
“Vocês americanos pensam que é tudo preto e branco. Para nós, é tudo cinza”.
Spoilers Abaixo:
1×05: Comint
Depois do excelente In Control, The Americans traz, em sua quinta semana, talvez o episódio mais lento e menos tenso até agora. Não que isso seja um grande defeito: o capítulo serviu como preparação para os eventos porvir e trouxe diversas cenas que, embora não tirassem o fôlego, foram bastante significativas.
Fomos apresentados a Udacha, um atormentado agente da KGB que perdera sua esposa. De tão avulso que era, confesso que não me importei muito com seu destino – provavelmente ele iria morrer mesmo. O personagem meio que ficou em segundo plano e, indubitavelmente, foi Elizabeth quem roubou a cena. Se na review passada eu critiquei sua momentânea fragilidade, agora a personagem volta com sua força e profissionalismo lá do piloto – sem precisar de ninguém para salvá-la. É assim que ela – sem levantar suspeitas – se finge de gerente do programa de defesa balística americano (o tal Comint), até pedindo para Udacha checar suas credenciais novamente. É assim que ela é espancada pelo empresário da empresa de segurança, mas sem sair do personagem. É assim que ela rejeita, depois, a ajuda do marido no cavalo branco. É assim que ela troca o circuito de monitoramento do FBI e entra e sai de um porta malas por si só, resolvendo seus próprios problemas (o “até mais” supernatural na porta do quartel é fichinha para quem vive de aparências). Por fim, é assim que ela mata a queima roupa o perturbado Udacha, sem pestanejar, sem ceder – graças! – a um sentimentalismo que ameaçara tomar conta de The Americans.
O outro destaque de The Americans também foi feminino. Nina finalmente mostrou a que veio, vestindo a roupa da informante e assumindo o risco. Nem que tenha que “procurar alguma coisa embaixo da mesa” juntamente com Vasilli para descolar suas informações – tudo com muito profissionalismo (vide a expressão impassiva de seu rosto após limpar a boca com o chazinho). Agora surge uma dúvida quanto às suas motivações: claro que Nina quer ser exfiltrada e ir para um lugar seguro, mas a direção claramente nos quis fazer acreditar que há uma fagulha entre ela e Stan. A troca de brincadeiras, os olhares desejosos… Tudo indica que eles dois serão um item – ainda mais considerando a crise conjugal que atinge a residência de Stan.
E Martha? Será que renderá algo de importante? Sabemos que ela está caidinha por Philip – ou melhor, Clark (o que facilita bastante caso ele queira arrancar alguma informação a mais dela). Tirando as mulheres, nada de muito destaque – fora as perucas de Philip (eu estou me repetindo, mas essa que ele usou dentro do carro foi a pior de todas!) e o fato de que Stan e Philip continuam jogando seu raquetebol – o que pode ser um problema, vendo que o russo começa a baixar sua guarda e aposentar a pulga atrás da orelha que tinha em relação a Stan. Quanto ao enredo da série em si, de importante foi a descoberta sobre o mole na KGB. De acordo com a polícia soviética, os sleeper agentes devem usar todo e qualquer meio para descobrir o infiltrado. E é isso que estou esperando: ver os meios, por mais nefastos que possam ser, que KGB (e FBI) usam. Cumpra sua promessa, The Americans.
1×06: Trust Me
A tensão está de volta em The Americans. Trust Me foi um dos melhores exemplos do quão instigante e inteligente essa série pode ser. O episódio transladou ao redor de três núcleos principais que funcionaram de maneira bem diversa. Portanto, os analiso separadamente, do menos para o mais interessante.
