Supergirl dedica um episódio inteiro para tratar de seu personagem menos explorado, James Olsen.

James ‘Jimmy’ Olsen sempre foi o coadjuvante. Até mesmo em sua série solo nas histórias em quadrinhos, Superman’s Pal – Jimmy Olsen, o personagem era tratado apenas como o amigo do Homem de Aço. Com a introdução do fotógrafo em Supergirl surgiu a oportunidade de reformular aquele que havia sido visto, por muitos anos e diferentes interpretações, como o alívio cômico e constante alvo de resgates. Existiu então a primeira tentativa, ao colocar James como par romântico da Kara, um movimento que falhou devido a falta de química entre os atores, além da maneira desajeitada que o roteiro tratou o casal. A segunda surgiu na atual temporada, com a promessa de que James se tornaria um herói, ponto que por muito tempo permaneceu nas sombras, tal qual o vigilante que não inspira nada além de medo no coração dos habitantes de National City.

É um pouco cruel dizer que o Guardião, que andou figurando como herói e que inclusive foi noticiado como tal, tenha sido tratado com tanto desdém por uma vítima – especialmente após ter sido salva por ele. Contudo em se tratando de Supergirl e da maneira que ela lida com seu herói, foi incrivelmente previsível. James nunca conseguiu realmente ser o herói que queria. Parte da culpa é do time de roteiristas, que escolheu tratar sua transição sem muito apelo. Vimos quase nada do Guardião e tirando a pequena briga entre Kara e James nos primeiros episódios da série, a trama ao redor do vigilante nunca engrenou verdadeiramente.

Com um episódio que coloca James como o herói que ele sempre sonhou ser, o texto quase confessa a posição em que o personagem foi colocado neste segundo ano, nas sombras. A história de um homem que cansou de ser coadjuvante não inspira, mas tão pouco a do herdeiro mimado que decidiu virar herói por causa da namorada. Só que o herdeiro pelo menos teve um ponto de desenvolvimento. Já o herói, não. Devolvendo o holofote para o personagem e fazendo de sua história algo relevante, não apenas para a série em si, mas para a temática de desenvolver um homem negro que precisou lutar contra o racismo para construir hoje o que ele é, foi a melhor saída para que Supergirl lidasse com seu próprio erro com James. Ainda está longe de uma reparação e em determinadas partes a série parece se esquecer do próprio discurso, relegando ao Guardião a posição de quase invisível para o arco, mas já é um começo.

Gosto do James e torci muito para que seu personagem encontrasse um chão firme para trabalhar. Ter um episódio dedicado a explorar sua fragilidade e também para impor sua relevância como mentor é um passo extremamente importante para a série, especialmente por fazer do James, assim como de sua persona como Guardião, tudo aquilo que havia sido prometido quando o primeiro discurso de pertencimento e aceitação, além de superação e desejo de ajudar, foram proferidos pelo ex fotógrafo. E neste aspecto James já é um herói, basta Supergirl vê-lo como tal sempre e não apenas em episódios que centralizem a história em cima do personagem.

Supergirl 2×20: City of Lost Children

Por enquanto o grande foco nesta sequência que promete continuar avançando até o final da temporada é em cima de Rhea e do seu relacionamento com o filho. Algo muito interessante na construção da personagem, além do ótimo trabalho de Teri Hatcher, é a maneira fria e manipuladora que a rainha de Daxam se porta, com qualquer personagem, mas que de certa forma expõe seu lado vulnerável. Rhea é uma mãe que ama seu filho, de um jeito que despreza qualquer noção de liberdade e individualidade dele, mas definitivamente com afeto e carinho. Supergirl não é apenas uma garota do planeta rival, ela também é a mulher que o seu filho único quer passar o resto da vida ao lado e que o fez mudar, a ponto de recusar o próprio estilo de vida e poder que a família cultivou por sabe-se lá quantas gerações.

Ao mesmo tempo Rhea é capaz de compreender Lena, de uma forma que não exemplifica apenas seu poder de manipulação, mas também sua visão de como um relacionamento entre uma mãe e uma filha precisa se desenrolar. Exatamente por ter uma noção básica do que precisa, Rhea consegue se conectar a Lena Luthor, entregando a ela exatamente o necessário para que o plano de abrir o portal na Terra seja concluído. O que torna a rainha da Daxam uma personagem interessante e complexa é a naturalidade dentro das cenas entre ela e sua “pupila”. Existe algum sentimento e acredito que Rhea realmente tenha se conectado a Lena. O problema é que seu plano, tanto de vingança quanto de “resgate”, é muito mais importante do que o relacionamento com uma garota de um planeta “primitivo”. Também é o que faz a cena em que Mon-El puxa uma arma para a própria mãe algo extremamente tenso, além do melhor uso do personagem para uma cena verdadeiramente emocional e totalmente sua.

É neste ponto que City of Lost Children encontra seu balanço. A história de James, por mais desnecessária neste momento, é boa o suficiente para não se tornar monótona, mas é o lado da Lena e sua necessidade de conexão que enriquece a trama consideravelmente. Também é fácil de traçar um paralelo entre a amizade de Kara e Lena, duas mulheres fortes, mas igualmente vulneráveis pelo passado de relacionamento entre elas e seus pais. A mãe da Kara foi uma carcereira implacável em Krytpon, já seu pai criou um vírus capaz de matar qualquer forma de vida alienígena em seu planeta, algo que facilmente aproxima uma da outra. Indo além, ajuda a entender como chegamos no ponto da amizade que Kara e Lena dividem, discutindo a respeito de N’Sync, Britney e Justin Timberlake, e dependendo emocionalmente desse laço de amizade – um ponto que apenas reforça a facilidade com que Rhea conseguiu manipular Lena com conselhos, elogios e relação mãe e filha.

City of Lost Children não é exatamente o tipo de episódio que Supergirl precisava para sua reta final, mas é sim muito importante para a construção geral da série e do aprofundamento de dois personagens importantes. James estava precisando de um choque de realidade, já que suas cenas como Guardião nunca conseguiram capturar a essência do heroísmo, ao passo que Lena, confirmada como parte do time regular do terceiro ano da série, demandou um reforço em seu pano de fundo antes de imergimos no último arco. E mesmo que este vigésimo capítulo não tenha alarmado um penúltimo episódio da série, com exceção dos minutos finais, a sua montagem foi estranhamente competente no que se propôs.

Easter eggs e outras informações

– Winn e James fizeram uma pequena referência ao Batman neste episódio, a segunda dentro da série. Bom, só podemos assumir que o assustador frenemy do Superman e com orelhas pontudas seja o Morcego de Gotham.

– Próximo episódio temos o retorno de Cat Grant e a segunda invasão alienígena das séries da DC CW.

REVISÃO GERAL
Nota:
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supergirl-2x20-city-lost-childrenA história de James, por mais desnecessária neste momento, é boa o suficiente para não se tornar monótona, mas é o lado da Lena e sua necessidade de conexão que enriquece a trama consideravelmente