“Eu sou um burocrata, apenas sigo ordens. Você, você é apenas uma assassina: sem alma, sem coração, sem consciência”.

Spoilers Abaixo:

A frase acima, dita por Richard Patterson, o diretor de planejamento da CIA para a União Soviética, foi uma última tentativa de, apelando para a comoção, atingir sua algoz e escapar com vida de uma quase impossible situation. E deu certo. Nesta semana, a espionagem e as cenas de ação ficaram um pouco de lado para focar nos dilemas emocionais nos personagens, notadamente de Elizabeth.

O imbróglio central de Covert War, a captura e quase morte de Patterson, foi umas das primeiras consequências da decisão do governo dos Estados Unidos de que a União Soviética já tinha ido longe demais, como Gaad explicou muito bem no discurso para sua equipe no FBI, já nas primeiras cenas. Logo em seguida, vimos a morte de Viktor Zhukov, o chefe do Diretório S e alguém que, como descobrimos pelos flashbacks, era amigo e mentor de Elizabeth, alguém que “a amava e a entendia”. Por isso, a agente imediatamente fincou-se decidida a não deixar esta casualidade passar em branco.

Atiçando o fogo cruzado, Claudia revela para Elizabeth que o responsável pela morte de Zhukov era Patterson, um funcionário da CIA – mostrando como a política de poucos amigos já extrapolou o FBI e contaminou todo o governo americano, aparentemente pelas ordens do secretário de defesa Caspar Weinberger. Entretanto, a “vovó” alertou que Elizabeth não poderia fazer nada, pois Moscou quer “parar a escalada de violência”. Na hora, achei a atitude de Claudia muito estranha. Revelar o responsável pela morte e dizer “ah, deixa pra lá” é, no mínimo, contraditório, ainda mais sabendo que Elizabeth não a obedeceria e rastrearia o agora inimigo. Claudia ainda fez questão de dar a lição de moral: vocês me desobedeceram na operação com Gregory, não faça isso de novo. Sei, Claudia.

Dito e feito. Plantada a isca por Claudia, Elizabeth, decidida e centrada, começa a colocar seu plano em ação. Devidamente disfarçada e com a ajuda de Phillip – a contragosto (tenho certeza que ele só estava lá para proteger ex-esposa em caso de algo dar errado) – Elizabeth captura, com certa dificuldade, mais um refém, o que me fez pensar que se repetiria a mesma história de Chris. Dessa vez, todavia, o refém no galpão abandonado soube atingir quem lhe apontava a arma. Enquanto Elizabeth tentava fazer jogos mentais com Patterson para que ele admitisse ser cruel e sanguinário, foi ele que conseguiu entrar na cabeça da moça, a convencendo que era apenas um peão, que apenas seguia ordens e que, na verdade, era ela a vilã naquele momento.

E, para a minha surpresa, Elizabeth se deixa render. Tremendo compulsivamente e sem conseguir segurar o pranto, a agente supostamente treinada, capaz e racional perde o controle e atira para o nada. Particularmente, eu não gosto quando o seriado tenta forçar essa fragilidade de Elizabeth. Repito, simplesmente não combina com a personagem que o roteiro tenta construir em quase todos os episódios. Não combina com alguém que Zhukov afirmou ter sido escolhida para a América por “ter medo de se render” e que Claudia fez questão de repetir que era “uma das melhores agentes de todas”. Isso é comportamento de um bom agente, por acaso?

Contudo, felizmente a situação foi um pouco amenizada com a cena final, sem dúvidas a melhor do episódio. Elizabeth esquece suas fraquezas e resolve peitar sua superior (pelo visto não fui só eu quem ficou com uma pulga atrás da orelha com Claudia), acusando-a de odiá-la e querer mandá-la de volta para Moscou. A desculpa de Claudia, que amava Zhukov foi muito mirradinha e, assim como Elizabeth, também não acreditei em uma palavra. A conclusão que Elizabeth tirou é que Claudia a odeia (talvez por aquele soco na cara lá no início da temporada) e não tardou em ameaçar: “isso não vai terminar bem para você, sua velha”. Mas esse tipo de retórica rala não atinge Claudia, que permaneceu impassível, quase desdenhando da jovem aprendiz (já disse como adoro a interpretação de Margo Martindale?). “Você ainda tem muito a aprender”, concluiu.

