Survivor e o festival do bullying justificado.

É mais do que seguro dizer que a trigésima segunda temporada de Survivor é uma temporada de personagens, deixando o jogo para segundo plano. Nenhum episódio até agora, porém, escancarou isso de maneira tão clara quanto Signed, Sealed and Delivered.

A preocupação do episódio com a exibição de estratégias foi basicamente zero – a não ser que contemos a breve espiada no acampamento dos Brains após o blindside em Liz e as juras de ódio de Peter contra o resto da tribo.

Sem surpresas, o grande foco foi a evacuação de um dos jogadores. Todo o alarde promocional foi feito em cima da famigerada medevac, primeira de seu nome e primeira de muitas que virão – sem contar os dois rombos horríveis no ombro de Liz após sua eliminação, claro. A vítima da vez, como o promo deixou quase escancarado, foi Caleb, para a tristeza e lamentação de todos nós, mas principalmente de Tai e das meninas da Beauty.

Foi realmente tocante toda a situação, principalmente porque Caleb deu o sangue e o suor para vencer o challenge – por umas meras pitadas de sal e pimenta, vale dizer! – até exaurir-se completamente. Linda a cena em que a tribo chora por ele, unida, e esses momentos em que a competição fica em segundo plano acabam rendendo boa TV.

O suspense e o desespero em torno de três pessoas passando mal ao mesmo tempo também deram uma boa pimenta ao episódio, mas isso teria sido mais bem aproveitado se não tivesse havido uma exploração tão exaustiva das evacuação desde muito antes de ele ser exibido. Qualquer um que prestasse mais atenção no promo saberia que Debbie e Cydney não corriam riscos… pelo menos por enquanto.

Mas foi bem bacana ver toda a correria da produção e da equipe médica do show, além do próprio Jeff Probst, genuinamente aflitos com aquela situação. Dr. Joe merece uma medalha, e já pode ser considerado o médico mais lendário desde Dra. Ramona, a diva da saúde em Survivor. Saudades.

Pitacos de um Reviewer Ocupado: Dr. Joe não salvou “apenas” a vida de Caleb, mas também o nosso reality favorito de um provável cancelamento, uma vez que dificilmente o programa sobrevieria (com o perdão do trocadilho) a uma fatalidade. Eu no lugar do Dr. Joe não seria capaz de fazer nada e apenas  incorporaria um conselho de Kimmy Schmidt, lançando minhas mãos aos céus e gritando: “I’m not here. I’m not here. I’m not here”.

Saudades, também, desde já, da diva do bullying de Kaoh Rong, Alecia, que foi maltratada até fisicamente por seus companheiros de tribo – como esquecer Jason avançando em cima da loirinha na corrida pelo ídolo? Poxa vida, produção, quando é pra fazer uma boninhada – ou, no caso, uma jeffinhada – pra salvar Savage da eliminação antecipando a merge vocês não pensam duas vezes, mas na hora de dar uma mãozinha pra Alecia ninguém faz nada? O que custava já meter a swap com 14 em vez de manter os planos de realizar o desafio de imunidade? Proteger alpha males é mesmo tão importante assim?

A swap acabou não acontecendo, e os Brawns, cobertos de razão (aprendam, Brains!), fizeram o maior corpo mole possível durante o challenge. Era bastante óbvia a indiferença de Scot e Jason ao que estava acontecendo, e o desespero e o esforço de Alecia para tentar se salvar ficaram evidentes. Ela sacou tudo, mas não havia o que ser feito. E, sejamos francos, por mais que Scot e Jason sejam dois babacas truculentos que mereciam ser privados do convívio em sociedade, a verdade é que os Brawns fizeram certinho.

Permitir que Alecia alcançasse uma swap seria suicídio de seus três inimigos, principalmente depois de a anta dizer com todas as letras que estava ansiosa para a mistura de tribos chegar. E, em um fenômeno completamente inédito na história de Survivor, não vimos sequer UM SEGUNDO das tramas do acampamento antes do tribal council. Já estava tudo tão óbvio que não tinha nem graça para a pobre Alecia.

