“Vocês, do FBI, têm coração de policial, certo? Eu me pergunto se entendem os espiões. Vocês querem o que, botar Arkady e a Rezidentura na cadeia? Isso é pensamento de policial, não de espião! Nós, nós queremos que todos fiquem no seu lugar e sangrem tudo que sabem. Para sempre.” – Nina

Spoilers Abaixo:

Assim como em Comint (1×05), o capítulo dessa semana de The Americans tem função preparatória, trazendo algumas linhas narrativas que certamente serão importantes nessa reta final da primeira temporada. O que, como sempre, não se traduz em um episódio ruim: nesta semana, Philip e Elizabeth tiveram a missão de localizar e “neutralizar” um assassino contratado pela KGB para matar 14 cientistas americanos (aqueles que estavam desenvolvendo sistemas antimísseis). Contudo, do dito cujo não se sabe nome, idade, localização, nada – que se virem os protagonistas para cumprir a missão. Se isso não é um grande plot para séries de espionagem, o que é?

Daí se desprende um fato interessante: a KGB se arrependeu de ter contratado o assassino. Como explicou Claudia para Elizabeth, “nem todo mundo concorda em sair matando americanos a qualquer custo”. Mas voltar atrás é uma decisão arriscada que, sem dúvidas, denota que há problemas no Centro. Já vimos isso anteriormente: a ordem de matar Udacha, no quarto episódio, veio de cima, a contragosto da Rezidentura nos Estados Unidos. Tais situações dão pistas de um problema que pode ser fatal e, se aumentar de proporções, com certeza será motivo para que os ânimos de deserção de Philip renasçam. Olhando por outro ângulo, me pergunto se a série se aprofundará mais na burocracia, desorganização e luta de egos que ocorria na KGB e no Partido Comunista, que acabou por minar a União Soviética – pelo menos no âmbito da Rezidentura americana, para não fugir muito ao tema. Assim espero, pois seria algo bem interessante, não acham?

Voltando ao episódio, já estou ficando repetitivo ao afirmar que a parte de espionagem de The Americans não decepciona. A ideia de Philip e Elizabeth, de explodir o carro de um cientista avulso, foi uma ótima maneira de chamar atenção do governo americano para que protegesse suas mentes brilhantes. E, se o FBI não mandou um segurança para cada cientista, pelo menos começou a procurar informações sobre todo mundo que entrara no país ou que emitira um passaporte naqueles últimos dias – uma montanha de papel sem fim (como era difícil ser espião antes da informatização do mundo!) – o que não impediu que a polícia federal americana separasse fotos de algumas pessoas suspeitas, prontamente repassadas aos soviéticos por Martha (mais sobre ela alguns parágrafos abaixo).

Juntando essa informação com a do fornecedor de bombas, que disse ter entrado em contato com um “gordinho” (e, por falta de identificação, é assim que vou chamá-lo), não foi muito difícil para o casal espião juntar as pontas soltas. Dessa cena, destaco a garotinha empunhando a arma (quem não se chocou?) e a volta daquela peruca a la Lenine que Philip utilizara na première. Pois bem, mais uma vez Philip e Elizabeth mostram sua presteza: assim que Gordinho entra no seu quarto de hotel, lá está o casal, alertando-o de que a ordem foi revogada. Como ele não volta atrás, o tiroteio começa e, em uma cena realmente nervosa e bem feita, explode Gordinho para tudo quanto é lado. Todo o seguimento demonstrou como a produção é competente em fazer cenas de ação: a tensão começara minutos antes, quando Gordinho instala uma bomba no rádio do segurança do cientista (será que ela vai explodir?) e permeia toda a sequência, atingindo seu ápice quando, no último segundo, Elizabeth desesperadamente “se livra” do explosivo que acabaria por matar o assassino profissional.

Eu já tinha me esquecido da bomba instalada no rádio do segurança do cientista quando a casa explode ao final – matando, além do cientista, três policiais. Philip e Elizabeth pararam o assassino, mas não em tempo hábil. Como muito bem explicou Elizabeth, eles (o casal, não a KGB) falharam em sua missão (interessante notar a fidelidade dela à causa: para ela, a culpa não é da KGB, que mudou de ideia; é do casal, que não fez seu trabalho direito). E o Centro, certamente, não esquecerá dessa falha.

Pois bem, se o plot de caça ao Gordinho foi divertido, em grande parte por trazer tudo do kit-espionagem (mensagens codificadas, roubo de dados, perucas, bombas, informantes e explosões), o melhor foram as implicações como um todo, afinal, Gordinho morreu e ninguém mais se vai se lembrar dele daqui a um piscar de olhos. Mas que implicações?

