O final de uma temporada que devolveu a paixão aos fãs de Survivor.

Depois de Game Changers, Heroes Vs. Healers Vs Hustlers e Ghost Island, 3 temporadas abaixo da média, os fãs de Survivor estavam bem desanimados e muitos até deixaram de assistir ao melhor reality show do mundo (sorry, Big Brother Canada mas Survivor is back por enquanto). Eu nem de longe fiquei tão desanimado assim e também não achei essas temporadas tão ruins como a maioria, mas entendia como um momento de queda e de caminhos tomados pela produção que não me agradam. Assim que analisei o cast da temporada, fiquei bem mais empolgado, uma vez que logo de cara esse elenco foi capaz de transparecer o seu potencial. David Vs. Goliath está longe de salvar completamente Survivor de um momento ruim, mas provou que o reality ainda é capaz de se reinventar e que no final das contas o que importa mesmo é a qualidade dos participantes.

A temporada de número 37 foi realmente incrível. David Vs. Goliath manteve uma regularidade absurda. Depois de um episódio ótimo, vinha um excelente, seguido de um incrível e sucedido por um igualmente tão bom. Acho que até mesmo temporadas intocáveis como Micronesia ou Heroes Vs. Villains não tiveram uma regularidade tão grande. Não estou dizendo que David Vs. Goliath é melhor que nenhuma delas, apenas que nela nunca tínhamos um episódio mais ou menos ou ruim. A finale inclusive está longe de ser um dos melhores episódios desta edição, o que não significada que não tenha sido boa. Foi um ótimo e coerente desfecho para uma temporada incrível.

A volta do Goliath Strong

Após a primeira vitória de Nick num Immunity challenge, previsivelmente, a eliminação ficou entre Alison e Davie, que já tinham sido alvo no Tribal Council anterior. No final das contas, tudo ficou nas mãos de Mike e Angelina, que precisaram decidir se seguiriam com a aliança Jabeni ou com Alison e Kara. Mais uma vez, os Goliaths não pouparam um David e eliminaram Davie.

Pessoalmente, os Goliaths me decepcionaram bastante, uma vez que não mostraram criatividade nenhuma nas eliminações. Se dependesse deles, a merge seria um grande Pagong nos moldes de Ghost Island, o que fatalmente acarretaria numa queda na qualidade depois de uma fase tribal tão boa. Entretanto, neste dado momento, é óbvio que Angelina e Mike tomaram a decisão certa, já que os dois Davids eram justamente quem facilmente derrotariam a dupla no Final 3. Para mim, se não houvesse challenges e desafios de fogo, Mike e Angelina formariam o F3 com Kara, o que muito provavelmente daria a vitória a Mike. Assim, não posso condenar ambos por tomar uma decisão que tirou um grande candidato ao prêmio.

É curioso como Survivor é um jogo tão complexo, porque, para mim, Nick estava absolutamente certo em se esforçar para manter Davie. 1 David contra 4 Goliaths é um cenário bem desfavorável que deveria mesmo ser evitado para ele ter maiores chances de chegar à final. Contudo, caso Davie não tivesse sido eliminado, ele seria a maior ameaça à vitória de Nick, principalmente podendo batê-lo nos challenges do F5 e F4. Por mais que a temporada tenha sido tão equilibrada nos desafios, Alison, Kara, Mike e ainda mais Angelina não foram muito bem em challenges que não fossem de resistência. Dessa forma, com a saída de Davie, o caminho ficou mais aberto para Nick.

Ao ser eliminado, Davie deu uma dica aos sobreviventes, afirmando que o responsável pelo seu blindside teria o seu voto ao menos que alguém fizesse algo maior. Sinceramente, não acreditei nem por um segundo em Davie. Na minha opinião, ele saiu exausto de ver os Goliaths unidos e, prevendo uma possível eliminação de Nick em seguida, tentou jogar esta informação no ar para aumentar as chances do seu amigo permanecer no jogo. Assim, não se tratou de um indicativo de como ele votaria e sim de uma maneira de jogar Alison ou Mike embaixo do ônibus. Acreditando que Mike estaria no caminho da vitória, Kara e Angelina poderiam muito bem poupar Nick e eliminar o cineasta. Esta minha teoria faz tanto sentido que Davie votou em Nick e não em Mike e Angelina, que fizeram parte do seu blindside.

Desde o início da temporada, Davie foi um dos melhores participantes, tanto que figurou nas melhores posições do meu ranking semanal o tempo todo. Ele foi um jogador muito inteligente e conseguiu grandes feitos encontrando idols, convencendo Alec a votar em Natalia e sendo fundamental para que os Davids não fossem dizimados. Numa entrevista a Rob Cesternino, o vencedor de David Vs. Goliath disse que a sua maior reclamação com os editores foi o fato de que ele e Davie eram grandes amigos e aliados desde o primeiro dia, sendo que parecia que Christian era o mais próximo de Nick. Assim, fica claro que Davie poderia ter sido ainda mais presente nos episódios, mas, pelo carisma e apelo de Christian, ficou em posição de coadjuvante em alguns momentos.

A Banalização do Fake Idol

Assim como aconteceu quando Carl foi eliminado, Nick não ficou nem um pouco contente com o blindside, deixando isso bem claro para todos e chegando a gritar que Alison venceria. Por mais que ela não tenha sido um grande destaque da temporada, eu acredito que a médica venceria facilmente qualquer um dos outros 3 Goliaths numa final. Como isso não aconteceu, ela não foi uma das prioridades da edição. Temos que entender que isso é normal e necessário, principalmente numa edição com participantes tão bons e que renderam muitos momentos de entretenimento. O tempo dos episódios é limitado e a edição fatalmente precisa priorizar alguns em detrimento de outros. Inclusive, a edição da temporada foi fantástica e nem mesmo Alison passou perto de ser invisível. Quando o elenco é bom, o trabalho dos editores fica muito mais fácil.

