Solidez e coerência marcam o retorno de The Americans.
A série sobre espiões da Guerra Fria do FX faz seu retorno que, se não triunfal, ao menos mantem a excelente qualidade dramática do programa.
Marcado pelo (sempre bem-vindo) protagonismo de Philip, Glanders parece continuar exatamente de onde a terceira temporada nos deixou, com o casal Jennings lidando com a recente descoberta/revelação de sua verdadeira profissão/missão para a filha mais velha deles: Paige.
O foco em Philip é novamente em seu passado, através de flashbacks que justificam para o telespectador conflitos, atitudes e comportamentos atuais do personagem. Novamente aqui temos exposto o brilhantismo de The Americans em desenvolver e aprofundar seus personagens. Philip é composto por diversas nuances e camadas e essa premiere mostra mais um fantasma de seu passado desconhecido do público. O bullying sofrido durante a infância e o prematuro ato de assassinato justificam sua permanência no seminário frequentado pela ex-mulher do agente Beeman.
Temos aqui um Philip ainda cheio de conflitos e remorsos internos, prestes a ruir por completo, tentando lidar com toda a desgraça que o rodeia. Mais uma vez, Mattew Rhys incorpora magnificamente o personagem, de forma convincente e natural. Outro mérito da série é reforçado neste episódio, em mostrar violência explícita e sugerida, através dos horríveis sons de crânio rachando, chocando a plateia, mas jamais com intento gratuito, sendo sempre muito bem embasado pelo contexto da história ali contada.
Elizabeth continua sendo também alicerce desse casal, em mesmo grau de importância. No momento, ela parece mais ligada e preocupada com as repercussões que o conhecimento de Paige pode causar da vida do casal e, consequentemente, da família. Keri Russel continua ótima no papel, e vê-los novamente disfarçados e em completa sintonia renova o vigor da série.
Uma cena pequena de Paige, mas totalmente relevante, é quando ela não consegue sequer entoar o hino nacional americano (ou juramento à bandeira) antes das aulas. Uma cena que aparenta ser aleatória, mas colocada ali com o propósito de demonstrar os conflitos que rodeiam a cabeça da adolescente.
Outra ponta bastante perigosa e volátil para o casal é Martha, que se mostra cada dia mais instável, como é de se esperar de uma pessoa normal envolvida em uma trama mirabolante de espiões e assassinatos. As interações dela com Philip nesse episódio foram dramaticamente magnificas, principalmente a reação ao saber que um colega de trabalho foi friamente assassinado para que a culpa sobre o dispositivo espião não recaísse sobre ela.
Está claro que, objetivamente falando, a personagem deve ser eliminada para reduzir os riscos de o casal ser descoberto. Mas justamente aí reside o apelo da subtrama: até quando eles irão protelar a decisão, que ainda assim é arriscada, podendo levar com que até descubram que a secretária era secretamente casada, após sua morte. Seria necessário que ensaiassem uma morte natural ou desaparecimento/viagem para evitar ainda mais suspeitas.
Quem ainda corre por fora, e de forma bem desinteressante, é o núcleo russo de Nina. Ela continua lá na Rússia a interagir com o cientista repatriado, em trama que continua a não me despertar muita atenção, ainda que eu anseie que ela se cruze de forma satisfatória com a principal. A Rezidentura sofre do mesmo mal, com alguns acontecimentos internos que pouco que despertaram meu interesse nessa premiere.
Quanto ao agente Beeman, seu destaque neste episódio foi sua briga com Philip, com ciúmes da interação do amigo com sua ex-mulher. Confesso que senti certa tensão entre Philip e Sandra durante aquela conversa no restaurante/bar. Entretanto acredito que esse seria um caminho óbvio demais a se seguir. Além do mais, não entendi em nada o interesse da atual namorada de Beeman em dizer para ele sobre o encontro de sua ex-mulher. Isso é apostar contra o próprio relacionamento, como se Beeman já não fosse suficientemente obcecado pela ex. Atitude estúpida, para dizer o mínimo.
Em suma, o retorno de The Americans demonstra a maturidade e a qualidade atingidas e mantidas pela série. Calcada no desenvolvimento de seus personagens e tramas, o programa dos espiões russos continua a agradar seus telespectadores, seja pela fotografia já característica, pela capacidade e talento de seu elenco, seja pelo roteiro muito bem escrito ou pelas muito charmosas promos pré-estreia da quarta temporada. Os Jennings nunca correram tanto risco quanto agora, com a bomba-relógio chamada Paige pronta para explodir a causar ainda mais danos. Se isso não for o suficiente para prender sua atenção nessa magnífica e excelente série, não sei mais o que o fará.















