Para se estabelecer neste mercado televisivo mundial, as séries de língua não-inglesa têm investido muito para trazerem a atenção para si. Seja em roteiros impecáveis, seja em grandiosas produções, temos diversos exemplos do respiro que elas tentam fornecer àqueles que querem deixar de lado, pelo menos por um momento, os maiores fornecedores desse tipo de conteúdo. Essa consciência pode ser percebida em entrevistas, quando os realizadores afirmam que procuravam algo para diferenciar sua narrativa ou num estudo do próprio material.
Nessa segunda opção, na maioria das vezes, percebemos que não estão mirando no medo pelo medo no que diz respeito a séries de horror e mistério, mas no estudo da consciência humana através do medo. O resultado dessa pesquisa aparece em imagens, em diálogos e na condução do enredo. No caso de Tabula Rasa, aparece em nove episódios de cinquenta minutos.
Quando os criadores de séries de horror e mistério percebem que não há nada mais assustador do que a mente humana, ganhamos boas produções. É o caso da série belga atualmente disponível no catálogo da Netflix. Seu flerte com o horror através de um sobrenatural que se mantém em incógnita desabrocha em uma série sobre a mente de sua protagonista, que torna o ambiente a seu redor a grande fonte do medo que assistimos. É nos seus sonhos e delírios que surgem criaturas e fantasmas para atormentá-la.

Tabula Rasa estreou lá fora no final de novembro do ano passado. Na história, acompanhamos uma mulher que se percebe como parte de uma investigação de desaparecimento pois fora a última pessoa a ser vista na companhia do sumido. Ela, no entanto, não tem sequer consciência de conhecer essa pessoa. Isso porque Annemie D’Haeze sofreu um acidente que prejudicou permanentemente sua memória. Quando passa por momentos de exaustão emocional, ela apaga tudo o que aconteceu após o evento e só se lembra do passado. Aos poucos, conforme sua memória vai retornando, voltamos três meses no tempo e acompanhamos esses dois períodos, descobrindo como testemunhas a relação entre ela e o homem que todos estão procurando. Como o título já sugere, a protagonista vai preenchendo sua mente do zero, readquirindo os conhecimentos que perdera.
Se há algo que faz a maratona desta série valer a pena é sua atriz protagonista. Veerle Baetens faz uma construção de personagem tão interessante e desesperadora que já valeria o tempo investido na produção. O roteiro a apoia em tudo isso e sabe trilhar sua jornada, passando por diversos estágios. Mie, como é chamada, era uma artista celebrada em seu meio antes do acidente e de se mudar com o marido para uma casa afastada. Vemos certa amargura pela vida deixada para trás e o constante estranhamento de vagar pelas madrugadas atormentada por algo que seu subconsciente quer lhe dizer, mas que ela não entende. Temos exploradas diversas facetas da personagem, desde a esposa desconfiada, passando pela inteligente e misteriosa mulher internada numa clínica até a filha de um senhor que sofre de Alzheimer.
(No sétimo episódio, quando temos uma reviravolta, há uma cena de dois minutos que é, possivelmente, a melhor cena dentro de atuação do gênero neste ano.)

Sabemos que algo ocorreu, e a narrativa faz um bom trabalho ao tentar instigar o telespectador com sua brincadeira de sobrenatural. Sendo uma história sobre memória, percebemos, o grande medo que se abate sobre a protagonista é o de perder o controle de si mesma, de sua história e de seus atos. Esse tema tem sido recorrente em histórias de horror e mistério, sendo o alvo de episódios de diversas antologias e rendendo séries como Mosaic da HBO, sobre a qual conversamos há pouco. Esse recurso narrativo ajuda a criar uma necessária fragilidade na personagem principal à nossa empatia por ela.
Nessa não-linearidade, indo e vindo da clínica para visitar os últimos meses de Mie antes de ser achada na floresta, perto de casa, suja de sangue, assistimos às mudanças em seu casamento com Benoit D’Haeze (Stijn Van Opstal). O modo como a relação do casal é mostrada também mexe com nosso interesse porque não é algo raso. A rotina deles começa feliz, isolada dentro do que parece ser uma problemática pequena. Ele a ajuda a se lembrar das coisas, e ela vai cuidando da casa e da filha enquanto espera seu retorno do trabalho. Com o tempo, no entanto, ao estranhar a casa e seus segredos, ela se torna um fardo para ele, que muda sua personalidade e se torna uma pessoa possessiva e violenta, chegando ao cúmulo de rasgar anotações que ela faz para si mesma. Benoit, porém, não é mostrado como um antagonista, mas alguém que sucumbe ao fracasso matrimonial não assumido.