Voltando aos rumos do jogo, obviamente a eliminação ficaria entre Alison e Nick. Honestamente, acho que Nick seria o favorito à eliminação, dado o histórico conservador dos Goliaths e também pelo fato do Defensor Público ter mais feitos em termos estratégicos do que os demais. Entretanto, não tenho como afirmar com certeza que isto aconteceria, principalmente porque acredito que com Nick eliminado no F5, Alison teria tudo para ser a vencedora da temporada. Assim, a escolha entre eliminar Alison ou Nick não seria tão fácil de ser solucionada.

Com a vitória de Nick, a eliminação ficou mais do que óbvia, o que pareceu nos olhos de Angelina como uma ótima oportunidade de brilhar frente ao júri. Eu amo Angelina, mas, mais uma vez, ela foi transparente demais nas suas intenções e na execução do seu showzinho. Afinal, o que ganharia Mike ou Nick em ajudar Angelina a tentar ganhar pontos com o júri? Para piorar ainda mais as coisas, tudo poderia soar para o júri como soou para mim, mais uma grande presepada ou forçada de barra por parte dela.

Não tinha nada de estratégico ou de inteligente na sua ideia de chutar cachorro morto ao humilhar Alison na sua saída. Tivemos apenas mais um momento icônico de Angelina sendo Angelina. “Uma psicopata cruel” nas palavras de Mike, ou “alguém que é inteligente e ousada mas que coloca tudo a perder por não ter sutileza alguma” nas minhas. De qualquer forma, este foi mais um momento hilário desta grande personagem, que me fez rir muito ao longo da temporada toda, como quando sem piedade nenhuma falou para uma chorosa Alison que ela seria a eliminada.

O episódio nos apresentou a possibilidade de Kara e Nick eliminarem Mike, salvando Alison da eliminação. Assistindo o episódio achei que era uma tentativa da edição de deixar as coisas menos previsíveis, porém Nick afirmou que estava disposto a votar no seu aliado Rockstar por querer vingança por Davie e também por entender que se tratava da maior ameaça a sua já provável vitória. Contudo, segundo Nick, Kara não quis seguir com o plano por acreditar que Alison era uma ameaça maior. Eu acho que concordo com ela, mesmo achando o jogo de Mike superior ao da médica.

A Quebra da Maldição do Desafio do Fogo

Após a terceira vitória seguida de Nick, ele teve que decidir quem iria para a final e quem disputaria um desafio de fazer fogo. A decisão me pareceu extremamente fácil, uma vez que Angelina não tinha a menor chance de vencer. Porém, alguns membros do júri afirmaram que não concordaram com a decisão tomada. Parece que há quem diga que Angelina seria uma ameaça maior do que Kara com o júri, por ser uma jogadora bem mais agressiva e por ter feito bem mais jogadas e tentativas. Por mais que concorde com a ideia de valorizar quem joga mais, não me convenço que Angelina era uma ameaça maior que Kara, simplesmente porque enquanto uma desagradou e irritou muita gente, a outra foi amiga e simpática com todo mundo.

O vencedor da temporada já explicou porque alguns participantes acharam que ele deveria ter levado Kara para a final. Para eles, a única pessoa que tinha alguma chance contra o Defensor Público era Mike. Assim, levar Kara para a final seria inteligente porque Angelina era a pessoa que fazia fogo no acampamento com mais facilidade, o que elevaria as chances de Mike não chegar à final, aumentando a chance de Nick vencer.

Gosto bastante desta estratégia e acho muito válido todo o raciocínio. Entretanto, depois das vitórias de Ben e Wendell, vencedores que chegaram à final através do desafio do fogo, acredito que Nick tinha que pensar muito para não elevar a chance de quem fosse o sobrevivente do fogo. Tanto Chrissy quanto Domenick, escolheram levar para a final Ryan e Laurel porque Devon e Angela teriam mais condições de fazer fogo contra quem eles queriam eliminar. Assim, ambos tomaram a decisão para eliminar as maiores ameaças. Nick fez algo bem interessante e quebrou a maldição de Chrissy e Domenick. Ao invés de fazer tudo ser sobre Mike, ele conseguiu diminuir a pressão, alegando que suas chances de vitória seriam menores com a presença de Mike e Kara ao seu lado na final. Assim, não importaria qual dos dois vencesse, o que ele buscava era uma final contra apenas um deles.

Por tudo que aconteceu ao longo do jogo e por ser o último David, acredito que Nick venceria independente do que acontecesse no F4 após a sua vitória no challenge. Todavia, acredito que sua decisão de levar Angelina para final sem fazer muito alarde que queria ver Mike eliminado foi uma ótima estratégia. Usar Angelina para eliminar Mike poderia sair pela culatra, o que poderia aumentar o número de votos de quem deveria ter sido eliminado no F4 mas se salvou fazendo fogo.

Muita gente tinha a teoria de que quem faz fogo no f4 sempre iria vencer e ela caiu por terra. Penso que ser o vitorioso neste challenge, que é disputado diante do júri, é algo que pode sim ajudar alguém a ter votos, mas ela não determina quem ganha. Há também quem diga que a pessoa escolhida para ir à final sem fogo nunca vencerá, já que Angelina e Laurel tiveram zero votos e Ryan apenas 1. Este raciocínio ainda não se provou verdadeiro ou falso, mas acho que é uma questão de lógica. A pessoa é escolhida para ir para a final justamente por ser quem tem menos chances de vencer e não perde suas por ter sido “levada” para a final e sim porque já perderia mesmo.

Esta discussão toda pode deixar o desafio de fogo mais interessante no futuro. Domenick, que perdeu no desempate para Wendell, acredita que no futuro alguém vai abrir mão da imunidade no F4 para fazer fogo e assim eliminar com as suas próprias mãos quem precisa ser eliminado. Isto realmente pode acontecer. Outra estratégia (arriscada) seria fazer o oposto. Ao invés de dar a chance para seu maior oponente de brilhar na frente do júri, a pessoa poderia arriscar e “arrastá-lo” para a final com o intuito de usar este fato contra ele no Final Tribal Council. Acho que é arriscado e existe sempre o risco do júri entender esta jogada como um ato arrogante, mas tudo é possível.

