O grande desafio de se fazer obras midiáticas que retratam um certo período é a atenção a veracidade histórica. A narrativa, os personagens, a trilha sonora e até o visual não serão o suficiente se o contexto da época retratada seja respeitado nos mínimos detalhes. Outro grande desafio é imbuir criticas aos tempos atuais dentro desse contexto, criando uma ligação imediata com o espectador. Esse link entre duas épocas distintas em conjunto com o primoroso trabalho de época não são, felizmente, problemas para The Alienist, que desenvolve ainda mais a relação dos personagens em A Fruitful Partnership.
Lados opostos. Esse foi o mote (e provavelmente continuará sendo) da segunda parte apresentada pela série. Óbvio que numa escala muito mais complexa do que o maniqueísmo básico do preto no branco. Na Nova York do período tudo é cinza, que permeia tudo e todos, num jogo não pela vitória, mas pela desestabilização da harmonia de uma cidade que é uma caldeira prestes a explodir.

De um lado temos uma elite abastada que se aproveita deliberadamente de seus serviçais e se diverte em óperas e jantares regados a requinte e champanhe. Do outro temos os cortiços fervilhando em pobreza e revolução. O interessante é que na interseção entre os dois polos estão os bordéis. São nesses microcosmos que os habitantes das duas esferas sociais se encontram e tais encontros servem para expor ainda mais os tons de cinza da cidade.
O grande mistério dos assassinatos ganhou mais camadas. Dois novos casos relacionados foram adicionados ao já bizarro rol. O padrão de vítimas já começa a se mostrar e com isso Kreizler começa a montar um plano de ataque. Interessante notar que não há muita diferença entre o doutor e o assassino no quesito psicológico da coisa. Ambos estão comprometidos ao seu trabalho, ambos têm seus padrões e métodos e um certo desprezo por regras e pelas pessoas envolvidas com elas. Isso fica notável no modo que o personagem simplesmente passa por cima de tudo, manipula e condiciona comportamentos para que seu plano dê certo. Kreizler pode ser tão perigoso quanto aquele que procura com tanto afinco.

A tensão entre John e Sarah só aumenta devido a esse modo nada contido do alienista. Há uma certa conexão entre os dois. Do lado dele algo que nutre desde a infância com pontadas de interesse sexual. Do lado dela a vontade de se firmar num mundo masculino e provar seu valor, quando este já foi notado por quem merece. Isso acaba colocando John em maus lençóis, já que no imperativo de ter um lugar na parceria frutífera do doutor, ele acaba se afobando e mesmo descobrindo novas peças de informação pagará um preço não tão agradável assim.
The Alienist é uma série que se desnuda. Como bem retratado na abertura, em que Nova York vai se desfazendo até restar suas estruturas internas e alicerces, a narrativa vai expondo as entranhas (físicas e emocionais) de seus personagens. Além disso vai focando em pontos de discussão modernos (a corrupção e a conivência policial e o desprezo das parcelas mais pobres da sociedade pelos ricos), construindo uma obra ainda mais preocupada em contextualizar enquanto entretém. Até semana que vem!
PS 1: Mais um personagem histórico real deu as caras na série, J.P. Morgan que foi o fundador de um dos maiores bancos americanos;
PS 2: Os irmãos Isaacson são os responsáveis pelos momentos CSI da série. Em A Fruitful Partnership tivemos a identificação da “possível” arma do crime do uso de impressões digitais;
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PS 3: Os primeiros levantes comunistas deram as caras. E de quebra ainda rendeu uma “one night stand” pra um dos Isaacson.






