Mie, por sua vez, está presa dentro da própria cabeça, refém de sua doença. É aí que entra o flerte com o sobrenatural. Ela vê pessoas sem rostos no espelho e figuras pela casa, mas tudo amparado na lógica da doença. Alguns sonhos assustadores são manifestações de seu pavor em se descobrir autora de um crime que não se lembra de ter cometido. Conforme conhecemos Thomas (Jeroen Perceval), o charmoso e misterioso homem, desconfiamos de suas intenções sobre ela. O relacionamento dos dois, que possuem uma química inegável juntos, tem o grande problema de se instalar em paralelo a um casamento que não tem rendido muita alegria, mas cujos lados que o compõem não se decidem por terminá-lo.
A família de Mie representa uma parte importante da história. Percebemos isso logo no começo, quando seu marido e sua mãe são orientados pelo detetive responsável pelo caso a não lhe comunicarem algo. O casamento dos pais quase espelha sua relação, pois sua mãe se vê cansada da doença do marido e de não o reconhecer, optando por flertar com um empregado — algo que é alvo de apontamentos morais da filha, até que ela se vê na mesma situação. Temos ainda sua irmã, interpretada pela atriz Lynn Van Royen, estrela da série belga Hotel Beau Sejour, infelizmente (ainda!) disponível somente no catálogo internacional da Netflix. A irmã se opõe às decisões do cunhado e da mãe em relação a Mie, criando uma dinâmica de discordância na família.

Vale destacar, por último, Vronsky, a divertida personagem do ator Peter Van de Begin. Interno na clínica em que Mie se encontra, ele é um piromaníaco que tem um vasto conhecimento em literatura e gosta de citar, aqui e ali, frases de diversas obras consagradas. Vronsky é um grande companheiro das investigações que Mie faz na clínica, apoiando seu modo de confrontar o detetive e seus estranhos métodos de obter a verdade.
Como espaço da narrativa, temos três lugares principais. No passado, vemos a casa de Mie, esse lugar quase assombrado pelo seu presente — algo que só entendemos com a primeira reviravolta. Também neste período, visitamos uma cabana que fica na floresta ali perto e que é o ponto de encontro entre ela e o desaparecido, que se torna um amigo. Por último, voltamos à clínica, onde, através de desenhos, ela tenta reaver sua história. Fora de casa, então, é onde a artista aposentada consegue romper uma rotina de segredos que não poderia se estivesse em seu lar, berço de algumas mentiras sustentadas pela família.

Além dos diversos assuntos de Tabula Rasa já apontados, podemos destacar a relação que se faz com a perda e a manifestação no corpo de coisas que não nos demos conta, mas que o subconsciente talvez já saiba. A série pode ser dividida em três fases: do primeiro ao quinto episódio, do sexto ao oitavo e o nono. Nos primeiros, vemos o estranhamento da relação familiar que só se explica com a reviravolta mencionada. Depois, acompanhamos o desenvolvimento de uma relação novelesca que nos cansa um pouco. A personagem, nessa segunda parte, não se apodera totalmente da verdade, mas dá um passo para encontrá-la. O último episódio funciona como um epílogo e explica algumas pontas soltas, ligadas ao falso sobrenatural da primeira parte.
(Adianto por aqui que quem se importa muito [muito] com finais talvez devesse pular a série, porque seu final é um completo desfavor à ótima construção de enredo feita nos oito episódios anteriores. É um draminha exagerado e meio tendencioso que aponta um antagonista que a série não precisava).
> Elite, The Innocents e Kiss Me First – SÉRIES PERDÍVEIS!
Tabula Rasa tem uma boa protagonista, interpretada de forma brilhante por uma atriz prestigiada. A série retrata o horror do indivíduo que perde a própria identidade ao perder sua história. Há diversos mistérios e diversas resoluções para acompanhá-los. Nem todas as resposta, no entanto, chegam à altura das perguntas interessantes que foram feitas. Há estranhas conclusões a respeito do casamento dos protagonistas e uma tentativa de perdoar os homens da história com surpresas ou lapsos no próprio roteiro. Aos que apreciam a viagem, porém, nada disso prejudicará de forma definitiva o sólido trabalho exibido antes do fim.
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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.