Survivor é um jogo que evolui e por mais que eu ainda odeie essa twist do fogo ela agora faz parte e pode ser usada de maneiras diversas. Inclusive, acredito que a twist do fogo pode ter o seu lado positivo, não por ajudar grandes participantes a chegar à final, mas por antecipar a necessidade de eliminar grandes ameaças. Se antes era possível aguardar até o F5 ou F4 para eliminar alguém com grandes chances de ser o vencedor, agora tudo ficou mais arriscado. Esta necessidade de eliminar alguém antes do finalzinho do jogo é uma boa maneira de fazer o jogo esquentar mais cedo e também de evitar Pagongs na merge. Afinal, Domenick poderia ter trabalhado com os Navitis para evitar que Wendell chegasse ao Final Tribal Council. O que provavelmente renderia uma temporada menos sonolenta e previsível.

David Vs. Goliath também pode ajudar neste processo de um jogo mais urgente na merge, uma vez que alguém venceu os últimos três challenges da temporada e arrancou para a vitória. O medo de um novo Nick (ou melhor de um novo Mike Holloway, vencedor de Worlds Apart) somado ao desafio de fogo pode fazer os participantes jogarem de forma mais agressiva mais cedo. Eu sempre fui da corrente que acha que existe muito tempo para eliminar as grandes ameaças e que não há motivo para pressa. Entretanto, a evolução do jogo está mudando um pouco a minha cabeça.

Para falar um pouco sobre Kara, ela foi uma boa jogadora e teve um bom tempo de tela mesmo não tendo muitos feitos. Muita gente considerava que o seu airtime era um grande sinal de que ela seria a vencedora. Vou confessar que tive medo de Kara ganhar, digo medo porque ela era uma das últimas na minha preferência. Na verdade, meu medo era muito mais motivado pelo fato de muitas pessoas a apontarem como provável vencedora do que por eu achar que ela era uma grande candidata à vitória.

Na minha visão, Kara nunca teve nem mesmo edição de vencedora. Ela nunca teve aqueles confessionais ligando a sua vida pessoal ao jogo, falando algo mais pessoal ou sobre sua família e nem a sua estratégia para vencer. A grande maioria do que vimos sobre ela era relativa a outros jogadores e circunstâncias pontuais do episódio. Não existia uma jornada e até Michele, vencedora de Kaoh Rong, teve uma trajetória marcada pela edição. No Final Tribal Council, ela se auto intitulou como uma jogadora social, o que me parece ser verdade, mas nunca tivemos o ponto de vista dela a respeito de como ela achava que deveria se portar para vencer. Vejo a sua edição como circunstancial, porque ela dava bons confessionais que ajudavam na construção do episódio. Após muitas críticas a edição de Ghost Island também é natural que os editores dividem melhor o tempo de tela e Kara realmente fazia boas observações, o que justifica ela ter aparecido bem.

Para mim Kara foi uma personagem ok e uma boa jogadora, mas um tanto quanto passiva. Além de não ter mostrado muita criatividade na hora de votar, como quase todos os Goliaths, Kara pareceu ser a pessoa que vai na onda dos outros. Tanto no penúltimo episódio quanto na finale, outros participantes apresentavam uma ideia e em seguida ela acatava como se a ideia fosse sua. Davie: “Temos que eliminar Nick”. Kara: “Temos que eliminar Nick”. Mike: “Temos que eliminar Davie”. Kara: “Temos que eliminar Davie”. Na grande maioria das temporadas, é necessário mais atitude para vencer Survivor.

A única vez que vimos Kara tomando a iniciativa foi quando ela resolveu que estava na hora de se livrar de Dan, mas Alec e Alison a convenceram que eles deveriam permanecer no Goliath Strong. Assim, vejo que para credenciar Kara como possível vencedora, tanto na prática quanto pela edição, faltou um pouco de protagonismo. Eu não tenho muita coisa para falar mal dela, afinal Kara nem cometeu muitos equívocos, exceto ter se aproximado de Dan.

Entretanto, também não tenho muita coisa para dizer a favor. No Survivor moderno, especialmente numa temporada tão frenética, seria um balde de água fria a vitória de alguém que vence por não ter feito nada de mal pro júri ou apenas por ser gente boa. Acho sim ela simpática e que gostaria mais dela se não tivesse visto tanta gente forçando a barra em seu favor. Kara mesmo usou como argumento, para convencer Nick no f4, o fato dela não ter feito muita coisa no jogo. Para mim, acho que existem sim casos em que a edição, por falta de tempo, não dá os devidos créditos para alguns jogadores, mas acho que as vezes é só Fanfic de alguns telespectadores mesmo.

The Marvelous Mrs. Angelina

Assim como aconteceu durante toda a temporada, na finale, Angelina continuou sendo protagonista. Para o bem ou para o mal, esta demônia causou, nos presentou com momentos hilários (a maioria de flops) e chegou na final para jogar na cara de todo mundo que ela forneceu arroz para as pessoas de forma altruísta. Uma grande negociadora que agitaria até mesmo o reality Shark Tank.

O episódio começou com Angelina encontrando a pista para o último idol, algo que a deixou tão animada que ela perdeu a clue nos momentos seguintes. O resto é história. Angelina perdeu a pista, desenterrou a escada, a posicionou numa pedra que claramente não seria necessária uma escada para subir nela e ficou presa num lugar alto. Hahahahahahahahahahahahahahahahahahaha. Que mulher. Melhor ainda foi ver ela fazendo cena ao fingir que tinha caído e machucado as costas. A sua cara de sofrimento foi digno da mãe que vai no Casos de Família para que a sua filha lhe revele um segredo completamente inútil.

