Nos anos 70, o “filme catástrofe” se firmou como um subgênero do cinema de aventura e ação. Utilizando grandes tragédias humanas (incêndios, navios que afundam, aviões que perdem o controle), a narrativa se usava da tensão e da proximidade da situação para a imersão do espectador. Com o avanço e o barateamento dos efeitos especiais nas décadas seguintes, o escopo humano trocou de lugar com as tragédias de grande porte (furacões, vulcões, tsunamis). Com a reprodução fiel de elementos naturais que um software de modelagem potente é capaz de fazer hoje em dia, tais filmes servem atualmente de vitrine para os avanços tecnológicos da área. Tempestade: Planeta em Fúria (Geostorm, 2017) é o mais novo exemplar da leva de blockbusters que fisgam o espectador ao colocá-lo no meio da ação e com isso tirar a atenção do que realmente importa: a narrativa.
Escrito e dirigido por Dean Devlin, o filme é uma reinterpretação de vários outros elementos que funcionaram anteriormente em filmes do gênero. Temos um cientista brilhante e igualmente turrão que não aceita autoridade (“Armageddon”), cidades inteiras sendo destruídas sem o mínimo de cerimônia (“2012”, “O Dia Depois de Amanhã”), tensão espacial (“Gravidade”), até o pôster remete “A Origem” com uma fonte negrito vermelha que se destaca contra o azul do fundo. Não que a utilização desse tipo de inspiração seja um demérito, mas o mal-uso delas é que faz com que o filme não passe de algo corriqueiro.
Os diálogos repletos de frases de efeito intercalados por uma trilha sonora que tenta tornar tudo épico acabam tornando tudo um pouco mais engraçado do que deveria. Parece uma daquelas produções “B” que por acaso do destino ganhou um generoso orçamento e foi alçada ao calendário de lançamentos de um estúdio grande (no caso a Warner). Curiosamente as cenas vendidas nos trailers são até bem poucas perante a duração total do filme, que prefere focar mais em intrigas presidenciais, amores escondidos e brigas de ego e autoridade entre irmãos. A ciência do filme é tudo o que se pode esperar de uma produção do tipo: muito bonita na tela, mas totalmente inverossímil. As informações se contradizem o tempo todo, a física é quebrada a cada 15min, cidades são destruídas e reconstruídas com uma eficiência japonesa, rendendo algo que pode incomodar os mais puristas, principalmente numa época em que desastres do tipo estão se tornando cada vez mais comuns.

Resta aos atores simplesmente embarcarem na jornada e se divertirem no processo. Gerard Butler está à vontade na pele do protagonista, que não difere muito dos papeis recentes da carreira do ator. Jim Sturgess e Abbie Cornish são os vértices no background presidencial, em conjunto com Andy Garcia e Ed Harris. Alexandra Maria Lara, Daniel Wu, Eugenio Derbez, Amr Waked, Robert Sheehan e Zazie Beetz são a contraparte cientifica, que rende aos melhores e mais canastrões momentos do longa.
Mas o filme não é de todo ruim. Tempestade trabalha com temas atuais e tem até uma mensagem edificante no meio de toda a destruição (virtual) de capitais mundiais (Rio e Moscou estão entre as melhores). Tem potencial para ser divertido se você deixar o espírito crítico na porta da sala de cinema numa suspensão da crença que é mais do que necessária para abraçar o filme em todo o seu esplendor catastrófico. Daqueles em que você pode ver numa tarde em que não se tem nada melhor para fazer ou junto com um grupo de amigos. Filme pipoca raiz, mas infelizmente descartável. Não é dessa vez que o mundo vai acabar em grande estilo.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros Pictures Brasil
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