Consistência e equilíbrio.
Com mais um competente episódio em explorar relações e reações humanas, The Americans se encaminha para a reta final de sua quarta temporada.
Talvez a interação mais explorada em Dinner For Seven foi entre os personagens de Elizabeth e Pastor Tim, que abrem o episódio inclusive. Confesso que assisti a todas as cenas divididas por ambos com certa tensão, de que qualquer passo em falso de Liz colocasse tudo a perder, como uma revelação bombástica para o telespectador. Mas daí me recordo que isso eu poderia esperar de uma série comum, de edição frenética e plot twists constantes, que necessita desses artifícios para manter a audiência do público. The Americans é uma produção audiovisual complexa e de refinado trabalho artístico de roteiro e desenvolvimento de personagens.
Elizabeth flerta aqui com uma espécie de expiação, de uma vontade quase que incontrolável de ser absolvida de “seus pecados”, sendo o mais recente destruir o relacionamento entre Don e Young Hee. Ela quer confessar ao Pastor suas aflições, ao mesmo tempo que busca conscientemente uma aproximação planejada com o mentor da filha. Também gostei da tensão construída em torno dele descobrir a profissão de Stan, entretanto o roteiro sólido resolve o impasse com um fato simples e verdadeiro: os Jennings residem lá muito antes do vizinho agente do FBI.
Paige também obteve um merecido destaque durante o episódio. Ela constatar que a relação dissimulada com o Pastor e Alice pode durar para sempre demonstra amadurecimento e perspicácia da personagem. Outro ponto de tensão temporariamente resolvido (mas que pode ser retomado futuramente) era a tal fita que Alice teria gravado para o Departamento de Justiça. O tema não foi discutido com o Pastor e Elizabeth tranquiliza a filha de que o dispositivo pode servir para que os detentores de seu segredo possam se sentir mais “seguros”. Resta saber se Liz se sente realmente tranquila com essa possibilidade.
E o que dizer da tensa sequência final dividida por mãe e filha, abordadas em uma perigosa noite dos anos 80 na capital americana? Elizabeth age com instinto de sobrevivência e não poupa a filha de assistir do que ela é capaz de fazer com as próprias mãos. As consequências do acontecimento são inimagináveis, mas podemos antever que certamente mudará a forma como Paige enxerga a profissão dos pais. É necessário que o roteiro saiba pesar o drama dos conflitos e questionamentos de Paige para não deixar a personagem insuportável – é uma linha bem tênue a não ser cruzada – mas certamente trata-se de um acontecimento bastante significativo para uma adolescente lidar emocionalmente.
A constatação de Philip da informação reportada sobre o ex-agente Gaad e sua posterior morte foi um acontecimento válido no roteiro. Pode levar o personagem questionar e/ou filtrar informações reportadas no futuro para o Centro. E a sequência protagonizada por Philip da extorsão de Don foi incrivelmente bem executada. Demonstra todo o potencial de atuação desse incrível intérprete que é Matthew Rhys!
O encerramento da relação entre Stan e Oleg soou como um fim de plot aos meus olhos. É uma subtrama que sinceramente não me despertava interesse nenhum em acompanhar.
Dinner For Seven mantem a excelente qualidade, coerência e solidez da quarta temporada de The Americans. Ainda que se utilize do chavão de um tenso cliffhanger ao seu final, trata-se de uma série diferenciada que não faz uso desse recurso com muita frequência. Tal consistência foi finalmente brindada na semana passada com uma ótima notícia para os fãs da série: a renovação para mais duas temporadas finais. Isso dará tempo para o time de roteiristas preparar um final fechado e/ou aberto, porém planejado que a série, como obra artística e audiovisual, tanto merece.















