resto, tudo é inconsistência. Os britânicos que “resgataram” Z-Pack e Glenn, ponto alto do domingo passado e uma bem-vinda mudança de rumo, são revelados como verdadeiros malucos, e a extrapolação dessa característica resulta em momentos vergonhosamente desconexos, que nem merecem atenção descritiva aqui, e por isso mesmo comicamente pobres, principalmente quando os minutos finais de ‘Tweet Tweet Tweet’ levam os personagens de volta às mãos dos prováveis terroristas dos quais Zeke e Glenn haviam escapado no início do episódio passado, tornando inevitável o questionamento da relevância de todo o detour que foi esse arco.

Larsen persiste desperdiçado como um instrumento de roteiro e acumula o número surpreendente de uma (01) piada durante todo o episódio, uma running gag sobre as canções pop israelitas que tocam nos elevadores do hotel em que está hospedado, em Jerusalém. É mais um caso de estratégico uso da cultura estrangeira única e exclusivamente para alívio cômico, que, nesse caso, não é bem sucedido em nenhum aspecto. Inside Out, o novo longa da Pixar que está em cartaz nos cinemas, faz funcionar uma piada idêntica, sobre uma música irritante que percorre todo o filme, e que está relacionada com a infância, com a memória, com a nostalgia, e que, portanto, dialoga com o tema geral do filme. O motivo pelo qual o humor em The Brink é tão fraco é que ele não se sustenta em nada, parece não partilhar o mesmo universo que o resto da série, não provoca empatia ou riso, não critica ou diverte, é aleatório, preguiçoso, ultrapassado, esquecível.

A maior participação de Joanne, que vinha sendo sugerida desde o início da temporada, é positiva, mas decepciona profundamente por motivos já conhecidos. Assim como Fareeda, que, semana passada, provou ser uma personagem criada meramente como o interesse romântico de Alex, Joanne é primeiramente apresentada como uma mulher forte, que peita o marido em diversas situações, e a relação de ambos no início do episódio, como uma espécie de Claire e Frank Underwood disfuncionais, funciona bem e poderia finalmente dinamizar o arco de Larsen. Mas não, mais tarde Joanne cede aos choros do marido, é usada como muleta, e deixada pra trás em Jerusalém por Walter, que parte para encontrar e confrontar Raja, e provavelmente pelos roteiristas também.

Na review de segunda passada me perguntei como seria a reta final da primeira temporada de The Brink, e a resposta é, infelizmente, nem um pouco surpreendente. Nada mudou em ‘Tweet Tweet Tweet’ e nada mudará até o nono e último episódio, daqui a três semanas. Não é arriscado dizer, ainda, que a segunda temporada, confirmada recentemente aos quarenta e cinco do segundo tempo pela produção da HBO (o que nunca é bom sinal, mesmo que signifique uma renovação, e renovação essa que deve muito ao elenco estrelado, visto que a audiência tem sido consistentemente baixa, mesmo subindo moderadamente semana passada), terá grandes dificuldades de se distanciar do tom dessa primeira, se é que tentará.

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