Desde o início da temporada, quando observou a quantidade de idols encontrados por mulheres, a edição construiu uma trama em volta do feminismo e eu sabia que no final ela marcaria um ponto para o time das mulheres. Achava que ela poderia vencer um homem no desafio do fogo, mas o que aconteceu mesmo foi ela ter encontrado um idol. Eu concordo muito com o discurso de Angelina de que é muito mais difícil para uma mulher se dar bem em Survivor do que para um homem. “Se ela é assertiva, ela é vista mandona. Se ela é emocional, soa como histérica”. Tudo isso é bem verdade tanto no jogo quanto na sociedade em geral. Não tenho dúvida que Angelina é uma mulher forte, mas ela também mostrou-se um tanto quanto atrapalhada.

Além das exageradas, em que as suas intenções de impressionar ficavam evidentes demais, o seu discurso é um tanto quanto inconsistente. Angelina entende e fala de feminismo como ninguém, mas também se gaba por ser esposa de um militar. Angelina fala que foi a única mulher da temporada a encontrar um idol, mas precisou de ajuda de Nick e Mike para encontrá-lo. De novo, ela é sim uma mulher forte e jogou como tal, sem medo de errar e com sangue nos olhos, mas em alguns momentos forçou a barra demais.

A estatística de que 15% dos idols são encontrados por mulher é um tanto quanto assustadora e pode revelar muita coisa sobre a nossa sociedade. Não acho que os idols são escondidos de forma a favorecer os homens a encontrá-los de maneira nenhuma. O que pode explicar esta discrepância tão grande é o fato de que homens e mulheres ainda têm papeis bastante distintos no mundo de hoje. O homem tem mais liberdade para fazer uma série de coisas, enquanto a mulher precisa se explicar mais para fazê-las. Assim, acredito que, por uma questão cultural, os homens conseguem ter mais tempo e liberdade para procurar idols do que as mulheres, o que leva a um número tão desigual de idols encontrados. Se contarmos as vantagens também, de 9 idols ou vantagens de David Vs. Goliath apenas uma foi encontrado por uma mulher, o que significa 11,1%.

Angelina venceu a probabilidade e o patriarcado, mas também sofreu demais por ter um jogo um tanto quanto errático. Ela sobreviveu a momentos bem complicados e deu a volta por cima, mas a sua falta de finesse e sutileza com certeza a prejudicou muito.

Não tenho dúvida que Angelina foi a grande personagem de Survivor em 2018, sendo inclusive a participante com o maior número de confessionais na temporada, 54 no total (1 a mais que Nick) e 14 só na finale. São de participantes como Angelina que Survivor precisa para se manter divertido e relevante, pessoas carismáticas e que fazem de tudo para obter qualquer tipo de vantagem, seja uma jaqueta ou um idol. Acredito que Angelina retorna ao reality muito em breve e muitos dos seus colegas de edição também merecem o retorno. Ao lado de Angelina, destaco Christian, Davie, Nick, Natalie, Elizabeth, John, Alec e Gabby. Muitos deles merecem uma Second Chance.

Neste provável retorno, ela terá a chance de consertar alguns aspectos do seu comportamento no jogo, mas também encontrará mais desconfiança logo de cara. Se ela voltar mesmo para o reality, acredito que tudo pode acontecer. Vejo ela sendo alvo no início por ser vista como alguém malicioso e estrategista, mas também acredito que ela pode capitalizar em cima dos seus erros em David Vs. Goliath. Com alguns ajustes e um pouco de sorte, Angelina pode sim vir a ser uma grande jogadora.

Sendo um júri bem compreensivo e pouco bitter, Angelina nem foi tão atacada no Final Tribal Council. Apenas Davie deu um certo coice nela ao dizer que um ato altruísta precisa ser altruísta e não jogado na cara de todo mundo o tempo todo. Contudo, acho que apenas Dan poderia ter de fato votado em Angelina, apesar de muitos valorizarem alguns pontos da sua trajetória.

Mike, um runner-up tardiamente valorizado pelo público

No primeiro episódio, Mike se colocou numa situação perigosa quando sem disfarçar saiu em busca do idol, se ausentando do acampamento por muito tempo. Entretanto, após este deslize, ele só voltou a ser alvo na finale. Isto comprova com tranquilidade o ótimo jogo realizado por Mike ao longo da temporada. Não é como se ele tivesse sido arrastado ou não feito jogadas. A verdade é que o cineasta conseguiu ficar muito tempo sem ser uma opção para a eliminação mesmo sendo bem ativo.

Na minha opinião, 2 fatores foram fundamentais para que Mike fosse tão bem sucedido. O primeiro fator foi a aliança com Nick, que fez ambos não serem alvos durante um bom período de tempo em que David Vs. Goliath deu a tônica da temporada. Com a aliança Rockstar, Nick evitava que Mike fosse o alvo dos Davids, enquanto ele fazia o mesmo para o Defensor Público com os Goliaths.

O segundo fator foi Mike ter conseguido usar a sua profissão e condição financeira para não ser visto como ameaça. “Eu já tenho dinheiro. Sei que não vou ganhar mesmo”. “Estou aqui pela aventura e pela experiência”. “Para mim, o que vale é o arco-íris e não o pote de ouro no seu final”. “Me mantenha no jogo e você vai ganhar de mim na final”. Cada jogador tem suas características próprias, suas forças e suas fraquezas e Mike soube usar a sua fraqueza a seu favor. Para mim, Survivor é como um jogo de Super Trunfo (ou Magic) em que cada carta tem forças e fraquezas e o jogador tem que saber usá-las da melhor forma possível. Famosos costumam sair precocemente em Survivor, mas Mike conseguiu o mesmo feito de Lisa Whelchel, a eterna Blair de The Facts of Life, ficando em segundo lugar. Talvez um dia um famosinho possa vir a ser o vencedor.

Tal estratégia quando funciona é excelente para fazer o jogador chegar ao F3, mas tem um certo problema, o Final Tribal Council. É bem verdade que Mike usou a sua persuasão para convencer os outros participantes de que ele não teria chance no final, quando na verdade na sua cabeça ele pensava “But I don’t know about that”. O problema é que em Survivor percepção se torna verdade, o que pode ser considerado o calcanhar de Aquiles da sua tática.

