Serviço de utilidade pública: se você for cozinhar batata no micro-ondas, faça furinhos nela antes, senão ela explodirá em sua mão e adiará sua caminhada pelo parque.

Spoilers Abaixo:

Embora eu não entenda muito bem a relação entre mão machucada e impossibilidade de fazer caminhada, essa decisão de Arkady potencialmente salvou sua vida. Ao mesmo tempo, sentenciou capitalmente o jovem KGB Vladmir Kosygin, vítima da tensão crescente entre KGB e FBI e que, assim espero, será o estopim para um imbróglio diplomático de difícil solução.

Ainda sem engolir a morte de três agentes seus, Gaad arquiteta a morte do rezident soviético – mas tudo por debaixo dos panos, sem respaldo oficial. E se assim era, não vejo sentido no fato de o chefe do FBI sair falando de seu plano ultrassecreto no almoço de domingo na casa dos Beeman. Mas tudo bem, relevemos. Neste momento, me pareceu correta a reação de Stan em não participar do plano – afinal, ele sempre se mostrou mais racional que Chris – inclusive no quesito “sexo oposto”: Chris não hesitou em dar uma boa checada em Elizabeth, logo querendo saber quem era, mal sabendo que viveria as últimas horas de sua vida frente àquela mulher.

Pelo visto, Stan não é lá muito cuidadoso mesmo: até Martha já sabia que Gaad planejava matar um KGB e, claro, foi diretamente contar para Phillip/Clark, sem ele nem precisar perguntar (como ela mesma disse ao namorado, “eu te amo e faço qualquer coisa por você”). Phillip só não esperava pela espreita de Chris do lado de fora do apartamento da moça. Aí eu tenho a mesma dúvida que o protagonista: será que Chris já desconfiava do mistério de Clark ou suas ações eram movidas pelo ciúme? Claro, vimos no episódio anterior que Chris estava com uma pulga atrás da orelha em relação a Martha, mas sua pouca racionalidade e agressividade logo no primeiro contato com Phillip me pareceu dor de cotovelo. Aí, mais um descuido para somar aos outros do episódio: os dois começam a brigar no meio de uma rua movimentada, como se estivessem no deserto. Providencial mesmo foi ninguém ter visto a briga e, depois, Phillip arrastando o oponente para dentro do carro. Mas, novamente, releva.

A partir deste momento, o episódio ficou realmente tenso e assim permaneceu até o final. Vimos, então, a dupla protagonista literalmente sem saber o que fazer com Chris (foi um “screw up” total, disse Phillip) e um Stan preocupado e motivado a vingar o desaparecimento de seu parceiro (“eu quero mais é matar uma dúzia de soviéticos”, deve ter pensado). No caso de Phillip e Elizabeth, tanto eles não sabem o que fazer que tentaram manter a vida do capturado, aplicando-lhe morfina, dando-lhe água e abstendo-se de torturá-lo (naquele primeiro momento). No caso de Stan, o desespero já estava tão grande que, mesmo sem confirmação de que Chris tinha sido mesmo raptado pela KGB, mudou de ideia e resolveu sequestrar o primeiro soviético que passasse pela sua frente, não importando quem, na esperança de usá-lo como instrumento de troca pelo seu parceiro. Sobrou para Vlad.

Aproveitando o tema, devo elogiar enfaticamente Noah Emmerich, o intérprete de Stan. Sem dúvida esse episódio foi dele. O agente do FBI apareceu visivelmente atormentado com a situação, irritando-se até mesmo com Nina (que não tinha como ter informações sobre o rapto de Chris). A cena em que esbraveja em Vlad a metáfora do pássaro que se finge morto foi bastante expressiva, passando todo o ódio que estava sentindo. Após encontrar o cadáver de Chris (que não conseguira resistir ao ferimento abdominal), o policial já não podia se conter. Na sequência final, vimos um Stan cruel, que contemplava o corpo caído de Vlad (após matá-lo com um tiro pelas costas) com um olhar quase psicopata. No canto da boca, um esboço de sorriso e satisfação pelo óbito de um inocente que merecia morrer simplesmente por ser soviético, por ser do povo responsável pelo fim da vida de seu colega. Este momento parece ser um turning point, uma virada, o momento em que Stan breaks bad, para usar a expressão americana.

E assim acabou Safe House: uma cena forte que gera uma enorme expectativa para as próximas semanas. Como disse Gaad, o FBI agora se mobilizará inteiro para localizar e matar o responsável pela morte de Chris. Certamente, a KGB também não ficará de braços cruzados e retaliará. E cada vez a situação vai ficando mais complicada e belicosa – e a guerra não está mais tão fria assim. Consultando a História, sabemos que um conflito de grandes proporções não explodirá, mas as ameaças e a tensão constante já são um prato cheio.

Em um capítulo de muitos acontecimentos, ainda fomos mostrados às primeiras consequências da separação dos protagonistas. Será que a KGB sabe que não estão mais juntos, ou Phillip e Elizabeth estão enganando Claudia e companhia? Acho que isso não vai ter repercussão futura, mas nunca se sabe. Quanto aos filhos, Paige reage a la adolescente, fechando a cara e fazendo birra. Henry, por sua vez, se mostra profundamente abalado e não consegue ir para a escola. A cena dele no quarto com o pai, ao pé da porta, dizendo que o ama foi realmente emocionante e a dúvida do garoto é válida: “vocês vão parar de nos amar?”.

Embora válida, a discussão sobre o drama familiar foi ofuscada nesse episódio. Os últimos momentos de Chris e o desespero de Stan tomaram a atenção do espectador, que sofreu junto durante aqueles minutos e fez esquecer os pequenos descuidos dos personagens e as providenciais coincidências. Talvez pela empatia que Maximiliano Hernandéz trazia a seu personagem, que ninguém esperava que morresse tão cedo, e pela já elogiada atuação de Noah Emmerich, pela primeira vez desde a estreia me vi identificado com a agenda do FBI e passei a, de certa forma, torcer por aquele grupo de policiais. Agora vai ser difícil lidar com isso, pois ao mesmo tempo torço por Phillip e Elizabeth – como conciliar?

Observações:

– Aquela história de Chris, dizendo conhecer Elizabeth antes num bar era efeito colateral da morfina ou era estratégia de guerra? Acho muito difícil ele não ter se lembrado daquela moça que vira no almoço dos Beeman…

– Os momentos em que Stan se lembrava de seu colega renderam ótimas cenas. Sobre os soviéticos, ele diz: “Vocês perderão essa guerra, vocês sabem disso, certo? Vocês podem me torturar e me matar, mas nós vamos chutar a bunda de mármore de sua terra mãe, e você não pode fazer nada a respeito”. Sobre mulheres, completa: “Eu não tenho falhas, não tenho família, não tenho filhos, não tenho esposa, não tenho vícios. Só uma atração por vaginas”.

– O rezident exclama seu ódio pela tecnologia americana, mas não hesita em usá-la para assar a batata.

– Sobre a Revolução Americana, Henry ensina: “A América ganhou”.

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