A história das crianças deixadas no estacionamento do shopping não teve muito sentido para mim. Claro que os roteiristas queriam aprofundar a personalidade delas e trazer a metáfora de como Paige é corajosa como a mãe e Henry é protetor como o pai. Entretanto, achei que careceu um clímax à sequência, uma urgência maior. O potencial sequestrador não era um ator tão bom assim, e não convenceu muito. A situação toda foi permeada por diálogos rasos, clichês. Contudo, não significa que não tenha sido bonito de se ver. Mais uma vez elogio a direção de arte de The Americans: as tomadas de baixo, a câmera contra o sol e as árvores secas formaram cenas lindas. Por sua vez, o foco nos detalhes – como na garrafa de cerveja e no farol do carro do “sequestrador” – deu um ar de suspense genuíno. Da cena, ainda se aproveita o fato de que as crianças agora também guardam um segredo – tal qual seus pais, em uma proporção bem menor.
Em seguida, as cenas com Philip e Elizabeth foram bem mais instigantes. Logo no início, quando Philip falava com Martha ao telefone, já cantei a pedra de que o sequestro era uma operação interna – afinal, eles não seriam desmascarados tão cedo. Mas as cenas foram deveras instigantes: me assustei com a abdução em praça pública do marido e com o soco na cara que a esposa levou – como foi tenso! Logo uma dúvida surgiu em mim: por que só torturaram (fisicamente) Philip, e não Elizabeth? E sem demora veio a resposta: Elizabeth, exemplo de espiã, reportou a seus chefes que o marido “gostava demais de lá”. Por isso a suspeita era menor em relação a ela. Por isso também minha surpresa com a reação explosiva da moça ao arrancar uns nacos do rosto de Claudia – ela se sentiu tão traída assim ou foi tudo um teatro para acalmar os ânimos de Philip? Não sei se confio nela, mas dessa vez parece estar realmente injuriada com sua terra mãe, o que pode ser um pontapé inicial para o casal começar a desertar de sua missão, como já se insinuara alguns episódios atrás. Mas primeiro, ela terá que reconquistar a confiança do marido – que parece ter dado o colar para Martha mais como forma de vingança ou picuinha do que qualquer outra coisa. E se ele descobrir que Elizabeth foi novamente buscar ajuda de Gregory, aí que o negócio desmorona.
Por fim, o clímax do episódio foi centrado no FBI. Pela primeira vez The Americans mostrou a polícia americana como A polícia capaz que vemos nos filmes – até agora, o departamento federal de investigação só acumulava derrotas, como a do episódio passado. Da desconfiança inicial com a morte de Adam Dorwin (Udacha) até o intricado plano final, tudo evoluiu muito rapidamente e confesso ter sido pego de surpresa. Fiquei me perguntando para que Stan queria que Nina tirasse fotos de qualquer documento secreto – para que serviria qualquer documento? E os diamantes apreendidos? E as ligações aparentemente sem sentido de Theo? Mas tudo se encaixou: Vasili, o Rezident soviético, foi muito bem incriminado, descoberto pelos seus compatriotas com uma câmera cheia de fotos suspeitas e pedrinhas de diamante juntas com seu chá – ele que, coitado, terminará com uma bala na cabeça. Muito bem Gaad, Stan & Cia.: a informante continua incólume e, até a KGB descobrir isso, dá para fazer um estrago grande.
Disso tudo, quem está infeliz é Nina, agora ainda mais desesperada por sua exfiltração – que não deve vir tão cedo. Até por que Stan está cada vez mais ligado e preocupado com a moça, e não deixará ela escapar de suas vistas, para infelicidade da esposa que fica em casa. Infeliz, com certeza, não é o espectador de Trust Me que, salvo o enredo das crianças e um exagerozinho na trilha sonora acolá, trouxe mais um episódio interessantíssimo.
1×07: Duty And Honor
Se no episódio passado, The Americans deixou as relações pessoais um pouco de lado em favor da espionagem, esta semana o tema voltou com tudo – e da maneira profunda que estamos acostumados. A frase que abre essa review, dita por Nina para Stan define muito bem isso: os russos são, realmente, cinzas. É difícil ter certeza sobre o que estão pensando, sobre o que estão fazendo. Mais uma vez (tal qual no capítulo anterior), fui pego de surpresa e enganado por uma atitude dos soviéticos. Enquanto isso se percebe que os americanos, pelo menos conforme retratados no seriado, são mais diretos, mais instrumentais: para Stan, trair a mulher é cruzar um limiar, é pensar em consequências. Para Nina, não precisa ser nada, não é o que parece. Para ela, nada muda. Para Stan tudo: já falou com seu superior sobre uma exfiltração (repito: improvável) e, nos próximos capítulos, certamente veremos repercussões no seu já reticente casamento.