Alecia não era nenhuma grande jogadora e, com exceção do momento em que ela se revela uma verdadeira lutadora ficando 5 horas na peleja por fogo, não chegou a gerar uma identificação enorme com o público porque era impulsiva demais, bobinha demais e não fez absolutamente nada inteligente para tentar mudar seu certeiro destino. Mesmo assim, tendemos a torcer por ela e a gostar dela simplesmente porque ela deu o azar de cair numa tribo de chauvinistas imbecis que agem como superiores, mas dormem enquanto a menina trabalha no fogo para a tribo.

Pitacos de um Reviewer Ocupado: O comportamento de Jason, Scot e até mesmo Cydney é lamentável e já torço com todas as minhas forças para que o tombo seja grande, mas vou tentar fazer o advogado do diabo, já treinando para quando eu me formar e tiver que defender o Guto na fase 4.599 da operação Lava Jato. É impossível não torcer por Alecia e até mesmo Jeff Probst confessou isto, porém ela, com certeza, tem alguma responsabilidade sobre o comportamento do restante de sua tribo. Assistí-la pela TV é fácil, mas acredito que ela realmente irritava os seus companheiros de tribo e não foi capaz de se adaptar ao espírito da tribo.

Tréplica: Eu também acredito. Mas até a culpa da pessoa mais irritante do mundo tem um limite. Xingar a menina no meio das provas, avançar nela para arrancar uma pista de suas mãos, dizer que tratá-la daquele jeito é uma maneira de dar exemplo para as filhas… não há irritação que justifique tais atitudes, e é fácil lembrar de como Shirin, que também é certamente uma pessoa extremamente irritante, foi tratada por Will em Worlds Apart. Lá, o bullying se limitou a um momento específico de agressão verbal e foi quase unanimemente condenado, com razão; aqui, parecem ter sido dias a fio de maus tratos de diversos tipos.

O que mais me incomoda na edição dos dois, mas principalmente na de Jason, é que existe uma clara tentativa de humanização do jogador aos nossos olhos. Jason é sempre retratado como o pai de família, preocupado com as filhas – até quando as usa como uma desculpa patética para tratar Alecia como tratava. Ele também foi bastante humanizado quando Cydney passou mal durante o desafio de recompensa.

Tudo isso me faz crer que ainda veremos Jason por muito tempo no jogo, e temos uma edição tentando evitar o fiasco de Worlds Apart, em que odiávamos todo mundo que chegou ao F7 praticamente. Não sei se esse esforço da edição vai adiantar muito, mas é fato que ainda temos muita água pra rolar entre a eliminação de Alecia e a final, e dependendo do comportamento dos brutamontes até que podemos correr o risco de que, lamentavelmente, o povo esqueça. Porque é fato, o povo esquece. Ainda mais quando a edição quer muito.

No mais, e sem grandes mudanças de dinâmica do jogo após esse episódio, fica a expectativa para a swap, que não será a mesma sem Alecia, mas pode ficar interessante dependendo de como for a tribo em que Peter, com sua sede de vingança contra os Brains, irá parar. Mas isso vai ser assunto para o nosso caríssimo Diogo Pacheco. Fiquem com o nosso ranking, e até a próxima!

Pitacos de um Reviewer Ocupado: Guto, muito obrigado por me cobrir numa semana tão agitada mais uma vez dando show no texto, principalmente, por ser tratar de um episódio tão diferente e complicado para quem escreve.

Ranking dos sobreviventes

1. Anna: ela teve sua importância no momento de luto da tribo por Caleb – ainda que com pouco air time (este vorazmente sugado por Tai, como de costume), foi a mais evidenciada das três garotas. A eliminação do ex-BB também evidencia algo interessante: a importância da escolha da edição ao mostrar a cena em que Anna recruta Caleb. Aquele momento que vimos não era sobre Caleb e de o lado que ele estava escolhendo. Era sobre Anna e seu papel de liderança, o que torna tudo mais interessante.

2. Michele: Ela foi irrelevante no episódio, mas não há nenhum motivo para tirá-la da segunda posição, sendo a principal ameaça ao favoritismo de Anna. A verdade é que o jogo e a dinâmica das tribos e dos jogadores não andaram nesse episódio, e por isso é difícil mexer muito no ranking.

