Supergirl abusa da presença de Lex Luthor em seu melhor episódio da temporada.
Quando anunciou a presença de Lex Luthor na série, Supergirl me deu um baita susto, apesar do movimento ter sido previsível. Eventualmente, e especialmente neste caso específico, após o fiasco do Lex de Jesse Eisenberg em BvS, é comum que as séries da CW terminem recebendo uma oportunidade de trabalhar personagens icônicos que estão atualmente no cinema. Aconteceu com o Superman de Tyler Hoechlin e agora com o Lex de Jon Cryer. Em ambas as oportunidades tivemos reinterpretações de personagens consagrados, com um twist que faz alusão a mitologia já estabelecida enquanto tenta criar algo novo. ‘The House of L’ é, assim como The Adventures of Supergirl foi para o Superman, uma excelente (re)introdução de Lex Luthor a mitologia da série, expandindo sua presença neste mundo e reforçando seu status quo.
O capítulo conecta a presença do vilão aos fatos que estão acontecendo desde o começo da temporada. Claro, existe uma sensação de que em determinado momento os roteiristas simplesmente decidiram deixar de lado Ben Lockwood e investir no Lex, mas com um episódio tão bem escrito fica fácil deixar de lado essa impressão pesada de um retcon existente. Talvez os roteiristas realmente tenham planejado inserir o Lex e o conectar a tudo, até mesmo a criação da persona do Agente da Liberdade, mas depois de ter investido tanto em Lockswood e em sua agenda, inclusive com entrada no governo, parece que realmente existiu uma mudança de rumo brusca – mas bem melhor do que a da Régia e as destruidoras de mundos da temporada passada.
The House of L é, em essência, um episódio sobre conexão e o desejo de pertencimento, além da própria identidade. Lex, apesar de exagerado em alguns momentos, conseguiu alguns tons mais humanos neste capítulo. Sua aproximação com a Filha Vermelha não é apenas uma tentativa de se vingar da irmã e do mundo, mas ajuda a compreender o buraco deixado por Lena em sua vida. Assim como com a irmã, ele também joga xadrez com a nova companheira, uma conexão que a série já expôs como algo muito íntimo para ele e também para Lena. Existe um mistério ao redor da imagem de um vilão tão forte e Cryer está fazendo o possível para transferir uma boa atuação para seu personagem.
O momento em que Lex e a Filha Vermelha entram no apartamento da Kara, além da revelação de que Lex sabe a identidade da Supergirl, foi assustador. E a atuação de ambos conseguiu vender exatamente o que precisávamos. O flashback, que se divide entre o que aconteceu há três anos, durante o julgamento do primogênito Luthor e caminha até o crossover de Elseworlds, enquanto Kara estava em Smallville com Clark, foi muito bem utilizado. Toda a narrativa construída não deixou o ritmo cair, mesmo com momentos mais brandos, porém recheados de tensão.
Nesta busca por identidade a Filha Vermelha acorda com apenas uma palavra na cabeça, Alex. É uma excelente maneira de restabelecer a conexão primordial entre irmãs, algo que está no DNA de Supergirl desde seu primeiro episódio. É refrescante, para dizer pouco, que a série tenha optado por esquecer completamente qualquer possível arco amoroso para a heroína e decidido novamente investir no relacionamento entre Alex e Kara, ou Alex e a Filha Vermelha. Outro ponto interessante foi a revelação de que existe uma bondade inerente nesta versão alternativa da Kara. Essa Filha Vermelha/Floco de Neve tem como primeira atitude ao descobrir o despertar dos seus poderes, ouvir a serenidade da natureza, procurar ajudar outras pessoas, ao invés de simplesmente agir como uma tábula rasa sem qualquer contato ou conexão com o lado humano.

Logo, sua aproximação com Kara, apesar do mundo que as separa, é relevante para a história, da mesma forma que a trama da xenofobia também estava sendo até então. Existe ali uma crítica muito presente ao modelo de vida norte americano. A Filha Vermelha enxerga a vida de Kara como uma carregada de luxo, com uma geladeira abarrotada e sustentada por um país que ataca, sem avisos, pessoas inocentes na Kasnia. Claro, o ataque foi uma ideia do Lex, mas não podemos nos esquecer de que o modelo de vida militarista dos Estados Unidos não está atrelado apenas a série, é algo bem real e mesmo que não tenham poderes, existem pessoas em outros países que os julgam culpados pela morte de seus entes queridos. Quantas crianças não morreram nestes confrontos? Esse é o paralelo que a série está buscando fazer e apesar de soar como brusca a mudança no foco, ela permanece pertinente.
E além de agradecer aos roteiristas por um episódio bem escrito, mesmo com o ar de retcon, preciso reconhecer a atuação de Melissa Benoist, que conseguiu criar sua terceira versão da mesma personagem dentro deste universo. Melhor ainda, Benoist vendeu sua interpretação como uma totalmente diferente da Kara. A Filha Vermelha sofrendo é o oposto da Kara sofrendo. A maneira que ela enxerga o diálogo entre os militares, durante sua infiltração no país, mostra uma reação diferente daquela da Supergirl. Ela não é inerentemente má, mas assim como Kara, mantém um forte senso de justiça e procura proteger o que é certo. Sua transformação em vilã, devido a morte do garotinho, é um pouco apressada, especialmente depois do que vimos no episódio, mas será necessário mais um episódio para enxergar como ela irá lidar com essa nova vida.
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Supergirl também mostrou como se usa a similaridade de um nome para vender sua história como algo crível e fortuito, diferente de certo evento criado por Zack Snyder. Martha em Batman V Superman soa, até hoje, como a pior piada do DCEU. Já a cena em que a Filha Vermelha procurar por Alex e encontra em Lex ‘Alexander’ Luthor a imagem que estava ausente de sua vida, mantém um foco bem melhor e faz mais sentido do que simplesmente alguém terminando uma briga de “morte” por causa do nome da mãe. Para todos os efeitos Supergirl entregou o seu melhor episódio nessa temporada, com ótimos momentos, atuações mais do que satisfatórias e uma história justa para dois personagens “novos”, Lex Luthor e a Filha Vermelha.
Easter eggs e outras informações:

– Filha Vermelha é a transformação de um arco de histórias em quadrinhos do Superman, em que a nave do Clark/Kal-El não cai nos Estados Unidos, mas sim na União Soviética. O uniforme, com as cores vermelhas e o martelo, também é saído das HQs, com a diferença de que lá também tínhamos a foice.
– Quando está disfarçada nos Estados Unidos a Filha Vermelha usa o nome de Linda Lee. Linda Lee Danvers é o nome da identidade secreta adotada por Kara nas histórias da Supergirl antes do evento da Crise nas Infinitas Terras, quando a heroína morreu no combate contra o Anti-Monitor.

– No filme da Supergirl (1984), a atriz Helen Slater viveu a personagem Linda Lee/Supergirl, com uma peruca bem parecida com a usada neste episódio por Melissa Benoist. Na série, apesar de não ter dado as caras desde a terceira temporada, Slater interpreta a mãe de Kara e Alex.