Muitos júris quando votam avaliam o quanto o finalista enfrentou de obstáculos para não ser eliminado e numa temporada chamada David Vs. Goliath isto fatalmente ocorria. Mike não foi alvo em momento algum, esteve praticamente o tempo todo em maioria numérica e não se arriscou muito no jogo, fatos que com certeza contribuíram para a sua derrota.

Em seu voto em Mike, Christian defendeu que o seu escolhido fez um jogo transformador, que teria o potencial de mudar a maneira como Survivor é jogado. Por mais que eu valorize o jogo de Mike, principalmente na sua etapa final, acho que o ele está longe de ser transformador ou de inovar em alguma coisa. Em Heroes Vs. Villains, Sandra cansou de usar o fato de que ela já era uma vencedora e de que já tinha 1 milhão na sua conta bancária para ser subestimada pelos seus adversários. Além disso, não importa que seja fama, dinheiro ou qualquer outra coisa, a estratégia de usar seus pontos fracos para tentar não ser alvo é mais do que antiga. Cirie cansou de usar esta carta nas suas duas primeiras participações e até Natalie tentou fazer o mesmo no início de David Vs. Goliath.

Para mim, Mike perdeu porque chegou à final com Nick, quando seu F3 ideal seria contra Angelina e Kara. O desafio de fogo complica muito as coisas de quem precisa de uma formação de finalistas tão específica para ganhar, já que não existe um jeito de garantir quem sai no F4. E nem consigo dizer que ele errou em não eliminar Nick antes, uma vez que entendo que ele também perderia de Christian, Davie e Alison, últimos eliminados antes do F4.

O que Mike fez muito bem foi saber transitar entre diversas alianças, formando um verdadeiro tráfico de informações, que desestabilizou jogos alheios e o fez não ser o centro das atenções. Por todos esses motivos, acho o segundo lugar muito merecido. Acho que, além de ter feito propaganda negativa do seu próprio jogo para sobreviver, Mike também foi um jogador que ficou um tanto quanto na zona de conforto. Ele ficou muito na aliança Goliath, sem ter que se arriscar por muito tempo. Se não fossem os Davids, que chacoalharam o jogo conseguindo eliminar John e Dan, dando outros rumos para a temporada, acredito que sempre existiria alguém que venceria Mike na final. A probabilidade dele chegar na final de qualquer forma seria enorme, mas de vencer não. Isto revela um ótimo jogo para sobreviver, mas não tão forte para ganhar.

Enquanto personagem, eu tinha muita expectativa que Mike White seria icônico, sarcástico e agressivo. Todavia, no fim da jornada, fico com a impressão de que ele não é assim tão carismático. Não sei se chega a ser arrogância, talvez seja só uma dificuldade dele em fazer as pessoas se identificarem com quem tem uma vida tão diferente. De qualquer forma, eu não consegui torcer por Mike, que até me irritou com algumas manias, principalmente no Final Tribal Council. Nesta ocasião, Mike deu risinhos irônicos e olhares meio arrogantes que me irritaram bastante.

Ele é sim alguém sarcástico, mas não tenho certeza se este sarcasmo foi capaz de se transformar em entretenimento para o público. No FTC, Alison questionou a respeito dele ter dito que faltou dignidade para a médica nos seus últimos momentos de jogo. Pessoalmente, não vi este comentário como piada ou sarcasmo e sim como um ataque pessoal de quem não gostou de ter seu nome ventilado no acampamento para ser o eliminado. De qualquer forma, o comentário nem impediu que Alison lhe desse o voto, o que é ótimo, uma vez que acredito ser bobeira deixar de votar em alguém por um motivo tão bobo.

You Get What You Give

Desde a promo de David Vs. Goliath exibida na Reunion de Ghost Island, eu logo simpatizei com Nick e achei que ele seria um jogador bastante relevante. Como eu estagio na Defensoria Pública da União e tenho grande admiração pela sua carreira e sabia que ele teria tudo para ser um dos meus favoritos.

Quando fui fazer a minha review com as minhas primeiras impressões do elenco, inicialmente pensei em apostar numa mulher como vencedora, uma vez gostei muito do elenco feminino, sendo Angelina era a favorita a ser a minha escolhida. Entretanto, depois de analisá-la mais de perto fiquei com a impressão de que ela era convencida demais e que a sua autoconfiança excessiva seria um problema. Assim, apostei em Nick para a vitória porque ele demonstrou em sua entrevista com Josh Wigler ser carismático e ter grande conhecimento de Survivor. Estou muito orgulhoso de ter acertado o vencedor e ainda mais feliz disto ter acontecido numa temporada em que torci justamente para quem eu tinha apostado. Fazia muito tempo que não ganhava aquele participante que torci durante a maioria da temporada. Acho que desde San Juan Del Sur isto não acontecia.

Nick tem diversos acertos ao longo dos seus 39 dias de sobrevivência, porém acredito que seja fácil resumir o seu jogo numa frase dita na temporada. Se Sandra consagrou a estratégia “as log as it’s not me”, Nick baseou o seu jogo em “you get what you give”. A ideia central por traz da jornada de Nick foi dar confiança e lealdade verdadeira em busca de confiança e lealdade verdadeira. A cada promessa feita, informação compartilhada e voto dado, Nick foi provando a sua lealdade aos seus aliados e construindo uma teia de relações bem diversificada.

Um momento claro em que isto fica bem visível foi quando a Jabeni era composta por 2 Davids e 2 Golaiths. Ao invés de forçar um empate e torcer para Lyrsa bater Angelina no desafio de fogo, Nick abriu mão da aliada em busca de uma oportunidade de jogar com os 2 Goliaths. Não atoa os 3 formaram o Final 3 da temporada.

É importante perceber que a tática nem sempre funcionou, afinal os Goliaths permaneceram unidos durante grande parte do jogo e Nick tomou blindsides nas eliminações de Carl e Davie. Contudo, o seu forte apelo social, em que Nick foi capaz de construir conexões reais e laços fortes de amizade, fez com ele chegasse ao dia 39 sem ter tido um voto sequer em todos os Tribal Councils. Mike e Angelina podem não ter votado com Nick em todas as oportunidades, mas sempre estiveram presentes para descartar ele como opção de voto.

