Em American Alien Supergirl apagou erros da terceira temporada e trouxe um pouco da primeira para a festa.

Supergirl é uma série que sempre está abarrotada. São vários personagens, temáticas e assuntos sendo “jogados” no telespectador com quase nenhuma sutileza. A mesma falta de sutileza também é utilizada para expor sua trama, assim como a “moral” das fábulas que a equipe criativa se propõe a contar a cada ano. E desde sua estria na CBS a série da Supergirl está alternando o foco de suas discussões para temas cada vez mais relevantes. A produção que começou tentando passar a mensagem de “qual o problema com a girl de Supergirl” migrou para assuntos mais condizentes com a nova era política dos Estados Unidos, falando de imigrantes e refugiados através da alegoria de alienígenas (imigrantes são chamados de aliens e baratas nos EUA).

A mudança no tom, assim como na abordagem, foi bem severa também. O DEO continua operando em segredo, como um braço do governo para lidar com ameaças alienígenas, mas é apenas uma questão de tempo até que a agência seja oficialmente apresentada, já que os alienígenas que antes viviam em segredo hoje já estão procurando emprego e trabalhando por aí, uma realidade quase impossível de conceber durante o ano de estreia da série. E após alguns problemas de bastidores e com a conclusão da conturbada terceira temporada, Supergirl decidiu abraçar novamente sua característica primordial, a militância. E dessa vez sem Mon-El, que Rao nos abençoe.

Em American Alien a série retoma essa característica enquanto apresenta uma nova Kara, bem mais madura após três anos de altos e baixos. Ela não é mais aquela assistente atrapalhada, apesar de ainda manter essas características. O que eu percebi foi uma mudança de abordagem para série e também para sua protagonista. Não estamos lidando com uma versão feminina do Clark Kent, que precisa escorregar e quase cair para vender a imagem de alguém totalmente longe do arquétipo do Superman. Kara é forte, decidida e praticamente uma Cat Grant. Mal posso esperar para a Kara assumindo o CatCo na quinta temporada e gritando “chop chop” para sua assistente.

O episódio, contudo, foi bem mais do que apenas essa constatação. O que tivemos foi a compreensão de que nossa amada heroína ainda não está totalmente blindada e que o novo vilão é bem mais assustador do que os anteriores. Estamos falando da intolerância. Apesar de compreender o mundo como algo melhor, afinal Kara é uma mulher cis hétero, branca e que nas horas vagas opera como heroína, o preconceito contra imigrantes, gays e negros continua de vento em polpa, cada vez mais cruel e forte. Aquele momento quando a Supergirl encontra o computador com as mensagens de ódio foi apresentado como parte da deep web, mas na realidade esses fóruns estão sendo expostos abertamente no meu Facebook, Twitter e outras redes sociais.

Logo, o trabalho deste capítulo de reintrodução da verdadeira Supergirl, sem Sam e Ruby (amém), é o de posicionar sua heroína contra um vilão presente no nosso dia a dia, um que não a permite separar quem ela está salvando de quem ela precisa lutar contra. Para J’onn a visão é bem clara e definida, não apenas por seu envolvimento com grupos de apoio para alienígenas no planeta, mas também por sua posição como homem negro nos Estados Unidos, um país em que a questão racial tem ficado cada vez mais forte. Para ele é fácil enxergar o crescimento de uma onda de ódio, para Supergirl, uma figura tão centralizada na esperança e no otimismo, nem tanto. O diálogo entre ela e J’onn foi totalmente pertinente e com um poder incrível para quem não consegue enxergar o discurso político em cada material que consome, principalmente da televisão.

A própria sensação de recomeço e da série voltando aos trilhos, especialmente após uma cena da Supergirl salvando um trem antes do descarrilamento, veio com Nia Nal (Nicole Maines). Voltar ao CatCo e ter Kara novamente trabalhando como uma repórter foi um sopro de ar fresco. Claro, não faz muito sentido a Kara ter se tornado uma repórter tão experiente, afinal quase não a vimos trabalhando desde a introdução do Snapper Carr (lembra dele?), mas ter a oportunidade de ver a Kara interagindo com outros seres humanos, sem qualquer necessidade de usar seus poderes (é uma questão de tempo, mas vamos aproveitar) também foi ótimo. Essa versão nova da Kara, cheia de entusiasmo e pronta para absorver cada conselho aprendido com Cat Grant, o repassando como professora, foi apenas a cereja do bolo.

