Sempre há possibilidade para um novo ponto de vista.

Há um ano, o Showtime lançou uma série que, em princípio, soava despretensiosa, mas que se tornou a grande novidade da fall season. The Affair não veio apenas para falar de um caso extraconjugal, ou de um assassinato, muito menos do que é ou quem está certo ou errado. A série emergiu com o objetivo de extrapolar esta barreira e jogar no público, batendo com força em nossas caras, o fato de que uma história pode ser vista de vários ângulos e a verdade é relativa, podendo moldar-se dependendo da forma que analisamos as evidências.

Passamos a primeira temporada conhecendo a construção do romance entre Alison e Noah e, através de seus olhares, pudemos entender o que levou ao envolvimento dos dois e como as famílias acabaram por se dissolver. Agora, com o caso estando às claras para todos, começamos a segunda temporada enxergando também através dos olhos daqueles que foram afetados pela traição: Helen e Cole.

E o que poderia ser um desastre, visto que tantos pontos de vista numa mesma história é potencialmente gerador de confusão, acabou sendo muito interessante. Falarei, inicialmente, apenas da premiere onde tivemos o já conhecido ponto de vista de Noah e, na segunda parte, os fatos sob o olhar de Helen.

A estreia teve o foco no divórcio de Noah e Helen e trouxe a grata surpresa de um Noah bem menos seguro de si. O escritor vem assistindo sua vida ruir desde os acontecimentos descritos na reta final da temporada passada e acaba por encarar a rejeição dos filhos, de Helen e até de si mesmo, quando muda o final de seu livro e vê suas chances de êxito se reduzirem, após conversa com o editor.

Noah só encontra paz ao lado de Alison. Mesmo quando vemos os dois em pouco tempo de tela, fica muito claro o porquê de ela ser sua musa. O difícil dia de Noah só não fica pior porque no seu fim pode encontrá-la e ter alguns bons momentos. Noah enxerga o mundo inteiro voltando-se contra ele e vê em Alison um porto seguro, o único lugar onde há beleza e serenidade, lindamente encenadas em sua dança final.

Já Helen apareceu bem mais vulnerável do que vimos na temporada anterior, o que faz todo sentido, visto que finalmente temos seu lado da história sendo contado. Aquela mulher fria e até arrogante da visão de Noah, desta vez, dá lugar para alguém que, apesar de demonstrar certa força, parece perdida em sua nova vida, onde sua única certeza parece ser a de que precisa proteger os filhos.

As consequências da traição e do divórcio iminente são devastadoras em Helen. A sequência do chuveiro, da conversa com Travor e da discussão envolvendo a mãe e Whitney são especialmente tocantes e mostram o lado humano que ainda estava escondido atrás do ponto de vista do marido. E o fato do flashfoward mostrar que ela realmente o ajuda no julgamento demonstra mais ainda este lado que ainda não tínhamos visto e que já está acrescentando muito à história.

Sensacional a analogia da tempestade se aproximando de Noah no fim de seu ponto de vista, uma metáfora do que está por vir em sua vida, assim como o olhar de Helen para a parede agora vazia, durante a tormenta que já a atinge. Estes detalhes, juntamente com as sutis diferenças de gestos, roupas e tons de fala são excelentes formas de mexer com nosso imaginário, fazendo com que pulemos de um lado para o outro, sem conseguir saber exatamente com quem está a razão, se é que há alguma.

A tensão se elevou muito no segundo episódio, quando pudemos ver as consequências da separação de Alison e Cole. As mudanças dos dois vão muito além de questões práticas como quem fica com o quê. O abalo emocional está à flor da pele e é tão forte que ao assistir, conseguimos quase que sentir junto. E aqui tenho que mencionar a obra-prima que é a atuação de Ruth Wilson e Joshua Jackson, que me causaram arrepios em várias sequências do episódio.

Alison se mostrou, o tempo todo, em busca de reconstrução. Apesar de ter deixado sua vida pra trás para embarcar em algo que lhe fazia genuinamente feliz, ela ainda não parece encaixar-se em sua nova realidade, tudo soa forçado e sem sentido. Não à toa ela passa boa parte do episódio procurando algo que desse tal significado, embora ainda tenhamos em sua visão as barreiras impostas por todos à sua volta, inclusive Noah.

Fico me perguntando até que ponto a fragilidade de Alison é condizente com sua realidade. Todas as suas memórias são de dor, mesmo em momentos supostamente mais felizes, como o do fim do dia com Noah. Alison teve uma vida cheia de traumas e sua postura defensiva faz bastante sentido, porém parece que aqui há uma forçação de barra em torná-la vítima de tudo, incluindo quando Helen arruma o advogado para Noah. Claro que isto faz parte do seu ponto de vista e, mais uma vez, temos distorções dos fatos, mas, cada vez mais, este lado da história me parece o mais controverso.

E o episódio encerra sob o olhar mais complexo e doloroso de todos. Cole parece ter absorvido com maior intensidade os impactos relacionados ao caso de Noah e Alison. E isto faz muito sentido, considerando que, além da traição e do casamento desfeito, ainda tem todo o drama familiar com a morte de Scotty e a ruína financeira da família. Ainda assim, Cole parece ver Alison da mesma forma que Noah a vê, como aquela pessoa que traz segurança a ele.

É palpável a esperança de Cole ao ver a ex em sua frente, seguindo a vida. Mesmo com a traição, Cole enxerga Alison como a única forma de seguir em frente, tanto que toda sua vida está desmoronando, mas só após suas interações com ela que ele parece conseguir um pouco de tranquilidade. A cena no carro, em que consegue finalmente dormir é uma demonstração clara de que ele realmente não a deixará de lado. E o fim, no julgamento de Noah, mais ainda.

Qualquer menção à trilha sonora, fotografia, atuações, roteiro e direção é chover no molhado. The Affair voltou em grande estilo e com a promessa de boas tramas daqui pra frente. Especialmente quando falamos das relações entre os quatro protagonistas, afinal este é o enfoque da série e enquanto continuarem investindo nisso em vez de cenas impactantes de ação, o show continuará tirando o fôlego da audiência.

Alguns outros olhares:

Esperando para ver onde o pesadelo de Noah se encaixa na história.

Impossível não se sentir desconfortável com a relação de Helen e Max. No rosto dela, quase que um pedido de socorro naquela cama.

Tenho a impressão de que estamos muito longe de ter alguma ideia do que realmente aconteceu no caso de Scotty.

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