“You get what you give” foi tema central do episódio número 8, intitulado com esta frase e que resultou na épica eliminação de John. Quem teve deu quote nem foi Nick e sim John, mas a frase resume bem o que o David fez durante toda a sua jornada e os Goliaths nem tanto. Numa simplória tradução, as palavras de John foram: “No final das contas, você recebe o que você dá. Assim, se você não oferece nada, você não tem chance de receber algo honesto de ninguém”.  Em português, costumamos resumir isto tudo com o “Você colhe o que você planta”.

Na ocasião, Nick complementou o raciocínio já sabendo que os Goliaths queriam usá-lo no jogo sem dar nada em troca: “Funciona para os dois lados. Confiança não é conquistada mandando nos outros ou dizendo como os outros devem votar. Tem que ser uma relação de dar e receber, uma via de mão dupla. Eu sinto que tenho este tipo de relação com algumas pessoas da tribo. Eles sabem que eu estou pronto para trabalhar com eles, não somente hoje, mas pelo resto do jogo”. A estratégia de Nick sempre foi a de jogar socialmente, formando um grupo de expectativas alinhadas em que todos seriam beneficiados.

Em Survivor, todo mundo promete muita coisa, mas nos votos é que a confiança é consolidada. Tendo isto em vista, Nick votou primeiro em Lyrsa para conquistar a confiança de Mike e Angelina e depois em Elizabeth para consolidar confiança com estes e outros Goliaths. Como disse anteriormente, não foi suficiente para que os Goliaths se traíssem no jogo, mas funcionou no sentido de Nick não ter sido alvo e ainda ter recebido a informação de Alec (segundo o Defensor Público, Mike, Alison e Angelina também lhe contaram) que o voto seria em Christian na ocasião em que Davie usou o idol e os votos foram divididos entre Angelina e John. Com estes dois votos, em Lyrsa e Elizabeth, Nick deu um passo para trás, uma vez que ambas eram suas aliadas, mas com o objetivo de em seguida dar muitos passos a frente.

Eu acredito que este modo de ver o jogo por parte de Nick contagiou os Davids, o que culminou num dos melhores momentos da temporada, quando todos eles foram revelando o que possuíam entre idols e vantagens. Tanto a vantagem quanto o idol de Nick foram ferramentas que ele encontrou com Davie, o que mostra o quanto um confiava no outro. No decorrer da temporada, conclui a resposta para a pergunta que Jeff insistiu em fazer, confiança. Esta é a vantagem em Survivor. Assim, não é uma grande surpresa ver ganhando quem justamente foi capaz de entender o segredo para conquista-la. Primeiro você dá e depois você recebe.

A estratégia de Nick é algo tão intrínseco a sua própria personalidade que uma vez quebrada a confiança dificilmente Nick a reconstruía. O primeiro exemplo é Alison. Após inúmeras promessas da médica de que iria flipar, Nick cansou de esperar algo dela, que como não deu nada, recebeu em troca o seu voto roubado. O vencedor inclusive considera que o seu maior erro ao longo do jogo foi desistir da sua relação com Alison e Kara depois de seguidas promessas de flip não cumpridas.

Tudo isto prova a linha de raciocínio de Nick para o bem ou para o mal, uma vez que realmente isto também o prejudicou. Ele desistiu da relação com duas pessoas por não ser mais capaz de confiar nelas, o que é um bom motivo, mas chegou no F5 e elas ainda estavam lá, o que restringiu as suas possibilidades a Mike e Angelina.

Este comportamento também se repetiu nos momentos em que ele foi traído, nos blindsides de Carl e Davie. A primeira traição arruinou a Mason-Dixon line, já que Christian praticamente morreu para Nick após a inesperada traição. O Defensor Público sabia o tamanho da ameaça que Christian representava. Se ele próprio ganhou os últimos 3 desafios, Christian poderia sim fazer o mesmo. Antes da traição, o vencedor estava disposto a correr este risco se Christian fosse alguém em quem ele pudesse confiar, mas a jogada contra Carl provou que o risco era maior do que o benefício, o que levou a eliminação de Christian.

No blindside de Davie, o mesmo ocorreu e Nick se sentiu extremamente traído e usado por Mike. Esta quebra na confiança só não alterou o rumo do jogo porque ele já estava terminando, Nick venceu os próximos challenges e Kara não aceitou votar em Mike no F5.

É irônico perceber que o único momento que Nick correu risco de ser eliminado foi justamente quando ele deixou de compartilhar uma informação relevante com Davie. Do primeiro Tribal Council até o F7, este foi o único momento que Nick foi uma opção de voto, o que nos leva a entender que construir confiança é algo contínuo e árduo, mas para destruí-la ou abalá-la basta um ato. A relação de amizade e aliança entre Davie e Nick eram tão fortes que, até se abalaram por um momento, mas logo foram reconstruídas quando um abriu o jogo para o outro.

Um grande passo para ser bem sucedido em Survivor é saber aliar o jogo à própria personalidade. Nick e a grande maioria dos participantes vencem a sua maneira, sabendo administrar as suas forças e fraquezas num jogo tão difícil. Neste sentido, tenho certeza que por mais que ele seja novo e não tenha muita experiência na área, a profissão de Nick foi uma verdadeira escola de como lidar com as pessoas e como dar é importante para receber. No seu trabalho, Nick fornece assistência jurídica gratuita para pessoas que não têm meios de arcar com esses custos e com certeza recebe bastante gratidão por parte dos seus assistidos. “You get what you give” é a sua marca justamente porque em que ele realmente parece acreditar e apenas por isso deu tão certo.

