Encerramentos de ciclos marcam o quarto episódio da atual temporada de The Americans.

Conforme esperado, a série apresentou mais um capítulo repleto de acontecimentos que demonstram desenvolvimento contínuo das várias tramas apresentadas.

Podemos acompanhar Philip e Elizabeth lidando com a ameaça do vírus, isolando-os por alguns dias do convívio com a família. O exílio forçado possibilitou um estreitamento ainda maior entre o casal, que teve que passar pela adversidade junto. O principal benefício desse contratempo foi ver Paige no controle da casa, tendo que lidar com Stan, mentindo sobre o real paradeiro dos pais para o vizinho agente do FBI e para o irmão mais novo Henry. Ao mesmo tempo que estava nervosa, ela demonstrou maturidade para lidar com a situação, podendo talvez indicar um futuro recrutamento voluntário de Paige no Centro.

Os roteiristas parecem também determinados a investir nas interações entre Stan e Henry, aumentando de forma sábia a tensão e paranoia do público telespectador que talvez desse relacionamento surja a descoberta do casal de espiões em solo americano. E finalmente Stan trouxe à tona uma pergunta que sempre me fiz: por que Henry o procura ao invés do pai para falar sobre determinados assuntos? Cada cena dividida pelos personagens se encaixa perfeitamente na história, de forma orgânica, sempre pensando em implicações e desenvolvimentos futuros, jamais tendo uma inserção gratuita e aleatória para fins de metragem de episódio.

Pude perceber em Chloramphenicol certo protagonismo natural e justificado de Elizabeth, que por apresentar sintomas corria iminente perigo de vida aos olhos do público e de Philip, depois revelados como simples reação ao antibiótico. A inserção do flashback de Elizabeth com a mãe doente dialogou de forma perfeita com o presente e sua necessidade de ligar para Paige para orientá-la e se despedir, sendo parada a tempo por um sensato Philip. Pequenas nuances e detalhes que revelam o requinte do roteiro.

Outra trama não menos importante que corre por fora é a recente desconfiança de Stan em Martha. Ele inclusive alicia o agente Aderholt para questioná-la, além de vasculhar seu apartamento. Foi tenso o momento que Martha tenta contato com Clark/Philip antes do jantar que, aparentemente ela conseguiu despistar, contando aquela ficção, talvez metafórica, de estar com um cara casado (com a União Soviética, no caso). A forma como o roteiro vem construindo a tensão em volta dessa ponta solta coberta de riscos que é Martha tem sido feita de forma genial.

Quem também ganhou destaque em tempo de tela foi Oleg, que aparentou estar na Rússia visitando a família. Ainda completamente apaixonado por Nina, o agente russo recorre ao influente pai para que interceda em seu favor, sem sucesso. Ainda que tenha ganhado mais minutos de tela, essa subtrama ainda soava bastante desinteressante aos meus olhos. Bem, até o próximo acontecimento importante que descreverei a seguir, pelo menos.

Nina parece finalmente ter alcançado um closure para sua personagem após seguidos episódios de pálida participação. Entre as cenas na prisão, eis que nos deparamos com sua soltura, aparentemente muito providencial e surreal para a dura política de punição característica da Mãe Rússia. Dito e feito, tratava-se de um sonho, que nutriu as esperanças da personagem e de possíveis telespectadores que poderiam estar torcendo por ela. Vi algo semelhante uma vez no cinema, no magnífico filme de Michael Haneke Funny Games (Violência Gratuita, 2007), quando ele presenteia o telespectador com uma cena, para depois ela se mostrar falsa e embebida em autocrítica.

O que parecia ser uma simples transferência que poderia arrastar a desinteressante história Nina por mais vários capítulos se encerra de forma chocante, contundente e inesperada. Como um animal preparado para o abate, ela desconhece seu destino, se vê enganada pelos guardas e tem menos de cinco segundos para processar sua sentença e imediata execução da mesma. Ainda cheguei a imaginar que o breve seria na outra prisão que ela fosse, que pudesse recorrer da decisão, mas não. Qualquer esperança (não minha) foi minguada ali naquele tiro certeiro, pelas costas, covarde, com seu cadáver friamente caído ao chão, com a cabeça envolta em uma poça de sangue e depois seu corpo sendo displicentemente carregado, diria até de forma rotineira pelos agentes da lei, porém não menos chocante.

Momentos como esse revelam o poder da escrita e da qualidade dessa série do FX. Esse acontecimento ainda deve provocar reações futuras em Stan e Oleg, caso eles sequer fiquem sabendo da execução de sua amada. Ainda assim fico satisfeito com o desfecho, há muito protelado, da personagem.

Como indica a premissa da abertura desse texto, Chloramphenicol foi mais um excelente episódio de The Americans, sendo especialmente marcado por encerramentos: do perigo que corriam Elizabeth, Philip, William e Gabriel, e do fim da longa via crúcis de Nina. O fortalecimento da relação familiar dos Jennings ficou bastante evidente também nesse episódio, após encerrada a quarentena vivida pelos pais e a diversão no boliche. As constantes tensões e paranoias vem sendo construídas pelo roteiro de forma quase exponencial, mantendo o público telespectador instigado e curioso em acompanhar a trama contada na tela. E se depender do título do próximo episódio (Clark´s Place) sem ler sinopse alguma, eu diria que promete aquele frio na barriga de seguirem Martha até a safe house de Philip/Clark e ligarem as peças desse muito bem intrincado quebra-cabeça.

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