Sobre os flashbacks, tivemos a confirmação de que a relação de Elizabeth e Phillip nunca foi tão boa. Em todos os encontros com Zhukov, a protagonista se queixava ou deixava transparecer sua infelicidade. Nem com um filha de três anos e uma segunda gravidez ela parecia feliz. Situação esta que mudou radicalmente nos últimos anos e evoluiu para um sentimento real, como já pudemos ver em episódios anteriores e com a inquietação gritante de Elizabeth quando Phillip declarou estar indo para um apartamento (que simboliza algo definitivo e muito mais que uma pausa na relação). Contraditoriamente, vimos um Phillip resignado com a situação, sem mais demonstrar ressentimento, e uma Elizabeth arrependida e cada vez mais apaixonada.

Podemos dizer, enfim, que Covert War foi dedicado a Elizabeth – as outras situações foram todas pontuais e não influíram no tema central do episódio (comentarei algumas nas observações abaixo). Pena que o episódio não aproveitou todo o potencial da ótima personagem e tenha sido, certamente, o mais morno de The Americans até agora. Sem muita tensão, sem muitos destaques e com uma direção e edição bem vanilla (diferente da obra de arte vista em episódios anteriores, especialmente em Gregory), o penúltimo capítulo da temporada mais promete – o “aquecer” da guerra, a briga com Claudia, a promoção de Nina – do que cumpre. Apenas na cena final, com o já comentado embate entre Claudia e Elizabeth, foi que Covert War me fisgou. E isso já foi mais que suficiente para eu esperar ansiosamente pelo capítulo da próxima semana.

Pensamentos finais:

– Não entendo como uma série em geral tão caprichada faz flashbacks tão sofríveis. A Elizabeth de 1964, 1971 e 1973 não parece um dia mais jovem que a de 1981.

– Quanto tempo para Gaad ligar os pontos e desmascarar o casal principal? Eu chuto a season finale. Definitivamente o policial ficou encabulado com a declaração de Patterson, dizendo que foi capturado por um casal. “Então, um homem e uma mulher?”, fez questão de confirmar, ao interrogar o ex-refém dos soviéticos.

– Nina agora é tenente sênior e já tem a missão de ouvir as conversas de Caspar Weinberger, o secretário de Defesa Americano que teve seu escritório grampeado lá em The Clock (1×02). Coisa básica.

– Clarck já conhece os pais de Martha – a relação está mais séria do que nunca (já há até testemunhas). Impagável mesmo foi a cara de “como assim?” que Phillip fez com a situação.

– Não descobri ainda a utilidade da cena do cara urinando na cerca em frente ao motel e Phillip mandando ele “guardar o bagulho”. Do mesmo jeito a cena em que Matthew chega maquiado em casa e diz que não é gay. Explique-me se você entendeu.

– Se eu achei que a condução técnica de Covert War deixou a desejar, pelo menos o roteiro nos encheu de referências aos anos 80, como não se via há muitos episódios:

 – Quando Sandra liga da boate para Matthew, ouvimos Slap and Tickle, música lançada em 1979 pela banda britânica Squeeze.

 – Na jukebox, Patterson escolhe Rough Boys, música lançada por Pete Towsnhend em 1980.

 – Phillip assiste com as crianças a um episódio de Mutual of Omaha’s Wild Kingdom, um documentário sobre natureza e vida selvagem estrelado por Marlin Perkins, que foi ao ar entre 1963 e 1988.

– Matthew foi assistir The Rocky Horror Picture Show, musical de horror lançado em 1975, estrelado por Susan Sarandon, que causou muita polêmica à época e foi banido em muitos cinemas, por seu conteúdo explícito.

– Caspar Weinberger foi realmente o secretário de defesa de Reagan, entre 1981 e 1987.

Frases marcantes:

– Claudia, sobre o FBI: “Monstros, é isso que eles são. Assassinos com distintivos federais”.

– Sandra, decretando o fim de seu casamento: “Não existe tanto bandido no mundo que justifique essas horas que você fica depois do expediente. Você se transformou no oposto do homem que eu casei. […] Estou cansada de me enganar sobre você e sobre esse casamento nesses 19 anos e meio. Você transformou minha vida em algo inútil.”

– Zhakov, sobre sua vida “Eu não tenho mais histórias para contar, já perdi meu caminho há muito tempo. Eu vivi para o meu trabalho e agora eu sinto falta do que nunca tive”.

– Gaad, sobre a Guerra “Fria”: “Eles nos matam, nós matamos eles. Este é o mundo em que vivemos. Mas, mesmo neste mundo, há limites que não podem ser ultrapassados. Não haverá santuário, não haverá segurança, nem nos próprios lares deles. Nós os acharemos e nós os mataremos. Essa guerra não é fria. Não há nada de frio nos insultos violentos trocados entre EUA e URSS. Eles mataram não só nossos agentes, mas nossos cidadãos. E por isso, eles pagarão”.

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