Um Jogador Completo

Além da sua acertada forma de enxergar o jogo, Nick provou ser um jogador completo: ótimo no social, ótimo estrategicamente, ótimo em se adaptar a situações de adversidade, bem sucedido na busca por idols e vantagens e ainda capaz de vencer os challenges justamente no momento em que mais precisava. Sem dizer que ele não se contentou às estratégias já consagradas em Survivor, tentando inovar com novas táticas ainda não experimentadas.

É importante ter em mente algo. Nick é fã do podcast do Rob Cesternino e nele Tyson, um convidado recorrente, sempre afirma que o participante que está numa posição confortável deve esconder a sua força nos challenges até o F7. A partir deste momento, o vencedor de Blood vs. Water acredita que é necessário realmente entrar nos challenges para vencer, tentando arrancar para a vitória num momento do jogo em que já não existem muitos competidores fortes e opções de voto.

Eu tenho a plena convicção de Nick não estava se esforçando nos challenges até ficar sabendo que Davie fez um plano para eliminá-lo. Para mim, este foi o momento que marcou a grande virada no seu jogo físico. É bem verdade que Nick contou com a sorte de ter dois challenges em que um puzzle era decisivo, sendo que ele se mostrou realmente muito bom em quebra-cabeças. De qualquer forma, tenho bastante certeza que os outros participantes não viam em Nick um grande competidor nas provas, justamente porque ele não estava dando 100% na busca pela vitória até a reta final. Vencer um challenge de imunidade sempre coloca um certo alvo no participante e deixar de competir no seu máximo é uma estratégia muito válida para chegar na final.

Além dos podcasts, Nick também é muito fã dos Big Brothers americano e canadense. Tendo em vista que ele é o único participante de David Vs. Goliath que assiste ao Big Brother, ele conseguiu usar estratégias usadas neste outro reality para se beneficiar. Dar nome às alianças é algo que obviamente ele aprendeu a fazer vendo Big Brother, mas acho que muitas outras jogadas foram pensadas em esta inspiração. Entregar os challenges é algo muito comum no Big Brother Canada, mais um fator que me leva a acreditar que ele não estava se esforçando ao máximo para vencer a grande maioria das provas.

Vejo que conhecimento em Big Brother é muito útil nos tempos modernos de Survivor. No outro reality, o jogo pode mudar drasticamente de uma semana para a outra, já que o HOH (líder) concentra muito poder. Assim, esta ideia de fazer aliança com todo mundo e manter um social bom é algo já antigo no BB e que começou para valer mesmo em Survivor somente em Second Chance. No Big Brother, em algum momento dois aliados vão para o block, o que força o participante a desapegar de um deles. Isto foi algo que Nick também usou, ligando o Let it Go nas eliminações de Lyrsa e Elizabeth.

Acredito que Nick também soube esconder muito bem dos seus adversários outras suas forças que o ajudaram muito a vencer. Ao longo de toda a temporada, ele disse que se fazia de tonto e que as pessoas não sabiam o quanto ele era inteligente. Isto é tão verdade que ninguém parece ter desconfiado que ele é formado em Direito e que atua como Defensor Público, uma profissão que não ajuda muito os participantes a fugirem do alvo. No Final Tribal Council, eu duvido que algum júri estava esperando que Nick fosse tão articulado e com um discurso tão bem organizado.

A performance de Nick frente ao júri foi uma das melhores da história, o que não era muito difícil de imaginar quando a gente sabia que falar em público apresentando teses de defesa tentando persuadir o juiz ou jurados faz parte do seu dia-a-dia. Nick conseguiu apresentar seus argumentos de maneira clara, lógica e objetiva, parecendo verdadeiro e honesto, sem cair nas falhas de Angelina de claramente forçar a barra exagerando algo para se autopromover. Gostei muito de como ele apresentou informações e timing como as bases do seu jogo, principalmente porque a jogada contra John, o seu feito mais genial na temporada, demonstra muito claramente como estes dois fatores funcionaram em seu favor.

Outro grande acerto de Nick no Final Tribal Council foi perceber que num dado momento Mike estava indo muito bem, principalmente no seu discurso com Alison e Kara, e não hesitou em interromper o momento. Assim, ele mostrou que também fez os outros participantes subestimá-lo sem fazer a interrupção ser vista de forma negativa, ima vez que ele também elogiou o feito de Mike. Com esta interrupção que não pegou mal porque foi feita com educação, calma e naturalidade, Nick conseguiu expor um dos seus argumentos mais fortes num Tribal Council em que enfrentava Mike e Angelina. Ao contrário de Mike, Nick precisou jogar muito mais e teve que reverter momentos de grande adversidade, enquanto os Goliaths puderam sentar na sua vantagem numérica durante grande parte da temporada.

Por fim, Nick fechou o seu discurso com chave de ouro, quando conseguiu associar a sua jornada no reality com a sua trajetória fora dele, sem vergonha de abraçar o tema da temporada, mas sem soar forçado ou parecer ser uma fala ensaiada. Muitos fãs não gostam quando o finalista usa fatos marcantes da sua vida como a gravidez da esposa ou a doença da mãe no Final Tribal Council. Eu sempre discordei bastante deste tipo de posicionamento. Para começo de conversa, Adam e Jeremy já venceriam de qualquer forma e eles só demonstraram ao frente o que estava acontecendo com eles durante o jogo. Enquanto Survivor é filmado, a vida continua.

Eu sou uma pessoa que defende que o júri vota da maneira que quiser, mesmo discordando de alguns resultados e entendendo que o recalque faz sim muitos jurados votarem não naqueles que eu entendo como melhor jogador em algumas temporadas. Apesar disso, não tem como Survivor ser um jogo frio, uma disputa em que os jurados vão analisar cada finalista sem emoção nenhuma. Neste sentido, para mim, muito porque o elenco é formado por 20 estranhas, é essencial que o candidato a Sole Survivor consiga passar para o júri um pouco de quem ele é na vida e dos seus desafios, paixões e valores.