3. Julia: Não tem como não dar destaque estratégico para as três Beautys depois desse episódio, principalmente diante da afirmação de Tai de que a saída de Caleb garantiu (mais?) a vantagem delas. Julia é, ao meu ver, a jogadora com mais chance de ser finalista do elenco, mas ao mesmo tempo a com menos chance de vencer se estiver lá.

Pitacos de um Reviewer Ocupado: Tudo leva a crer que a edição antecipou uma condição das mulheres da Beauty que só se concretizou na evacuação de Caleb. Pelo visto, Caleb estava no meio entre elas e os homens, mas devido à provável importância da aliança feminina para o restante da temporada, esta história já vem sendo contada deste a premiere. Só eu (diferentona) quero Peter se aliando ao Bonde da Anna Sem Freio?

4. Tai: é estranho, mas ele me parece se misturar fácil e contornar problemas com tranquilidade. Qualquer possível deficiência estratégica de Tai sempre vai ter chance de ser compensada por seu social. E o ídolo ajuda bastante nessa brincadeira.

5. Jason: também por motivos de ídolo, Jason não pode deixar de estar bem cotado no jogo. É um dos poucos jogadores restantes que mostram preocupação estratégica e está sendo extremamente bem tratado pela edição, mesmo com todos os indícios de que é um completo idiota. Seu cuidado com Cydney não chega a redimir o babaca que foi com Alecia, mas certamente é uma tentativa de humanizá-lo aos nossos olhos e, independentemente de ser bem-sucedida, o fato de ela existir indica alguma coisa.

6. Debbie: ela já nos surpreendeu comandando todo um levante dos Brains contra Peter e Liz, e certamente de onde veio esse blindside há outros chegando.

7. Aubry: não tem muito espaço, mas existe uma história de redenção e superação aparentemente sendo contada em relação a Aubry. Isso me leva a crer que ela ainda rende alguma coisa.

Pitacos de um Reviewer Ocupado: É o Dark Horse da temporada. Corre meio por fora e vem sendo retratada positivamente toda vez que ganha um confessional.

8. Peter: nada garante que ele não será eliminado no matter what, mas o fato é que a swap pode ser a salvação de Obama nessa história toda, especialmente se ele souber para que lado ir ao trair seus aliados. A animosidade no Tribal Council dos Brains indica que Neal seria seu primeiro alvo em caso de uma flipada.

9. Neal: não fede nem cheira, e é divisor de águas deste ranking entre as pessoas que considero relevantes e aquelas que têm tudo para se dar mal.

10. Scott: o jogo tem sido fácil pra ele, mas agora com a swap é que a coisa fica séria. A não ser que os Brawns se tornem ferramentas úteis num cabo de guerra entre Brains e Beauty – o que é bem provável, até -, Scott tem toda a pinta de provável eliminado na boca da merge ou de primeiro membro do júri.

11. Cydney: Ela mostrou uma boa capacidade de jogar para os dois lados durante a triste e decadente vida da tribo dos Brawns, e por isso pode surpreender, mas não sinto que ela tem o cérebro e nem a iniciativa necessários à conquista de uma boa posição no jogo. Com sorte (dela, não nossa), as meninas da Beauty podem considerá-la uma ótima goat e deixá-la ir longe.

Pitacos de um Reviewer Ocupado: A primeira discordância entre nós e o texto já tava tão no finzinho. Para mim, Cydney está crescendo e pode crescer ainda mais. Na minha visão, é uma candidata ao título de Sole Survivor, mas ainda temos um longo caminho pela frente. To com um mal pressentimento de teremos que aguentar estes 3 Brawns por muito tempo ainda.

Tréplica: O início do meu comentário sobre ela indica que não discordamos tanto assim, mas eu ainda estou pendendo bem mais pra não acreditar nela do que o contrário.

12. Joe: medevac, eu nunca te quis tanto!

13. Nick: A única grande mudança no meu ranking após esse episódio, Nick se mostrou completamente irrelevante para a tribo dos Beauty (inclusive durante a emocionante cena de luto deles por Caleb, Nick sequer estava junto com o restante da tribo) e muito provavelmente para a temporada. Deve se manter unido a seus primeiros colegas de tribo e, ou tomará um blindside (idols estão aí é pra isso), ou será descartado pelos próprios “amiguinhos” quando for conveniente para eles.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.