Em 1996, um filme sobre um grupo de jovens escoceses viciados em heroína tomaria de supetão o cinema mundial. Com uma edição frenética e uma trilha sonora de apelo pop imediato, a adaptação de Danny Boyle da obra de Irvine Welsh para o cinema se tornaria um filme que marcaria uma geração de espetadores e definiria alguns parâmetros para obras vindouras, se tornando um “cult” instantâneo, carregado de humor negro e não privando de mostrar as facetas mais escuras do mundo do vício. Vinte e um anos depois, eis que chega nos cinemas brasileiros T2 Trainspotting (2017), que não só continua a história como expande ainda mais as vidas dos quatro sobreviventes do primeiro filme.
Após passar vinte anos fora, Mark Renton (Ewan McGregor) volta a Escócia para se reencontrar com seus velhos amigos: Spud (Ewen Bremner), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle). O grande problema é que o acontecimento ao final de Trainspotting – Sem Limites ainda continua fresco na cabeça dos que ficaram. Dando início a uma nova rodada de oportunidades e traições regada em drogas, sexo e vingança.

Enquanto o primeiro filme era uma comédia de humor negro, com doses cavalares de niilismo e momentos dramáticos absurdamente pesados (a cena do bebê é difícil de esquecer depois de vista) esse segundo volume é um filme um pouco mais centrado, com uma abordagem mais realista, mas com igual força narrativa. Com os vinte anos de diferença, os focos mudaram. Sai o vício em heroína, o surgimento da epidemia de AIDS e a cena clubber e entram a paternidade, a estabilidade financeira, impotência e o acerto de contas como os principais motes do enredo. Enredo esse que é um misto de duas fontes distintas (“Porno” e “Glue”, também obras de Welsh), mas que em conjunto servem como uma perfeita conclusão para a história, dando voz a personagens anteriormente negligenciados. E com isso Boyle retorna ao território que conhece tão bem, utilizando de um primor estilístico (jogos de luz e sombra, ângulos e tipos de câmera, edição de “videoclipe”…) que revisita o passado se utilizando de rostos (Kelly Macdonald e Shirley Henderson retornam) e momentos icônicos conhecidos, completando cenas que antes só possuíam um ponto de vista e apresentando o futuro num desfecho digno e satisfatório das tramas deixadas em aberto numa mistura frenética embalada na trilha sonora que continua um dos pontos altos do filme, com músicas de Queen, Blondie, Young Fathers e Iggy Pop. O exemplo perfeito de uma continuação que não era necessária, mas que ao ser realizada conseguiu manter o legado e deixar sua marca.
Essa constante busca no passado mostra que os personagens, mesmo duas décadas depois, ainda continuam repetindo os mesmos erros de suas versões jovens. O novo discurso do “Choose Life” (que continua tão pungente e assertivo quanto 96) mostra a evolução em que eles se inserem enquanto escancara os constantes recomeços que cada um dos quatro vértices principais da trama se obrigam a efetuar na agridoce perspectiva de vida que eles têm pela frente. T2 Trainspotting é uma sequência e honrosa homenagem a obra anterior, demonstrando que nossas escolhas são permeadas de consequências que nos acompanham pelo resto da vida. Uma “viagem” nostálgica. Uma trip que dá gosto de se experimentar os efeitos colaterais sem se arrepender nenhum pouco de embarcar nesse “baque” mais uma vez. Escolha a vida, a alegria, a dor, a vingança, a tristeza, a perda, o ódio, o amor, a saudade, as drogas, o arrependimento e a amizade. Escolha assistir T2 Trainspotting.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil
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