Assim, acredito que Nick acertou bastante em contar a respeito da tragédia envolvendo a sua mãe, principalmente porque este fato o inspirou a ser quem ele é e trabalhar com o que ele trabalha. Além disso, ele foi capaz de fechar o raciocínio voltando a sua trajetória no jogo e à história de David e Goliath, demonstrando as dificuldades que enfrentou e as habilidades que adquiriu na vida para ser tão bem sucedido em Survivor.

Na minha visão, experiência de vida é algo extremamente importante no reality e demonstrar o que inspirou todo o conceito do seu jogo é um grande acerto. Quando este tipo de coisa é feita por alguém que tem experiência em falar em público, tendo que ser persuasivo, com certeza o discurso encaixa mais fácil, mas o grande mérito foi ser verdadeiro e singelo.

Survivor não é um esporte. Trata-se de um jogo que dura 39 dias 24 horas. Os jogadores não são atletas, são pessoas vivendo. É óbvio que o espírito esportivo deve prevalecer em vários momentos, mas é importante lembrar que tudo aquilo foi realidade. O jogo é um entretenimento para nós, mas por 39 dias foi a vida de Nick, Mike e Angelina. Assim, eu defendo que este elemento humano tem sim o seu peso. Ver o júri simplesmente avaliando o “currículo” dos finalistas numa chata entrevista de emprego seria algo extremamente anticlimático.

Em relação ao Final Tribal Council, eu estou um tanto quanto dividido. Por um lado, gostei muito da performance dos 3 finalista e gosto de como a produção conseguiu atingir o seu objetivo de deixar a discussão mais sobre o jogo do que sobre questões pessoais de quem traiu quem. Survivor está numa nova Era e gosto do esforço para tornar a decisão do júri mais próxima de o que foi a temporada.

Entretanto, acho que neste novo formato os jurados perderam completamente a graça. É bem verdade que Nick, Mike e Angelina foram as estrelas do Final Tribal Council e isto não é ruim, afinal foram eles que chegaram na final e eram eles que deveriam convencer o júri de que merecem vencer. A alta qualidade das respostas e o grande destaque dos finalistas só comprova como tivemos uma final de alto nível, com ótimos jogadores disputando o prêmio.

Contudo, sinto falta daqueles grandes momentos de entretenimento que o formato antigo proporcionava. Tenho que admitir que tenho bastante saudade de discursos memoráveis como de Sue, Eliza, Penner, Brenda e Shirin. O Final Tribal Council ficou mais frio e para o entretenimento isto não é bom. Só fui gostar mesmo do FTC quando assisti pela segunda vez. À primeira vista, achei um tanto quanto sem sal, sem uma pimenta, mas ao rever percebi que os 3 finalistas foram extremamente bem nas suas palavras finais.

Para fechar, Survivor David Vs. Goliath foi uma temporada maravilhosa, que recuperou parte do prestígio da franquia. O tema funcionou muito bem e o elenco foi o que fez a diferença. Além de tudo, o vencedor foi ótimo e é um grande incentivo para os novos participantes buscarem um jogo agressivo e inovador não se contentando com a zona de conforto. A reunion foi melhor do que o normal hoje em dia. Mesmo com uma duração bem curta, Jeff até que falou com bastante gente. Não sei se muito do que foi feito em David Vs. Goliath é resultado das críticas às últimas temporadas ou se um grande elenco fez a CBS aproveitar tudo ao seu máximo.

Survivor Seeking The Extinction

Além do governo do Bolsonaro, que já conseguiu voltar mais atrás do que a Marina Silva, 2019 também não me anima muito por conta da Edge of Extintion, uma temporada que eu já odeio desde quando saíram os primeiros rumores. Tomara que eu queime a língua, mas acho que o limite a ser testado na temporada de número 38 é o da minha paciência. Survivor realmente parece estar em busca da própria extinção com um tema tão ruim, que vai inserir no jogo um revival da pior twist de todos os tempos, a Redemption Island ou como eu gostava de chamar a Flopation Island.

Tenho uma teoria que Survivor não estava mais sendo capaz de selecionar cerca de 40 ou 38 bons novos participantes por ano para entrar no reality. Millennials Vs. Gen X foi muito boa, mas Game Changers trouxe apenas retornantes justamente pela dificuldade de formar um bom elenco. HHH e Ghost Island foram temporada que decepcionaram e os elencos, apesar de terem bons nomes, foram no geral fracos. Assim, acredito que a produção optou por colocar os melhores participantes que tinha em vista em David Vs. Goliath, chamando 4 retornantes favoritos do público para levar a próxima temporada nas costas.

Este tipo de estratégia é bem arriscada, uma vez que os novatos podem eliminar todos os retornantes no início do jogo. Para evitar isto, a produção resolveu introduzir uma nova Redemption Island com um novo nome para não parecer tão ruim logo de cara.

Os dois novos participantes apresentados na promo não me animaram em nada e pareceram mais irritantes do que bons personagens. Eu gosto muito de Kelley Wentworth, David e Aubry, mas preferiria eles fossem guardados para a temporada de número 40, quando Survivor completará 20 anos no ar e precisa de uma edição comemorativa. Além disso, estou achando que Wentwoth e David saíram logo nos primeiros episódios e que a twist tem tudo para favorecer o Golden boy do momento, Joe. Vai ser puxado.

Espero estar completamente enganado, mas Edge of Extinction tem tudo para ser bem ruim. Que façam o trabalho de casa e selecionem bons participantes para a trigésima nona temporada, que já é a minha esperança para Survivor em 2019. Até o nome da temporada é ruim, parecendo mais o título de um filme bosta da franquia Transformers (apesar que eu adorei Bumblebee).

Gostaria de agradecer a todos que estiveram comigo ao longo desta temporada sendo lendo, comentando ou falando mal das minhas review.

Obrigado e até Edge of Extinction!

REVISÃO GERAL
Nota:
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survivor-david-vs-goliath-37x13-14-with-great-power-comes-great-responsibility-reunion-show-season-finaleSurvivor David Vs. Goliath foi uma temporada maravilhosa, que recuperou parte do prestígio da franquia. O tema funcionou muito bem e o elenco foi o que fez a diferença.