Desde a década de 30, os super-heróis têm ganhado cada vez mais notoriedade na cultura pop, e prova disso é o grande número de filmes e séries deste gênero que continuam conquistando o mercado audiovisual na atualidade. Desde os quadrinhos iniciais do Superman, criados durante uma grande crise nos Estados Unidos para promover um ideário de esperança, até os mais recentes filmes e séries anunciados da Marvel, os super-heróis têm conquistado uma significativa relação com seus públicos, se tornando não só uma forma de entretenimento como também uma grande fonte de imaginação e apego para diversas pessoas ao redor do mundo, desde crianças até pessoas mais velhas.
Um modelo de ação que se tornou bastante comum e que demonstra a relação de proximidade a qual engloba grande parte dos fãs desse gênero é a visita destes personagens em hospitais: diversos super-heróis “aparecem” em hospitais – seja uma pessoa comum vestida deste herói ou o próprio ator que interpreta oficialmente o personagem – para animar e se integrar com pessoas – normalmente crianças – que se encontram em situações difíceis – tal ato é satirizado, inclusive, em “The Boys”. Tais iniciativas demonstram o quanto estes personagens se tornaram um símbolo popular com bastante poder – nota-se o trocadilho.

Com tamanha popularidade crescendo ao longo dos anos, o conceito de super-heróis foi se expandido, deixando de ficar apenas na admiração e se tornando uma espécie de fetichização: quem nunca desejou ter super força, ser um telepata, poder ficar invisível ou até mesmo poder se teletransportar? A própria ideia de ter super poderes já passou pela cabeça de diversas pessoas, mas o que faríamos com tais habilidades e quais seriam os papéis destes super seres na nossa realidade acaba se tornando, significativamente, um assunto bastante diferente – e bastante relevante.
Diversas obras audiovisuais estão focando em subverter este gênero, mostrando ao espectador uma visão mais geral e realista deste universo repleto de super poderes, como o filme “Poder sem limites”, cuja proposta era mostrar o que aconteceria se um grupo de adolescentes ganhasse poderes, ou a série Umbrella Academy, que mostra um grupo de crianças dotadas de habilidades especiais e começam a ganhar fama e prestígio a partir de suas aparições nas mídias. Este artigo focará, entretanto, nas obras “The Boys”, série recentemente lançada pela Amazon, e “Boku no Hero Academia”, anime produzido pelo estúdio Bones. Ambos têm a proposta de apresentar o que aconteceria se, assim como nos filmes e quadrinhos, os super-heróis passassem a existir no nosso mundo.
Na primeira obra, super-heróis começam a surgir e se tornam uma tendência, mas a monetização deste serviço acaba fazendo com que estes sejam corrompidos pela ganância, luxúria e diversos vícios que acabam por prejudicar suas intenções. Já no segundo, o qual acaba de lançar um filme animado nos cinemas brasileiros, o espectador é apresentado a um mundo em que grande parte da população ganha super poderes, e com isso surgem agências para representar os mais diversos super heróis, escolas para treiná-los e figuras famosas que acabam se tornando uma inspiração para tantas outras pessoas – algo semelhante a um artista nos dias de hoje, que ao ganhar fama e glamour, faz com que muitas pessoas almejem estar em seu lugar.

Por mais que ambas as séries apresentem formato, história e narrativa diferentes, é evidente que parte de suas propostas seja subverter o gênero ao desenvolvê-lo em uma realidade extremamente capitalista e midiática – assim como a que vivemos. Primeiramente, o maior e mais popular super-herói de ambas a realidades, respectivamente Capitão Pátria e All Might, tem algumas características em comum: seguem o padrão de beleza, loiros e musculosos; são invencíveis e têm força sobre-humana; são figuras altamente cultuadas em suas realidades, gerando inspiração, esperança e desejo de consumo. Enquanto em “The Boys” o público idolatra o Capitão Pátria, em “Boku no Hero” tanto os jovens quanto já consagrados heróis fazem de tudo para alcançar o sucesso de All Might.
Na realidade apresentada no anime existem diversas agências que representam os heróis, sendo estas responsáveis por quais casos controlar suas participações na mídia e manter sua imagem a melhor possível, enquanto na série da Amazon todo esse processo de representação acontece a partir de uma só empresa, a Vought. Vemos, assim, o contraste entre o monopólio deste produto – no caso, os super seres – e a livre concorrência entre diversas agências, e é possível notar que, em ambos os casos, os super-heróis competem entre si para agregar valor à suas marcas – no caso, seus nomes. Em um episódio de “The Boys”, vemos o personagem Trem Bala (A-Train, originalmente) apostar uma corrida em rede nacional com outro herói que possuía super velocidade para provar qual dos dois era mais rápido, e é deixado claro para o personagem que, caso perca a corrida, será substituído pelo concorrente vencedor. Já em “Boku no Hero”, vemos o personagem Endeavor ser constantemente considerado, pela mídia, como o super-herói “número 2”, atrás apenas de All Might, e o personagem dedica todos seus esforços durante muitos anos para ultrapassar seu concorrente e se tornar o Número 1.