Também é terreno cinzento a relação de Philip com seu passado. Em mais um flashback em que as pessoas não parecem mais novas (não entendo um seriado tão caprichado pecar tanto quando volta ao passado), somos apresentados ao tempo que Philip era Mischa, e era apaixonado por Irina, agora Anne. O reencontro dos dois no presente trouxe revelações, como o fato de Philip ter um filho – que já vai para a faculdade (pelo menos eu acreditei que Anne estivesse falando a verdade). Na mesma cena, quem não se retorceu na cadeira quando o protagonista abriu a mão e começou a estapear Anne? “Nisso, definitivamente ele ainda não é americano”, pensei. Na verdade, tudo fazia parte da “missão da semana” (mais sobre isso abaixo), mas eu caí como um patinho.
Continuando com as nuvens carregadas, se, ao assistir o episódio anterior, julguei que Philip ficaria com raiva de Elizabeth pelo “incidente” com Claudia, agora vi que foi o contrário: ela o culpava por tudo o que aconteceu. Mas dali para frente quer que tudo seja “real”. “Real” mais ou menos, pois Philip categoricamente negou para a esposa que algo tenha acontecido com Anne (e ocultou o fato de ter um filho). Se tem mentira (sempre tem!), não é “real”. E se ele não revelou a verdade, não será que é por que ainda há algum sentimento guardado pela Irina de sua juventude?
Quanto à “missão da semana”, na verdade, foram duas. Elizabeth se encarregou de Sanford Prince, informante de Udacha, um viciado em jogos que devia uma fortuna – mas que já deu inteligência sobre uma nova descoberta do Livermore Labs relacionada a lasers. O que será? Acho que a importância de Prince para por aí – quem sabe ele morra no próximo episódio – mas a história dos lasers tem tudo para ser interessante.
Em seguida, Philip e Anne se encarregaram de Andrzej Bielawski, um ex-heroi do partido comunista que quer fazer uma revolução na Polônia. Mais uma vez o plano da KGB para incriminar alguém foi muito bem elaborado: a sedução de Anne, o roubo da bolsa no parque, os machucados, o “boa-noite cinderela”, o sangue nos lençóis… Tudo soma para que o herói da resistência fosse na verdade um estuprador. Revolução abortada, mais um ponto para a KGB.
Em suma, o ponto nevrálgico de tudo é o binômio que dá nome a este episódio: dever e honra – os mais elevados valores para os militares. Olhando assim, parece uma relação simples, binária: ou você obedece, ou não; ou você é honrado, ou não. Entretanto, esse “preto e branco” não funciona na bagunça e ambiguidade da vida cotidiana. O dever profissional pode conflitar com um senso de honra pessoal, ou vice-versa, ou ainda, “deveres” podem ser conflituosos. Como contrabalancear o dever de servir à KGB com o de proteger a família, por exemplo? Essa é a pergunta dos protagonistas. Por enquanto, está tudo cinza.
Observações:
– Como Nova Iorque era violenta e desorganizada antes da política de tolerância zero do governo Rodolph Giuliani: a primeira reação de Henry quando o pai volta da cidade é perguntá-lo: “você viu algum vagabundo ou traficante pelas ruas?”.
– Interessante notar como os espiões já devem estar preparados para tudo: havendo hematomas, bata o carro numa árvore para justificar. E não se abale com isso.
– O diálogo entre Elizabeth e Claudia no parque no episódio 1×07 foi memorável. O ódio escorria pelo canto dos lábios de Elizabeth, mas “Granny” não deixou barato: “Eu me arrependo de não tê-la matado”, disse Elizabeth. “Boa sorte da próxima vez! Não se jogue em frente ao trem, Nadezhda!”, retrucou Claudia.