Primeiro, o baque que foi a notícia no FBI: foi tocante a tristeza de Gaad ao anunciar aos seus que um colega tinha morrido – “eles vão pagar por isso, juro por Deus!”, exclamou. Em seguida, presenciamos a revolta de Chris (“nós temos tanques, aviões, ninguém vai usar?”). Me arrisco a dizer que isso foi o gatilho para que ele desconfiasse de Martha e passasse a segui-la, levado pelo sentimento de “eu tenho que fazer alguma coisa” (“se ninguém vai começar a guerra por conta de um FBI morto, acharei um motivo!”, é o que eu acho que ele pensou). Claro que a dor de cotovelo com o pé-na-bunda que levou de Martha ajuda, convenhamos.

E é bom que Martha abra o olho. Cada vez mais apaixonada por Clark/Philip, facinho, facinho, ela caiu na conversinha mole dele. Além disso, ela se mostra cada vez mais desleixada (a não ser quando o assunto é proteção – moderninha que só, tem seu próprio estoque de camisinhas no criado-mudo), entrando mil vezes por dia na sala de Gaad para coletar informações. Assim fica fácil de Chris surpreendê-la fazendo algo que não devia.

Segundo, a importância de Nina a partir de agora. Para que Gaad possa cumprir sua promessa de vingança, a informante é indispensável. Tanto ele sabe disso que deu um lugar seguro para que ela e Stan se encontrassem. Fiquei em dúvida, pois não acho que seja mais seguro encontrar uma pessoa tão importante SEMPRE no mesmo lugar. Ou então Gaad já sabe da situação do casal e tratou de garantir um lugar para que pudessem ter suas relações sem serem pegos. Mas o importante é que agora Nina foi promovida (e olha eu sendo enganado de novo! – jurava que Arkady tinha descoberto o esquema e iria demiti-la), mostrando que é mais que um rostinho bonito (vide a frase que abre essa review). Por conta da promoção, possivelmente terá acesso a arquivos do Diretório S, ganhando um grande poder de barganha junto ao FBI.

Terceiro, o drama conjugal. Durante toda a execução do plano de espionagem, Elizabeth e Philip trocaram farpas entre si. Disso eu não gostei muito. Achei que o roteiro estava começando a, como se diz informalmente, forçar a amizade com tanta DR e raivinha ao longo do episódio, como se faz em séries adolescentes – nem pareciam espiões (soviéticos!). Quem fez como manda a cartilha foi a ótima Claudia que, pensando no futuro da missão e considerando que Elizabeth é mais confiável que Philip, tratou logo de revelar a “traição” (?) do marido, para que Elizabeth engolisse o romantismo e seguisse com seu trabalho.

Se eu não gostei da jornada, eu gostei do resultado. Elizabeth atribuiu a falha do casal ao fato de terem ficado excessivamente emocionais e cravou logo que deveriam se separar. Afinal, o país é moderno, o Centro nem vai se importar com isso. E como foi boa essa reviravolta! Uma separação do casal – mesmo que temporária – pode ter várias ramificações interessantes. Por exemplo, certamente se refletiria no outro lado da rua, visto o já conturbado casamento dos Beeman. Além disso, poderia significar a chance de as crianças terem um enredo para chamar de seu – e não aquele fajuto e sem graça do sequestrador de mentirinha de Trust Me (1×06). Ainda, traz de volta a Elizabeth que eu me afeiçoo mais: decidida e prática.

Por tudo isso, Mutually Assured Destruction é bem melhor pelo que preludia do que pelos seus próprios acontecimentos (que, em geral, também foram bons). Como já disse, o caso da semana foi divertido, mas a possiblidade da separação, a premente descoberta do “trabalho duplo” de Martha e a ascensão de Nina prometem, e muito.

Observações:

– Como sempre, neste episódio ouvimos músicas que estouraram no início dos anos 80. Na cena de sexo entre Martha e Clark, ouvimos Love Will Find a Way, música de 1978 do cantor Pablo Cruise. Ao final do capítulo, ouvimos Siamese Twins, do The Cure – e pela primeira vez a música é de depois do tempo em que se passa a série: só foi lançada em 1982, no álbum Pornography.

– Alguém se importa com a possível relação de Paige e Matthew? Ô garotinho sem graça, viu!

– Trair a trabalho pode, mas fora não, né, dona Elizabeth? Ah, tá.

– Só eu que achava que 1981 não tinha metade da tecnologia que a série mostra? Que mundo evoluído, esse com bombas ativadas por controle remoto e câmeras escondidas!

– Fico me perguntando como a peruca de Philip não cai enquanto ele faz sexo com Martha. Supercola?

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