A fama vinda de super poderes e ações heroicas com visibilidade na mídia também é um dos focos de “Umbrella Academy”, pois vemos os personagens principais se tornarem famosos quando crianças, onde salvavam diversas pessoas – como na sequência em que impedem um roubo ao banco – com seus trajes heroicos e poderes. Claramente a visibilidade do grupo cresce, e as personas heroicas criadas pelos personagens estampam diversos produtos comerciais: lancheiras, cartazes, e até mesmo guarda-chuvas. Quando crescem, vemos que a maioria destes está extremamente desgastado, e a fama se transformou em diversos sentimentos ruins, vícios e no desgosto à vida de super-herói, assim como é possível ver na realidade com artistas mirins que, devido à pressão social e outros fatores, crescem com diversos problemas das mais diversas características. Tal fator, por enquanto, ainda não é tão abordado em “Boku no Hero”, mas o espectador é apresentado, em “The Boys”, a personagens que obtiveram diversos problemas vindouros da fama – mas não exclusivamente dela –, como o próprio A-Train, que se vê viciado em um composto que aumenta seus poderes, e o toma para que consiga manter seu lugar de prestígio e fama entre os melhores dos heróis.
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Por mais que ambas as obras que são foco deste texto demonstrem a corrupção de super-heróis em busca da fama e do prestígio, as duas também servem para desenvolver uma contra proposta à ideia de que “o poder corrompe”, ideia a qual ganha ainda mais relevância em uma realidade em que o poder se torna ainda mais tangível e grandioso. Diversos autores, como Tiburi e Kummer, debatem que tal expressão serve apenas para usar a natureza humana – a qual ninguém ainda entende completamente – como um escudo para a corrupção, e tanto “The Boys” quanto “Boku no Hero” acabam defendendo, propositalmente ou não, a contradição desta expressão. Na primeira obra, Starlight é uma recém-chegada super-heroína que se espanta com a imoralidade e indecência dos outros supers e decide que, indiferente do que aconteça, manterá seus princípios intactos e terá como prioridade praticar o bem; já no anime, All Might se mostra incorruptível mesmo sendo o mais popular e prestigiado super-herói daquele mundo, não deixando que a fama e o poder altere seus princípios e seu objetivo de praticar o bem.

Pensar em como seriam os super seres se existissem de verdade se torna, assim, um exercício bastante relevante praticado por ambas as obras, o que leva o espectador a questionar quais seriam as mudanças vindouras em um mundo em que o ser humano tais habilidades sobrenaturais, sendo capaz de salvar ou destruir vidas com tamanha facilidade, sendo estes dois fatores dependentes apenas de seus desejos e sua definição de moral. Se o ser humano já faz o que faz sem super-poderes, o que seria da humanidade com tamanhas habilidades? Haveria muito mais mortes em massa? O mundo viveria em constante medo e desconfiança? As formas de trabalho sofreriam mudanças ainda maiores? Haveria uma segregação entre os super seres e as pessoas comuns? Tal questionamento, visando abordar uma visão atual e realista desses seres com tamanha visibilidade em diversas formas artes na contemporaneidade – como o audiovisual e a literatura – agrega ainda mais valor às histórias de super-heróis e, certamente, ainda renderá aos públicos muito mais histórias ao longo dos anos: “Umbrella Academy”, “The Boys” e “Boku no Hero” foram só o início.





