Claro que não seria Supergirl sem o excesso de tramas e além da Kara agindo como mentora, tivemos Alex se acostumando com sua posição como diretora, assim como o seu primeiro obstáculo em forma de alienígena do século XXX, Brainy. Mas o episódio não deixou de lado cada um dos outros personagens, mesmo que minimamente. Lena surgiu para voltar a ensaiar seu problema com a Supergirl, em um encontro com sua mãe Lilian Luthor, nos trazendo a incrível Brenda Strong de volta após um confronto mediano com o Cadmus na segunda temporada. Usando suas táticas Luthor de manipulação, porque uma Luthor é sempre uma Luthor, mesmo quando opera longe da vilania, a Lena meio que nos presenteou com um possível distanciamento do Guardião, o que por si só já compensa a quantidade de tramas que American Alien trouxe.

Mercy e Otis Graves funcionaram muito bem como vilões, assim como a motivação de uma dupla auxiliada por uma misteriosa figura que centraliza seu discurso no preconceito e no medo. A ‘Terra Primeiro’, frase usada pelo time de vilões para justificar atos de ódio contra alienígenas, é bem próxima de outras já gritadas em marchas de supremacistas brancos e apoiadores de fascistas. Outro ponto que consegui visualizar em Supergirl foi a busca pelo cômico e caricato com os irmãos Graves, que automaticamente me levaram para a era Donner do Superman. Mas não se engane, Supergirl ainda tem um pouco da fase Snyder correndo em suas veias, quando necessário, para balancear o tom mais jocoso de um humor já datado.

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Em resumo Supergirl voltou muito bem, mostrando que os problemas causados na terceira temporada foram caso de bastidores. Pronta para trazer os elementos que funcionaram na CBS e que arrancaram críticas positivas em sua mudança para a CW, a série não está se envergonhando e deverá continuar com essa crescente nos próximos capítulos. Estou verdadeiramente ansioso pelo futuro da série e depois de tanto tempo tentando me convencer de que a Supergirl que eu conhecia iria voltar, estou otimista (e levemente cauteloso, como a Kara).

Easter eggs e outras informações

– Mercy Graves, interpretada por Rhona Mitra em Supergirl, teve seu debut na série animada do Superman, em 1996. A personagem era a motorista e guarda-costas do Lex Luthor. Ela apareceu em Batman V Superman, interpretada por Tao Okamoto.

– Já o Agente Liberdade apareceu pela primeira vez em Superman vol. 2, número #60, em outubro de 1991. Diferente da série, que optou por transformar o Agente da Liberdade em um líder de um grupo de ódio, nos quadrinhos o personagem operou como herói por um bom tempo.

– O Superman está fora do planeta, visitando a cidade de Argo. Mas não se preocupe, ele volta para o crossover.

– Bruno Mannheim, também conhecido como o líder da intergangue, apareceu pela primeira vez em Superman’s Pal Jimmy Olsen #139. O personagem já esteve em Lois & Clark: The New Adventures of Superman, Superman: The Animated Series, Smallville e Young Justice.

– A atriz Nicole Maines, que interpreta a Nia Nal no episódio, é transexual e o primeiro caso de representatividade trans em uma série adaptada de história em quadrinhos. Fico muito feliz que a CW tenha dado esse importante passo.

– A Alex está namorando de novo (casualmente), e eu estou muito feliz por ela.

– O ator que interpretou o Otis (Robert Baker), esteve com a Chyler (Alex) em Grey’s Anatomy. E assim como ela, eu também odiava aquele cara.

– American Alien, nome do episódio, também é o título de uma minissérie do autor Max Landis, sobre o Superman.

REVISÃO GERAL
Nota:
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